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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

NIETZSCHE: O FILÓSOFO “POP”

Nietzsche é um pensador que, diferentemente da maioria dos filósofos, não possui um pensamento conciso e ordenado. Toda a sua vasta obra é fragmentária e vez ou outra contraditória. Além do mais, por usar um estilo muitas vezes poético e metafórico, sua obra é de difícil compreensão, o que gera muitas interpretações equivocadas, desvirtuadas e não condizentes com o seu pensamento. Por isso, durante boa parte do século XX, seu pensamento foi usado para os mais variados interesses e fins como para justificar o autoritarismo e a perseguição aos judeus por exemplo. O caso mais notório é o uso de seu pensamento pelos nazistas, um uso que o próprio Nietzsche, temendo a deturpação de seu pensamento, fez questão de alertar meio século antes. Ainda hoje, com a enorme popularidade que Nietzsche e o grande interesse que sua filosofia desperta por se tratar de um pensador atual, é possível encontrar seu pensamento sendo usado para os mais variados fins e sendo usado para sustentar as mais diversas bandeiras. E porque isso acontece? Basicamente devido ao estilo usado pelo filósofo alemão em suas obras. O uso do aforismo – um texto breve, normalmente de cunho moral, que encerra na mais das vezes uma sentença filosófica – é a principal razão. Além do mais, Nietzsche é um dos poucos pensadores a abordar os mais variados temas em suas obras. Ao usar sentenças breves, mutias não passam de duas linhas, e de impacto, faz com que sejam de fácil leitura e memorização, mesmo que nem sempre o leitor compreende de fato o seu real sentido. Quem nunca ouviu falar que “toda a vida humana está profundamente embebida na inverdade”(1), “Quem não sabe pôr no gelo seus pensamentos não deve se entregar ao calor da discussão”(2), “A exigência de ser amado é a maior das pretensões”(3), “É mais fácil lidar com sua má consciência do que com sua má reputação”(4), “A decisão cristã de achar o mundo feio e ruim tornou o mundo feio e ruim”(5), “A humanidade prefere ver gestos a ouvir razões”(6), “Onde quer que a neurose religiosa tenha aparecido na terra, nós a encontramos ligada a três prescrições dietéticas perigosas: solidão, jejum e abstinência sexual”(7), “Não existem fenômenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenômenos”(8), “Aprendemos a desprezar quando amamos, e justamente quando amamos melhor”(9), “As paixões tornam-se más e pérfidas quando são consideradas más e pérfidas”(10), “Pode-se recusar um pedido, mas nunca recusar um agradecimento”(11) e “Quanto mais alto nos elevamos, tanto menores parecemos àqueles que não sabem voar”? São por sentenças assim que Nietzsche caiu no gosto popular e se tornou um filósofo “pop” mas muito pouco compreendido infelizmente. E o que poderia ser um ponto a favor acaba se tornando um problema, já que se coloca na boca de Nietzsche aquilo de fato ele nunca disse ou pretendeu dizer. 

Notas
1. Humano, Demasiado Humano, Cap. I, aforismo 34
2. Humano, Demasiado Humano, Cap. VI, aforismo 315
3. Humano, Demasiado Humano, Cap. IX, aforismo 523
4. A Gaia Ciência, Livro I, aforismo 52
5. A Gaia Ciência, Livro III, aforismo 130
6. O Anticristo, aforismo 54
7.  Além do Bem e do Mal, Cap. III, aforismo 47
8. Além do Bem e do Mal, Cap. IV, aforismo 108
9. Além do Bem e do Mal, Cap. VII, aforismo 216
10. Aurora, Livro I, aforismo 76
11. Aurora, Livro IV, aforismo 235
12. Aurora, Livro V, aforismo 574

domingo, 29 de novembro de 2015

OUTRAS FORMAS DE DEMONSTRAR AMOR


O tempo, esse inimigo impiedoso de todos nós, é capaz dos mais profundos danos não só em nosso passado, nossa história e nossas lembranças, apagando e envolvendo nas mais profundas brumas tudo que ficou para trás, como também tem um efeito devastador sobre o nosso dia a dia. Principalmente num relacionamento amoroso, onde a rotina tem um papel semelhante, senão maior, em provocar desgastes e levar ao esfriamento da paixão, a qual é forjada nas mais intensas chamas. Isso deveria ser encarado com mais naturalidade pelas partes envolvidas, já que os sentimentos não são eternos e, por serem fruto de reações químicas no cérebro, tendem a perder força com o passar do tempo. Afinal não existe fogo que arde eternamente. Aliás, o tempo não afeta só os sentimentos, mas nossas ideias, nossas percepções e nossas reações diante de qualquer estímulo. O problema é que a maioria das pessoas não dispõe desses conhecimentos e são incapazes de compreender tais mudanças. E isso faz com que muitas vezes uma parte acuse a outra de falta de amor, atenção, carinho, alegando que não a ama mais, o que pode até ser verdadeiro. Na mais das vezes porém, a coisa não é bem assim. O fato de a paixão ter esfriado não é sinal de falta de amor. Há tantas outras formas de demonstrar amor sem que essas envolvam diretamente o sentimentalismo. O respeito, o companheirismo, o apoio, a compreensão, a atenção, o respeito, a renúncia entre outros também é forma de demonstrar amor. O que acontece é que, para algumas pessoas, isso passa despercebido ou até mesmo não tem importância alguma. Mas para outras isso tem um significado muito grande e lhe pode custar mais do que simples jogar palavras da boca para fora. De forma que, se uma pessoa já não demonstra seu amor através de palavras e carícias, pode ser que ela esteja demonstrando de outra forma. E pode ser que o outro simplesmente não esteja vendo isso.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

SÃO OS LOUCOS QUE MUDAM O MUNDO

Aquele que se deixa afetar pelas opiniões alheias não só dá razão aos detratores como também expõe as próprias fraquezas, mostrando não ser merecedor do apreço que tem e das verdades que prega. A nossa sociedade chegou aonde hoje está graças a perseverança, a coragem e obstinação daqueles que eram na maioria das vezes taxados de loucos, por desafiar as verdades aceitas por todos a sua volta, verdades essas que muitas vezes remontavam de um passado distante e as quais, para aqueles de visão mais ampla, eram inconsistentes e difíceis de aceitar. Hoje sabemos que a Terra é redonda e não plano como se acreditava antes; que não é o centro do Universo, que gira em torno do sol e não o contrário como se pensou por milhares de anos; que existem milhares de outros sistemas solares iguais aos nossos. O avanço do conhecimento jogou por terra todos os mitos que regiam a vida dos primeiros homens. Ah, como nossos antepassados eram escravos desses mitos! A maioria dos dogmas religiosos já não encontram mais uma base de apoio capaz de mantê-los de pé. E embora o homem ainda não tenha encontrado provas da existência de vida em outros planetas, nunca se esteve tão próximo dessa descoberta. Eu não tenho a menor dúvida de que isso ocorrerá no futuro; não num futuro próximo, mas daqui a meio século ou até um pouco mais. E quando isso acontecer, o único pilar que ainda sustenta a maioria das crenças religiosas, principalmente as três grandes religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e muçulmana, -- ruirá e então o homem chegará a conclusão que esse deus, um deus que criou o homem sua imagem e semelhança, e ao qual o homem se escravizou por milhares de anos, simplesmente não existe e nunca existiu. E então todos nós que, em pleno século XXI ainda somos chamados de loucos e vistos com desconfiança, inclusive condenados à morte em alguns países, por sermos ateus, por vermos o mundo sob uma outra perspectiva e enxergar nos dogmas religiosos a desrazão, seremos engrandecidos, assim como hoje se exalta Giordano Bruno, Galileu Galilei, Nicolau Copérnico e tantos outros, antes acusados de hereges e condenados por dizer aquilo que hoje é uma verdade incontestável pela ciência. Não se deve julgar e ridicularizar aqueles ainda presos às crenças do passado, pois muitos não estão preparados para a verdade dos fatos e não a suportariam. Da mesma forma não se deve deixar levar por essa maioria, pela maior onda, apenas porque nos sentimos um grão de areia diante dela; pois não são as grandes ondas que transformam o mundo – elas apenas provocam estragos e destruições --, mas os grãos de areia que, depositados lentamente um a um, formam os alicerces do saber e do avanço da humanidade em direção a um futuro melhor.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

EXIMINDO-SE DE RESPONSABILIDADES

O ser humano por natureza necessita constantemente de um bode expiatório para culpá-lo pelo seus próprios fracassos, pois esta é a melhor forma de se livrar do fardo da responsabilidade. Assim se faz àquele e a quem depositou sua confiança, dizendo: “Ele me enganou. Eu acreditei nele. A culpa não foi minha” ou coisas desse tipo. Como exemplo disso pode-se citar os políticos que, depois de eleitos, não horam o cargo para o qual foram eleitos, e então o eleitor prefere culpá-los por isso, sem se dar conta de que foi ele, o eleitor, quem fracassou nas suas escolhas, pois o poder só deve ser dado a quem o merece. Claro que em alguns casos a índole de um político só se revela quando lhe é dado poder, mas isso não exime o eleitor de seu erro. Outros, na impossibilidade de encontrar um verdadeiro culpado pelo seu fracasso, pelo simples fato de não existir um bode expiatório, atribui tal fracasso à vontade de Deus. Aliás, este é o pior tipo de ser humano, pois além enganar a si próprio, ainda foge de sua responsabilidade usando a fé como forma de não ser contradito. Essa é para mim a pior forma de esperteza, a qual não contribui em nada para um mundo melhor; ao contrário: rebaixa o homem. Mas infelizmente este é o caminho mais fácil, menos penoso e o qual exime as pessoas de suas responsabilidades. Lamentavelmente, só uma ínfima minoria não envereda por este caminho. Esta minoria porém não se encontra por aí.

sábado, 1 de agosto de 2015

O VALOR DA VIDA HOJE

Há uma crise de valores que vem afetando praticamente toda a humanidade, sem distinção de credo, raça, modelo econômico ou orientação religiosa. Todos parecem sofrer do mesmo problema, embora algumas sociedades sofram mais do que outras. A causa disso eu não sei exatamente. Talvez seja uma conjunção de fatores, uma vez que o mesmo problema afeta os mais distintos povos. Quanto a essa crise, ela parece bem clara: a vida, tão valorizada nos últimos séculos, já não significa mais como há algumas décadas. É como se em duas ou três décadas ela perdesse um valor conquistado durante séculos. Usando um jargão financeiro, é como se fosse a moeda de um país que, ao passar por uma grave crise econômica, perde completamente o valor. Parece que é mais ou menos isso que está acontecendo. As sucessivas crises econômicas pelas quais a maioria dos países enfrentou e vem enfrentando desde os anos 90, devido a globalização, afetou não só o valor dos bens materiais, como o valor da própria vida, a qual não deveria jamais ser equiparada a qualquer outro bem. A vida do outro parece valer muito pouco, isso quando vale alguma coisa. Durante milhares de anos, até o advento da modernidade, matava-se por qualquer coisa. E sobreviver, principalmente os que não tinham nada ou muito pouco, era uma questão de sorte. Era uma verdadeira luta pela sobrevivência, digna da teoria darwiniana. Hoje tem-se a impressão da volta desse terrível período de nossa história. E uma das causas desse desprezo pela viada é fruto da perda de força e significado da religião. Como o próprio Nietzsche afirmou há quase 150 anos, “Deus está Morto. Nós o matamos”. O cristianismo não rege mais o dia a dia dos cristãos, assim como o Judaísmo a dos judeus e o islamismo a dos muçulmanos embora a presença dessa última seja muito maior na vida dos muçulmanos do que o cristianismo e o judaísmo na dos cristãos e judeus. E mesmo aqueles que ainda acreditam num deus, na vida após a morte, lidam com a religião de forma muito diferente daquela que os nossos antepassados lidaram durante mais de 1.000 anos. E o que sobrou dessas crenças, tanto no cristianismo como nas demais religiões monoteístas, foi o que de pior havia nelas: o fundamentalismo. Aliás, este não é nada mais nada menos que fruto da perda de poder das mesmas. Ou seja: uma luta desesperada pela sobrevivência. Assim, cada uma trata a outra e as demais crenças como inimiga, como um mal que deve ser eliminado, usando os mais desprezíveis artifícios. E para isso deve-se antes de mais nada eliminar o indivíduo, alguém que não é como nós e por isso sua vida não tem valor. Essa é uma das principais causas do desprezo pela vida atualmente. Mas não é só isso. O materialismo sem limites, o consumismo como fonte de felicidade, uma felicidade inalcançável diga-se de passagem, também é responsável por isso. O homem hoje transformou o dinheiro em poder, o qual deve ser buscado a qualquer custo. E se para isso tiver de tirar o seu semelhante do caminho, não pensará duas vezes. Isso aliás é uma das principais causas no aumento dos latrocínios, das mortes por encomenda, da corrupção e dos crimes financeiros. Em nome do dinheiro tudo vale. Esse capitalismo selvagem que se pratica desde o fim dos anos 80 é fruto do fim da ameaça comunista. Desde o fracasso do socialismo, um regime que pelos seus próprios erros cometeu atrocidades mas que por outro lado segurava o cabresto do capitalismo, contendo o seu lado selvagem e desumano, o mundo vem se tornando escravo do capital, o qual surge como o novo deus, cultuado a cada dia mais por mais gente. E embora “o valor da vida não possa ser medido” como afirmou Nietzsche, hoje ela é negociada por qualquer bagatela. Enfim. O que tem valor hoje é o capital e o que ele pode comprar, o resto é supérfluo, inclusive a vida.

domingo, 22 de dezembro de 2013

UM LONGO CAMINHO A SE PERCORRER


Embora tenham sido os homens -- esses seres falhos e demasiado humanos -- os autores de nossas leis, são também eles que se apegam à lógica, ao rigor e a imparcialidade das mesmas, deixando de lado o bom senso -- o que nos é de mais humano --, como se a frieza e a verdade de um artigo fosse mais relevante. Ah, quantas injustiças são cometidas quando se esquece o humano e suas fraquezas! E o triste em tudo isso é que nem sempre a lei pune o infrator como se acredita, mas tão somente satisfaz àqueles que exigem a qualquer preço a justiça (a reparação do dano causado). Se todos aqueles envolvidos em condenar um réu (juízes, advogados, membros do juri e o próprio sistema prisional) entendessem um pouco mais de psicologia, as penas seriam mais eficientes e a própria criminalidade seria consideravelmente reduzida. Mas para isso é preciso uma completa reforma no sistema judiciário -- inclusive nas leis – e ainda não estamos preparados para isso. Ainda há um longo caminho a se percorrer.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A ERA DA INCERTEZA


Vivemos uma época de incertezas, onde as pessoas perderam completamente o controle de tudo a sua volta. Tem-se a impressão de que o homem se alienou de tal forma que nem mesmo o velho Marx foi capaz de imaginar. Se durante o século IXX, a alienação passou do processo de fabricação da mercadoria para outros ramos de atividade econômica, no século XX, chegou à cultura e à religião. E agora no século XXI chegou ao ponto em que a alienação nos levou a perder a crença em tudo e todos. O velho deus morreu, os velhos ideais viraram pó e o futuro virou um ponto de interrogação. Nem mesmo as leis e a justiça escaparam da nossa indiferença e se tornaram hoje motivo de descrença. A ciência avançou muito nas últimas décadas, mas em vez de respostas, ela só derrubou as velhas convicções, nas quais a humanidade procurava se sustentar, e em seu lugar, em vez de plantar novas certezas, plantou apenas incertezas. Assim, o homem tornou-se desconfiado, tão mais talvez que nossos primeiros ancestrais, e hoje desconfiamos de tudo e de todos. Cada um de nós passou a desconfiar de si próprio, pois descobrimos que em nós habitam muitos "eus" os quais estão constantemente em conflito. A tecnologia nos tornou tão dependentes dela que a máquina está se tornando mais importante que o homem. Os novos lançamentos de aparelhos eletrônicos provocam euforia e corrida às lojas como jamais se viu, dando a impressão de tratar-se de um novo deus, de um novo salvador. É meus amigos, vivemos uma época ímpar embora prevista por homens tão distintos quanto Marx e Nietzsche. Talvez tenhamos ultrapassado a Era conhecida até então como Contemporânea e entrado numa nova chamada de Era da Incerteza. Talvez estejamos caminhando para um abismo, um abismo construído por nós mesmos, os homens.

domingo, 21 de julho de 2013

J. M. SIMMEL E A MINHA OPÇÃO PELA LITERATURA



Quando se é um leitor voraz como eu fui na juventude, embora ainda leio bastante hoje em dia, inevitavelmente passou-lhe pelas mãos as mais variadas obras, inclusive obras de valor literário duvidoso. Comigo não foi diferente. Nos primeiros anos da juventude, quando adquiri o gosto pela leitura, li os mais variados autores sem se preocupar com a qualidade da obra. Aliás, a leitura não passava de um prazer, ainda para um menino tímido que não gostava de baladas e preferia mil vezes ficar em casa na companhia de um livro. E diferentemente do que ocorre hoje em dia, naquele tempo, nos primeiros anos da abertura política promovida pelo então presidente João Batista Figueiredo, as bancas de jornais lançavam coleções a preços baixos. Embora não fosse um garoto de posses, gastava todo o dinheiro que tinha na compra dessas coleções. Lembro-me de várias delas, como “Obras Primas”, “Grandes Sucessos”, “Grandes Romacistas”, “Best Sellers” e “Os Pensadores” da Editora Abril; “Super Sellers” da Editora Record; e “Best Quality” da Rio Gráfica entre outras que me fugiram à memória. Cada uma dessas coleções tinham em média 50 livros. Obviamente, não li todos esses livros, mas as páginas de uma grande maioria passaram pelos meus olhos. Além dessas coleções, sempre que podia, ainda ia a uma livraria – como faço ainda hoje – e comprava uma obra de algum autor que me agradara bastante. Naquela época eu tinha preferência por alguns autores, como Sidiney Sheldon, J. M. Simmel, Robbin Cook, Agatha Crhistie, Harold Robbins, Morris West, e mais uns três ou quatro que não me lembro agora. Dessa lista, sem dúvida J. M. Simmel era de longe o meu preferido. Tanto é verdade que consegui, ao longo de 10 anos, comprar e ler todas as obras dele. Alguns como “Ainda Estamos Vivos”(1985), “Não matem as Flores”(1983), “Viver é Amar”(1980) e “Ainda Resta uma Esperança”(1950) acabei lendo-os duas vezes em período distintos. E embora alguns eu tenha lido há mais de duas décadas, ainda me recordo perfeitamente da história. Dentre todas as obras de J. M. Simmel, a que mais me marcou foi “Viver é Amar”, a qual envolve espionagem, assassinato, roubo de identidade e uma descoberta científica que leva o personagem principal, Adrian Lindhout, a ganhar o prêmio Nobel de medicina enquanto ele trava uma luta desesperada contra os efeitos perniciosos da droga. “Ao mesmo tempo, surge um painel da reconstrução do Ocidente após a Segunda Guerra Mundial, os novos conflitos e uma visão lúcida das doutrinas políticas”*. Como na maioria dos seus romances, J. M. Simmel dosa emoção e suspense enquanto nos dá uma mensagem otimista, impregnada porém de realismo e com uma preocupação humanística, provando muitas vezes emoção no leitor. E, indiferentemente das qualidades literárias de algumas de suas obras, ele não foi só o meu autor preferido daqueles anos – ainda hoje tenho um carinho especial por suas obras --, como foi sem dúvida um dos autores que me influenciaram e me incentivaram a me tornar um escritor. Aliás, o meu gosto pela literatura e filosofia alemã se deve muito a ele, embora fosse austríaco. Falo de J. M. Simmel, porque ele faleceu em janeiro de 2009 praticamente esquecido apesar de ter vendido mais de 73 milhões de livros e sua obra traduzida para mais de 30 idiomas. Johannes Mario. Simmel, ou J. M. Simmel como ficou mundialmente conhecido, nasceu em Viena, no dia 7 de abril de 1924 e publicou a primeira obra “Encontro no Nevoeiro” em 1947, mas só focou famoso ao publicar “Nem só de Caviar vive o Homem” em 1960, livro que vendeu mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo. Dentre suas obras mais conhecidas podemos destacar, além das já citadas acima, “Amanhã é outro dia”(1978), “Amor é só uma palavra”(1963), “Deus protege os que amam”(1957), “E Jimmy foi ao Arco Íris”(1970), “É proibido Chorar”(1971), “Matéria dos Sonhos”(1971), “Mesmo sorrindo, preciso chorar”(1994), “Na primavera, o último canto da cotovia”(1990), “Ninguém é uma ilha”(1975), “Ocultos na escuridão”(1986), “Pátria Amada”(1965), “Só o vento sabe a resposta”(1973) entre outros. Talvez o amigo leitor nunca tenha ouvido falar desse autor, mas apesar de hoje ser um leitor bem mais exigente e preferir na mais das vezes os clássicos, ainda sim recomendaria a maioria das obras de J. M. Simmel que, para mim, foi muito importante na minha formação e me proporcionou momentos inesquecíveis ao navegar pelas páginas de suas obras.

Nota
* Viver é Amar, pag. 614, Círculo do Livro, 1985

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O VERMELHO E O NEGRO - STENDHAL

INTRODUÇÃO

O protagonista desta obra eterna é o jovem Julien Sorel. Como diz o próprio autor, ele “é um homem infeliz em guerra com a sociedade”, um anti-herói romântico por excelência. Devido à condição financeira e à carência de recursos, sua ambição o leva a encarar duas carreiras como possibilidade de alcançar o tão almejado sucesso - a eclesiástica, representada pelo negro, e a das armas, representada pelo vermelho. Sendo assim, sua trajetória constrói-se entre estas duas possibilidades, ou seja: o vermelho e o negro, título da obra.
Filho de um humilde carpinteiro, Julien Sorel sonha com uma vida intensa e cheia de glórias. Sua ambição exagerada o leva a conviver com a burguesia provinciana e com a aristocracia parisiense. Apesar disso, Julien continua a ser um pobre no mundo dos ricos, pois não possui desinência nobre, algo fundamental na nobreza. A partir desses elementos, do momento em que vivia a França com suas revoluções, Stendhal criou um magistral romance psicológico, um retrato fiel das complexas relações sociais na França do período da Restauração napoleônica, considerado o mais clássico, brilhante, vasto e importante da literatura francesa do século XIX, arrancando elogios inclusive do filósofo Friederich Nietzsche.

RESUMO DA OBRA

Julien Sorel, filho mais novo de uma família de camponeses, não suportava sua origem pobre, nem mesmo o destino que lhe aguardava: ser um mero serrador de tábuas. Era um garoto frágil e não tinha disposição para este tipo de trabalho. Seus dois irmãos e seu pai o consideravam um preguiçoso, odiavam, acima de tudo, a principal mania do jovem filho: a inclinação para a leitura.
Seu sonho é fazer carreira militar. Pois tinha admirava as campanhas vitoriosas e os grandes feitos de Napoleão Bonaparte, seu maior ídolo e um exemplo a ser seguido. E ele via na carreira militar a possibilidade de fazer fortuna e ganhar fama. Só que isso faz parte do passado, da sua juventude. Não é este o caminho que ele deve seguir.
Então resta-lhe outra alternativa: A careira eclesiástica. O hábito preto é o uniforme do século. A opção em tornar-se padre acaba sendo sua escolha Assim, passa um período no seminário de Besançon, onde Julien começa a chamar a atenção.
O prefeito da provinciana Verrières, Sr. Rênal, fica sabendo sobre um jovem dono de uma memória exemplar e estudioso das Escrituras Sagradas, o qual é capaz de recitá-la toda de cor em latim. Com o intuito de aumentar seu prestígio diante do Sr. Valenod, diretor do asilo de mendicidade de Verrières, o prefeito contrata Sorel como preceptor dos seus filhos.
Há uma relação de cordialidade, uma disputa por posições dentro do campo político entre o prefeito e o Sr. Valenod. Apesar da cordialidade, são inimigos. E ter condições de ter um preceptor para seus filhos é tão somente mais um lance na disputa política entre os dois. Julien representa mais uma cartada a favor do Sr. Renal, algo que contribui para sua imagem pública.
O ambicioso Julien, para tirar proveito da situação, arma um estratégia: saber onde estava pisando. Para isso, ele faz um mapa mental das posições dos frequentadores da casa do Sr. Rênal. E com isso, ele chegou a algumas conclusões, como por exemplo não revelar sua paixão por Napoleão Bonaparte muito menos sua admiração pelas ideias Iluministas.
Não tarda a perceber que o Sr. Valenod cobiça-lhe e faz todo o possível para tirá-lo da casa do prefeito. E o medo de perder o preceptor faz inclusive com que o Sr. Rênal não só lhe aumente o salário, como também lhe conceda licenças periódicas, licenças usadas para visitar o amigo Fouqué, um pequeno burguês cujo o único valor moral é o trabalho. Este vive lhe oferecendo sociedade no negócio de madeiras. Julien porém nunca diz nem sim nem não.
Depois de algum tempo como preceptor, Julien torna-se amante da Sra. Renal, esposa do prefeito. E por causa de uma carta anônima, depois reconhecida como tendo sido escrita pelo Sr. Valenod, ele abandona a casa dos Renal e vai para o seminário em Besançon, onde conhecerá o campo religioso..
Inicialmente o sentimento que levou Julien a envolver-se com a bela Sra. Rênal não foi a paixão, mas o prazer pelo jogo, pelo desafio. Ele quer tê-la e fazê-la apaixonar-se. Foi uma meta. E ele precisava atingi-la. A cada etapa vencida (um toque de mão, um olhar mais demorado, visitas noturnas a seu quarto), ele suspirava feliz: "Sim, eu ganhei uma batalha... Isso é puro Napoleão". Só que o imprevisto acontece: ele se apaixona por ela. Pois ele a vê como uma pessoa boa e dócil "que fora criada no campo inimigo".
No Seminário, Julien assumiu um postura arrogante e de superioridade devido ao seu gosto pela leitura e a capacidade de julgar, o que não havia nos outros seminaristas. Através dessa observação, sonhou com sucessos imediatos e viu-se ocupando posições de destaque. Todavia ele errou. Talvez por excesso de confiança, esqueceu estudar as regras do jogo. Esqueceu de que, para saber agir como padre, para ser padre, deveria agir como os outros. Seus esforços para ser o primeiro nos cursos, na verdade, eram considerado pecado. E a única coisa importante é a submissão do coração. Além disso, a atitude de Julien, olhando sempre direto nos olhos, com ares de quem está sempre pensando, manteve os companheiros à distância. Isso tudo lhe custou o apelido de “Martin Lutero”. Só então mais tarde que ele percebe o erro.
E para adaptar-se, Julien teve de ajustar suas ações às normas de conduta. Assim Julien percebe que "no seminário, é o modo de se comer um ovo que revela os progressos feitos na vida devota" Além desse esforço de comportar-se de forma mais condizente com os padrões de um padre, Julien tem o cuidado de observar as disputas de posição entre aqueles que representam a ortodoxia e, a partir daí, definir qual o melhor partido a tomar.
Há duas possibilidades: aliar-se ao diretor do Seminário, o abade Pirard, jansenista ou seu inimigo, o senhor de Frilair, Vigário Geral de Besançon, jesuíta. Julien, contrariando seus métodos calculistas e talvez por um erro de cálculo, alia-se ao primeiro, tomando-o como confessor e amigo. As disputas, que acontecem ao nível da ortodoxia, refletem nos seguidores de uma ou outra posição. E por isso Julien torna-se o protegido do abade Pirard, que o nomeara o explicador do Novo e Antigo Testamentos. Posição essa que lhe dá mais destaque na relação aos outros seminaristas.
De todos os erros de Julien, o mais grave foi na época dos exames. Os examinadores eram nomeados pelo Vigário Geral de Frilair. E quando um examinador pôs-se a falar de Horácio, Virgílio e outro autores profanos, Julien esqueceu em que lugar se achava e na companhia de quem e pôs-se a recitá-los. Quando percebeu que caíra numa cilada, já era tarde. O examinador fechou a cara e reprovou-lhe o tempo perdido com estudos e ideias inúteis. Dessa forma, acaba usado injustamente pelo Vigário Geral para atingir o Abade.
Pouco depôs, o abade é obrigado a pedir demissão do seu cargo, devido ao crescente número de intrigas e da certeza da demissão. E preocupado com os rumos que a vida do jovem Sorel poderia tomar naquele seminário com sua ausência, recorre ao amigo e aliado Marquês de La Mole para que contrate Julien como seu secretário particular.
Julien está por demais feliz. Pois agora deixaria aquele lugar horrível e ia para Paris. E quando chegou lá, fica tão admirado que os olhos parecem querer saltar-lhe do rosto. Ao entrar no Palácio dos La Mole, onde vai trabalhar, pensa: "Então é assim que eles vivem". Porém, logo ele percebe tratar-se de outro mundo com o qual entra em contato. É um mundo onde o nome e a história de seus antepassados falam mais alto. Ali ninguém se preocupa em trabalhar. Aliás, trabalhar é o pior dos males.
Durante os dias, Julien ocupa-se com suas funções de secretário. À noite, janta com os donos do Palácio e com seus convidados. A presença de um plebeu inicialmente incomoda bastante, a ponto da Sra. de La Mole propor ao marido mandá-lo desempenhar uma missão qualquer nos dias em que tivessem certos personagens à mesa.
Para não dar vexame, Julien novamente utiliza-se de um velho método: escrever os nomes e uma frase sobre o caráter das pessoas que entravam no salão. E mais uma vez isso dá certo. Pois depois de algum tempo pôde perceber com mais clareza o código de conduta dos salões.
A vida na corte porém o desaponta e vai da admiração ao menosprezo. Assim, participar todas as noites daqueles encontros torna-se para ele algo terrivelmente desagradável. Ali não se podia falar a respeito de Deus, nem do rei, nem política, ou seja, do que mais desperta o interesse do jovem Sorel. Na verdade, não há espaço para qualquer ideia viva e nem se admite qualquer nível de imprevisibilidade nos comportamentos ou opiniões, fosse dos jovens ou velhos aristocratas. Dir-se-ia viverem num mundo à parte, onde o mundo lá fora, em ebulição não lhes dissesse respeito. Mas ao mesmo tempo ele percebe que pairava o medo no ar, medo de outra revolução e da volta da aristocracia e da guilhotina.
Essa vida é entediante para ele. E a única coisa que lhe alivia o tédio é as longas conversas com a Srta. Mathilde de La Mole, pois compartilham gosto em comum: o prazer nas leituras sérias e proibidas. Todavia, enquanto Julien tem por modelo Napoleão e Danton, Mathilde orgulhava-se de seus antepassados.
A afinidade entre os dois aumenta à medida que convivem e se conhecem. E dessa convivência nasce uma paixão, a qual muda o futuro de Julien. A história de amor entre os dois é marcada por altos e baixos. Mathilde, depois de ter Julien, arrepende-se, sente-se envergonhada e se afasta do rapaz. Ele por sua vez sente-se desprezado e volta-se para dentro de si. Sabendo que a diferença social foi a causa, ele experimenta a envergonha de sua origem humilde. Todavia, como numa batalha, ele decide reconquistá-la. E para tal ele joga, provoca a orgulhosa Mathilde e desdenha-lhe. Chega inclusive a pensar: "...não pense Srta. Mathilde que eu esqueço meu lugar. Farei com que compreenda e sinta que é pelo filho de um carpinteiro que a senhora atraiçoa um descendente do famoso Guy de Croisenois" E ele vence. Sua amada volta aos seus braços e ainda acaba engravidando-se logo depois. O pai da moça, O Sr. La Mole, desespera-se. A família será motivos de zombaria por toda a Paris. Para piorar, a moça decidi casar-se com Julien e dar o nome Sorel ao filho. Agora é o amor paixão que fala mais alto e não a razão.
A fim de tentar remediar a coisa, O Sr. de La Mole consegue uma patente de Tenente de Hussardos para Julien, forja uma condição de nascimento nobre. A partir de então, Julien passa a chamar-se Julien Sorel de La Vernay. É tudo que o rapaz sonha desde pequeno. Assim, sua guerra com a sociedade chega ao fim.
Seu destino muda mais uma vez. Ele recebe uma carta da Sra. de Renal, chamando-o de egoísta e dum homem que só pensa em dinheiro e poder. Numa reação inesperada, ele retorna à Verrières e atenta contra a vida da ex-patroa e amante. Todavia, não chega a matá-la. Mas é preso por isso. Durante o período em que corre o processo, sua paixão pela vítima ressurge de forma intensa, apesar de que é Mathilde quem se dedica inteiramente ao seu amado.
Todo o tempo de prisão, Julien ocupa-o com profundos e filosóficos pensamentos. E durante seu julgamento, quando se decidi o seu destino, ousou expressar seus sentimentos para com a sociedade. Dessa forma, ele decretou sua própria sentença, sentença lida pelo Sr. de Valenod, presidente dos jurados. Qual a sentença? A guilhotina.
Mathilde, por sua vez, não se desespera ao ver a guilhotina decepar a cabeça de Julien. Tem certeza que ele era um homem destemido e audacioso. Dessa forma, sentindo-se a própria Margarida de Navarra, pega a cabeça do pai de seu filho, coloca-a à sua frente e beija-lhe a fronte. Depois ela mesma a enterra, com muita pompa, como se enterrasse um herói.

COMENTÁRIOS

A obra é inspirada em fatos reais, num evento real, ocorrido em Grenoble: condenado pelo assassinato de uma ex-amante, cometido no interior de uma igreja. Um seminarista de 26 anos, Antoine Berthet, foi executado na guilhotina em fevereiro de 1828. É uma obra que rompe com a tradição do romantismo, introduzindo o realismo no romance francês. Stendhal viu nesse fato a possibilidade de fazer o que chamou de “crônica do século XIX”. Ou seja, um ácido retrato da França da Restauração pós-napoleônica, política e moralmente conservadora.
O leitor pode pode ler a obra de duas maneiras: primeiro, simplesmente como uma história à shakespeariana, onde o herói morre guilhotinado, traído e mesmo assim apaixonado e resignado, onde sua cabeça é enterrada por uma de suas amantes, enquanto a outra morre beijando os filhos, o que porém não é o objetivo da obra; segundo, como uma crônica histórica. Na verdade, o autor não quis só mostrar de forma magistral as transformações de caráter que ocorriam num ser apaixonado e ambicioso como o leitor desatento pode achar. Ele quis muito mais do que isso. Ele quis, principalmente, retratar a sociedade francesa e mostrar os contrastes entre a vida provinciana, onde nada acontece, e a vida na capital, centro do poder. O destaque maior é dado ao modo de vida parisiense do início dos anos 30 do século XIX. Além disso, Stendhal quis mostrar como essa sociedade, totalmente carente de ideias, tinha mais medo do ridículo do que da guerra. E mais: quis mostrar também, através de Sorel, a divisão da sociedade francesa entre bonapartistas e os clérigos. Do próprio Julien podemos perceber essa divisão: “... eu, condenado a usar sempre este triste traje negro! Vinte anos antes eu teria usado uniforme com eles!” Na primeira frase, ele se refere ao negro do clero, na segunda, ao vermelho do exército. Noutra referência ao vermelho e ao negro, Julien diz: “...sei escolher o uniforme do meu século... quantos cardeais de origem mais humilde que a minha chegaram ao governo...
Não é por acaso que o "Vermelho e o negro" é uma obra magistral. Nenhum outro autor até então havia retratado de forma tão profunda e brilhante o comportamento psicológico dos personagens. Tanto é que os pensamentos são tão importantes quanto à ação. Os personagens agem de acordo com seus pensamentos, com o fluxo de suas consciência. E isso é retratado como em nenhuma outra obra Dai a admiração de Nietzsche, citada anteriormente.
Talvez pode parecer que, ler o "Vermelho e o negro" seja uma tarefa árdua, mas, na verdade, é uma das obras mais fáceis e gostosa de se ler. De certa forma, a história prende o leitor. E não há como Parar quando se começa. Quem não teve a oportunidade de se deliciar com essa obra prima não sabe o que está perdendo. Aliás, como autor, essa foi uma das obras que me influenciou e me incentivou a escrever.

sábado, 26 de janeiro de 2013

OBRAS MELHORES QUE "50 TONS DE CINZA"

Eu não li "50 tons de Cinza". Simplesmente não consegui passar das primeiras páginas. Pareceu-me fraco e simplório demais e cuja linguagem dava-me a impressão de tratar-se desses livros que fazem sucesso entre os adolescentes (recentemente vi uma entrevista da autora onde ela afirmava que resolveu escrever o livro depois de ler a série “Crepúsculo”, de forma que isso explica o estilo juvenil da obra). Talvez por isso faz tanto sucesso entre o povão. Aliás, tal sucesso não é só devido ao conteúdo erótico, pois existem obras consagradas no gênero cuja profundidade e qualidade literária provavelmente desagradaria a maioria das pessoas que não estão acostumas a uma boa literatura. Dentre estas obras -- e as quais eu li --, pode-se destacar:

1) "Justine" e "A Filosofia da Alcova", do Marquês de Sade;
2) "Vênus Castigadora", de Leopold von Sacher-Masoch;
3) "Trópico de Câncer", "Sexus", "Nexus" e "Plexus", de Henry Miller;
4) "A História de O", de Pauline Reáge;
5) "Delta de Vênus" e "Henry e June" de Anaïs Nin;
6) “O Amante de Lady Chatterley” de D. H. Lawrence

Há outras que eu não li, como "Decamerão" de Boccacio, "Fanny Hill" de John Cleland, “Emmanuelle” de Emmanuelle Arsan, “A Vida Sexual de Catherine M.” de Catherine Millet, entre outros.
Não citei “Lolita” de Valadimir Nabokov e obras similares por se distanciar do erotismo como tema central, uma vez que a obra do escritor russo, apesar da sensualidade, trata dos conflitos de relacionamento de um homem de meia idade com uma jovem de 16 anos.

domingo, 7 de outubro de 2012

O HOMEM: ETERNA OBRA EM CONSTRUÇÃO

O homem é uma obra em construção, a qual nunca está pronta, mas cuja última pedra é sempre a morte. E isto é talvez o mais terrível e o mais difícil de aceitar. E por estar sempre em construção, o ser é inevitavelmente modificado a cada instante. O soprar de uma brisa no rosto já é o bastante para tornar-se diferente do que era há poucos instantes. Por isso a busca do passado é uma busca impossível, pois apenas se pode resgatar-lhe uma ínfima parte, como fez magistralmente Proust em Em busca do tempo perdido. E mesmo que se tente trazer de volta todos os elementos do passado, ainda sim não se é o mesmo e não só a busca estará sob o julgo do eu atual como a interpretação será sempre diferente todas vez que se tentar resgatá-lo. Aliás, nada é tão verdadeiro quanto a máxima de Heráclito: “Nenhum homem pode atravessar o mesmo rio duas vezes, porque nem o homem nem o rio são os mesmos”.

sábado, 8 de setembro de 2012

IMAGINAÇÃO E PRAZER

Cada qual direciona seus pensamentos àqueles prazeres que melhor lhe satisfaz, embora a maioria de nós, ao longo de boa parte da vida, somos levados, talvez por instinto, aos devaneios eróticos. Até porque tais pensamentos nos provocam reações reações físicas, como a excitação sexual por exemplo, e mesmo sem a prática do ato sexual em si, essa excitação acaba sendo uma fonte inesgotável de de prazer. Este não é o mesmo prazer do qual resultaria a prática de tal ato evidentemente, embora muitos dos frutos de nossos devaneios são irrealizáveis na prática, pois quase sempre o elemento fantástico é o que leva tais devaneios ao deleite, contudo não deixa de atingir o mesmo fim, que é a satisfação dos instintos. Aliás, esta satisfação está intimamente ligada à imaginação, pois quanto maior for a capacidade do individuo de imaginação e de criar situações, maior será o seu deleite. De forma que imaginação e prazer são como dois amantes: é preciso um para que o outro seja plenamente satisfeito.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

MEU ESTILO

Não sou o tipo de escritor que põe o leitor contra a parede a fim de que ponha o cérebro para funcionar e descubra o que realmente o autor tencionava dizer com aquelas meias palavras, mesmo sabendo que a imaginação do leitor é o que completa a obra de um autor. O autor que não desperta e aguça a imaginação do leitor peca por falta de imaginação. No entanto, isso não é a mesma coisa que exigir do leitor a adivinhação por causa do excesso de concisão. Mesmo sendo um recurso poético, é justamente o tipo de coisa que não me agrada, como no poema abaixo:

Morrer
Desaparecer
Fim.
Verdade
Realidade
Fim.

Apesar de não ser tão difícil assim de deduzir o que o poeta quis dizer, ainda sim ficará a dúvida se o que ele (o leitor) interpretou condiz com o que o autor quis dizer, embora muitas vezes a intenção do autor era tão somente aguçar a imaginação do leitor, sem se preocupar com o que de fato ele houvesse interpretado. Ainda prefiro ser mais claro, mais simples, mais direto e pecar pelo exagero do que pela falta.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

NENHUM PASSO ADIANTE

Para Nietzsche, “A grande conquista da humanidade, até agora, é não precisarmos mais temer continuamente os animais selvagens, os bárbaros, os deuses e os nossos sonhos”*. Quanto aos animais selvagens, os bárbaros e os nossos sonhos Nietzsche está certo, mas e quanto aos deuses? O conhecimento transformou a humanidade e os velhos deuses praticamente desapareceram, mas o homem ainda não aprendeu a viver sem um deus, sem a quem temer e venerar irracional e incondicionalmente. Por isso ainda se venera Deus. Quanto a isso todo o conhecimento acumulado até hoje se mostrou inútil. Não se deu um passo adiante. Ainda se venera deuses como antigamente. Aliás, é o que Nietzsche diz acerca dos Europeus de sua época: “Por mais que haja progredido em outros âmbitos, em matéria de religião a Europa não alcançou ainda a liberal ingenuidade dos antigos brâmanes”**


* Aurora, I, 5, Sejam agradecidos!
** Aurora, I, 96, In hoc signo vinces

quarta-feira, 14 de março de 2012

OS NIILISTAS ALIENADOS


Um diz que o homem atual é um alienado (Marx) e o outro que ele vive num Niilismo (Nietzsche). Embora cada um tenha lá seus argumentos e seus pontos de vista, tenho de concordar que estão certos. A impressão que tenho é de que as pessoas, mergulhadas numa modernidade onde a informação pipoca aos quatro ventos, não conseguem lidar com elas e se sentem impotentes diante do conhecimento. Claro que muita gente esbarra nas próprias convicções e naquilo que lhe foi ensinado pelos pais e por todos que o cercam desde os primeiros anos de vida. Mas por que não questionar a mais inquestionável das convicções, mesmo que seja para afirmar a própria convicção? E uma das questões que as pessoas resistem em questionar é justamente a religião e a crença em Deus. Como um bom ateu, não quero destruir a crença de ninguém (só os fundamentalistas tentam te convencer a acreditar naquilo que acreditam). Mas há alguns fatos difíceis de ignorar. Como este: Que as religiões vivam do sofrimento, da doença, como afirmou Nietzsche acerca do cristianismo ao dizer que "o cristianismo tem por base o rancor dos doentes, o instinto voltado contra os sadios, contra a saúde", e da miséria, como afirmou Marx ao declarar que a “a religião é o ópio do povo”, do ser humano, com algumas raras exceções, eu não tenho dúvida; pois sem isso as religiões já teriam sido varridas da face da terra há centenas de anos. Mas o que eu não conformo é ver pessoas ditas “inteligentes” e com um grau de conhecimento satisfatório acreditar num Deus rancoroso, vingativo e ciumento que precisa ser louvado o tempo todo, de um lado; e por outro, um deus que está disposto a satisfazer os nossos mais insignificantes e absurdos desejos. Ou essas pessoas se fazem de idiotas ou são tomadas pela mais absurda ingenuidade. Num ou noutro caso elas não devem ser levas muito a sério. Citando Nietzsche mais uma vez, eu pergunto: Será que as pessoas não se dão conta de que "O Homem, em seu orgulho, criou a Deus a sua imagem e semelhança"?

domingo, 7 de agosto de 2011

O MONSTRO VORAZ


Numa ordem mundial determinada pelos mercados financeiros fica difícil imaginar os desdobramentos de um possível colapso destes – embora o fim dos mesmos possa ser mais benéfico para o desenvolvimento cultural de um povo do que a continuação dos mesmos nos moldes atuais, uma vez que grandes talentos são desperdiçados em atividades financeiras quando poderia estar usado esses talentos em benefício da humanidade --; contudo, é de se prever uma nova ordem mundial onde os governos não estejam mais tão subordinados ao capital. E apesar deste ser a força motriz do mundo moderno e exigir cada vez mais meios de obter lucros, fazendo do Estado apenas um instrumento para atingir esse fim, os abalos foram consideráveis e o sistema financeiro embora continue gerindo a vida de milhões de pessoas, não é mais o Grande Irmão, a mão invisível capaz de arrastar governos para o matadouro. Se o sistema financeiro não pode desaparecer, pois seria como voltar aos primórdios da humanidade, pelo menos que não seja mais esse lobo voraz, esse monstro insaciável a devorar tudo e todos em nome da tecnologia e do dinheiro. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

UM POUCO DE PROUST

Em minha biblioteca pode-se encontrar uma variedade considerável de obras – pela última contagem, lá pelos anos de 2005, havia mais de três mil volumes –, e dentre estas a fascinante Em busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. Embora tenha adquirido os dois primeiros volumes lá pelos meados dos anos 80, nunca os li. Há pouco tempo porém, depois de ler um ensaio sobre Proust, decidi pegar sua obra para ler. Confesso ter ficado fascinado com a genialidade do autor logo nas primeiras páginas. Desde então, antes que o sono me transporte numa viagem por águas calmas até a manhã de um novo dia, dedico alguns minutos à leitura de Proust. Estou no terceiro volume. E dentre tantas passagens, as quais eu fiz questão de grifar, numa delas encontra-se a frase abaixo. O autor compara a vida a uma amante ao comentar o estado de sua avó, que acabara de ter um ataque e o qual a deixara entre a vida e a morte.
"A amante que acossamos, a amante que suspeitamos que está prestes a trair-nos, é a própria vida, e, embora já não a sentimos a mesma, ainda acreditamos nela, ficamos em todo caso na dúvida, até o dia em que afinal nos abandona."
Proust, Em busca do tempo perdido, vol 3 – O Caminho de Germantes, pag. 347

sábado, 15 de agosto de 2009

POR QUE ESCREVO


Algumas pessoas escrevem para desabar (como numa terapia), para dizer aquilo que não tem coragem de dizer a outra ou por não ter a quem dizê-lo; outras fazem das letras uma profissão, uma forma prazerosa de ganhar o seu sustento – afinal nesse mundo moderno quem não “trabalha” não tem como viver dignamente –; outros ainda escrevem não só pelo simples prazer de escrever mas com a esperança de que suas palavras possam mudar o mundo, embora poucos consigam, pois muitos não se preocupam tanto assim com isso. Eu, se tivesse que definir em qual dessas categorias me encaixaria, não saberia em qual. Quanto à primeira, tenho de confessar que amiúde escrevo uma coisinha ou outra como forma de desabafo, mas também almejo (aliás, como a maioria daqueles que gostam de escrever) fazer da literatura uma profissão, e por que não contribuir para um mundo melhor. Sou o tipo de pessoa que, de quando em quando, sinto-me quase um prisioneiro em minha própria época, preso à verdades impossíveis de conciliar; e a literatura me parece uma forma não só de desmascarar essas verdades como também mostrar que, sem elas, o homem pode viver melhor.