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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

NIETZSCHE: O FILÓSOFO “POP”

Nietzsche é um pensador que, diferentemente da maioria dos filósofos, não possui um pensamento conciso e ordenado. Toda a sua vasta obra é fragmentária e vez ou outra contraditória. Além do mais, por usar um estilo muitas vezes poético e metafórico, sua obra é de difícil compreensão, o que gera muitas interpretações equivocadas, desvirtuadas e não condizentes com o seu pensamento. Por isso, durante boa parte do século XX, seu pensamento foi usado para os mais variados interesses e fins como para justificar o autoritarismo e a perseguição aos judeus por exemplo. O caso mais notório é o uso de seu pensamento pelos nazistas, um uso que o próprio Nietzsche, temendo a deturpação de seu pensamento, fez questão de alertar meio século antes. Ainda hoje, com a enorme popularidade que Nietzsche e o grande interesse que sua filosofia desperta por se tratar de um pensador atual, é possível encontrar seu pensamento sendo usado para os mais variados fins e sendo usado para sustentar as mais diversas bandeiras. E porque isso acontece? Basicamente devido ao estilo usado pelo filósofo alemão em suas obras. O uso do aforismo – um texto breve, normalmente de cunho moral, que encerra na mais das vezes uma sentença filosófica – é a principal razão. Além do mais, Nietzsche é um dos poucos pensadores a abordar os mais variados temas em suas obras. Ao usar sentenças breves, mutias não passam de duas linhas, e de impacto, faz com que sejam de fácil leitura e memorização, mesmo que nem sempre o leitor compreende de fato o seu real sentido. Quem nunca ouviu falar que “toda a vida humana está profundamente embebida na inverdade”(1), “Quem não sabe pôr no gelo seus pensamentos não deve se entregar ao calor da discussão”(2), “A exigência de ser amado é a maior das pretensões”(3), “É mais fácil lidar com sua má consciência do que com sua má reputação”(4), “A decisão cristã de achar o mundo feio e ruim tornou o mundo feio e ruim”(5), “A humanidade prefere ver gestos a ouvir razões”(6), “Onde quer que a neurose religiosa tenha aparecido na terra, nós a encontramos ligada a três prescrições dietéticas perigosas: solidão, jejum e abstinência sexual”(7), “Não existem fenômenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenômenos”(8), “Aprendemos a desprezar quando amamos, e justamente quando amamos melhor”(9), “As paixões tornam-se más e pérfidas quando são consideradas más e pérfidas”(10), “Pode-se recusar um pedido, mas nunca recusar um agradecimento”(11) e “Quanto mais alto nos elevamos, tanto menores parecemos àqueles que não sabem voar”? São por sentenças assim que Nietzsche caiu no gosto popular e se tornou um filósofo “pop” mas muito pouco compreendido infelizmente. E o que poderia ser um ponto a favor acaba se tornando um problema, já que se coloca na boca de Nietzsche aquilo de fato ele nunca disse ou pretendeu dizer. 

Notas
1. Humano, Demasiado Humano, Cap. I, aforismo 34
2. Humano, Demasiado Humano, Cap. VI, aforismo 315
3. Humano, Demasiado Humano, Cap. IX, aforismo 523
4. A Gaia Ciência, Livro I, aforismo 52
5. A Gaia Ciência, Livro III, aforismo 130
6. O Anticristo, aforismo 54
7.  Além do Bem e do Mal, Cap. III, aforismo 47
8. Além do Bem e do Mal, Cap. IV, aforismo 108
9. Além do Bem e do Mal, Cap. VII, aforismo 216
10. Aurora, Livro I, aforismo 76
11. Aurora, Livro IV, aforismo 235
12. Aurora, Livro V, aforismo 574

terça-feira, 27 de outubro de 2015

E SE O MUNDO SEMPRE EXISTIU?

Uma coisa muito caro a maioria daqueles que acreditam em Deus é não é tanto o fato de os ateus negarem que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança mas sim a inadmissão da não existência de um criador do mundo, de um ser que planejou meticulosamente tudo o que existe. Alguns até aceitam o darwinismo e reconhecem que o livro do Gênesis fala da criação do mundo de forma alegórica, não devendo de forma alguma tomá-lo ao pé da letra; outros mais esclarecidos vão além e admitem inclusive a teoria do Big Bang, justificando que ela é, na realidade, o instrumento usado por Deus para criar o universo. Na verdade, não importa muito o que essas pessoas acreditam ou não. O que elas não conseguem admitir é a possibilidade de o mundo nunca ter sido criado, de não ter um começo e nem um fim e portanto ser eterno, pois o fato de nós e tudo ao nosso redor ter um começo e um fim nos leva a supor que o mundo também segue o mesmo princípio. Não estou falando do planeta Terra, da nossa galáxia e do próprio universo, já que estes de fato não são eternos e realmente nasceram e em algum momento no futuro irão desaparecer. Mas mesmo que o universo desapareça, ainda sobrará um imenso vazio. E esse vazio continuará a ser o mundo, um mundo que por ser eterno poderá dar origem a um outro universo. Talvez este universo que aí está nem desapareça totalmente, até porque é grande demais e a todo instante estrelas e galáxias surgem e desaparecem sem que isso faça alguma diferença. E mesmo que exista de fato algo que deu origem a isso tudo, o qual nós, os insignificantes terráqueos, insistimos em chamar de Deus, esse "Deus" não tem a menor semelhança com o Deus que a maioria de nós ainda acreditamos. Não há menor dúvida de que esse Deus é uma invenção humana, uma vez que só seres humanos seriam capazes de atribuir a um Deus características humanas, tais como:  vingança, irá e castigo. Infelizmente, as pessoas não são inteligentes o bastante para se dar conta desse absurdo e se relacionam como esse suposto “Deus” como no passado os súditos se relacionavam com seus governantes.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

FRASES QUE FICARAM PARA SEMPRE (124)

“A morte, portanto, nada é para nós e em nada nos toca, visto ser mortal a substância do espírito”
Tito Lucrécio Caro, “Da Natureza”, livro III



Considerado um dos mais importantes poetas latinos, Lucrécio escreveu o poema “Da Natureza das Coisas” onde procura explicar racionalmente os fenômenos da natureza, desfazendo os mitos que assolavam o mundo antigo. Além de pregar o atomismo de Epicuro, Lucrécio, ao longo da obra, afirma a inexistência de um Deus criador de todas as coias e nega a imortalidade da alma. Aliás, a frase a cima, extraída do livro III, vem logo após ele afirmar que tudo acaba com a morte, a qual põe fim aos tormentos futuros, já que depois de mortos tudo nos é indiferente e nada nos poderá acontecer. Assim, preocupar com o nosso futuro pós-morte é uma grande tolice.
 

sábado, 1 de agosto de 2015

O VALOR DA VIDA HOJE

Há uma crise de valores que vem afetando praticamente toda a humanidade, sem distinção de credo, raça, modelo econômico ou orientação religiosa. Todos parecem sofrer do mesmo problema, embora algumas sociedades sofram mais do que outras. A causa disso eu não sei exatamente. Talvez seja uma conjunção de fatores, uma vez que o mesmo problema afeta os mais distintos povos. Quanto a essa crise, ela parece bem clara: a vida, tão valorizada nos últimos séculos, já não significa mais como há algumas décadas. É como se em duas ou três décadas ela perdesse um valor conquistado durante séculos. Usando um jargão financeiro, é como se fosse a moeda de um país que, ao passar por uma grave crise econômica, perde completamente o valor. Parece que é mais ou menos isso que está acontecendo. As sucessivas crises econômicas pelas quais a maioria dos países enfrentou e vem enfrentando desde os anos 90, devido a globalização, afetou não só o valor dos bens materiais, como o valor da própria vida, a qual não deveria jamais ser equiparada a qualquer outro bem. A vida do outro parece valer muito pouco, isso quando vale alguma coisa. Durante milhares de anos, até o advento da modernidade, matava-se por qualquer coisa. E sobreviver, principalmente os que não tinham nada ou muito pouco, era uma questão de sorte. Era uma verdadeira luta pela sobrevivência, digna da teoria darwiniana. Hoje tem-se a impressão da volta desse terrível período de nossa história. E uma das causas desse desprezo pela viada é fruto da perda de força e significado da religião. Como o próprio Nietzsche afirmou há quase 150 anos, “Deus está Morto. Nós o matamos”. O cristianismo não rege mais o dia a dia dos cristãos, assim como o Judaísmo a dos judeus e o islamismo a dos muçulmanos embora a presença dessa última seja muito maior na vida dos muçulmanos do que o cristianismo e o judaísmo na dos cristãos e judeus. E mesmo aqueles que ainda acreditam num deus, na vida após a morte, lidam com a religião de forma muito diferente daquela que os nossos antepassados lidaram durante mais de 1.000 anos. E o que sobrou dessas crenças, tanto no cristianismo como nas demais religiões monoteístas, foi o que de pior havia nelas: o fundamentalismo. Aliás, este não é nada mais nada menos que fruto da perda de poder das mesmas. Ou seja: uma luta desesperada pela sobrevivência. Assim, cada uma trata a outra e as demais crenças como inimiga, como um mal que deve ser eliminado, usando os mais desprezíveis artifícios. E para isso deve-se antes de mais nada eliminar o indivíduo, alguém que não é como nós e por isso sua vida não tem valor. Essa é uma das principais causas do desprezo pela vida atualmente. Mas não é só isso. O materialismo sem limites, o consumismo como fonte de felicidade, uma felicidade inalcançável diga-se de passagem, também é responsável por isso. O homem hoje transformou o dinheiro em poder, o qual deve ser buscado a qualquer custo. E se para isso tiver de tirar o seu semelhante do caminho, não pensará duas vezes. Isso aliás é uma das principais causas no aumento dos latrocínios, das mortes por encomenda, da corrupção e dos crimes financeiros. Em nome do dinheiro tudo vale. Esse capitalismo selvagem que se pratica desde o fim dos anos 80 é fruto do fim da ameaça comunista. Desde o fracasso do socialismo, um regime que pelos seus próprios erros cometeu atrocidades mas que por outro lado segurava o cabresto do capitalismo, contendo o seu lado selvagem e desumano, o mundo vem se tornando escravo do capital, o qual surge como o novo deus, cultuado a cada dia mais por mais gente. E embora “o valor da vida não possa ser medido” como afirmou Nietzsche, hoje ela é negociada por qualquer bagatela. Enfim. O que tem valor hoje é o capital e o que ele pode comprar, o resto é supérfluo, inclusive a vida.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

NO VÁCUO DE MINHA MENTE

No vácuo de minha mente sem ideias
Escapa um pensamento funesto:
Seriam realmente verdadeiros e reais
Este eu, esta vida, o mundo e todo o resto?

Não seria uma ilusão tudo que se tem vivido?
Não seria a realidade uma mera aparência?
E se tudo que até então tem existido
For fruto de nossa própria ignorância?

Talvez a vida com suas verdades irreais
E suas certezas enterradas num deserto
Façam de nós, seres humanos, animais
Infelizes, doentes e de um futuro incerto

Talvez a razão – esse mal adquirido
Na aurora da civilização – seja a essência
De nossas desilusões, onde a vida sem sentido
Desperta-nos o animal e leva-nos a decadência

domingo, 19 de janeiro de 2014

A DIFÍCIL MISSÃO DE SER ATEU


Diferentemente de ser ateu, que envolve uma escolha racional, ser crente e pertencer à essa ou aquela religião não é fruto de uma decisão pessoal, embora haja um quê de pessoal nisso quando o indivíduo passa a ter o direito de fazer suas próprias escolhas. A religião nos é passada por nossos pais e pelo grupo social ao qual pertencemos. Assim, desde que nascemos, fazemos parte de uma seita religiosa, da qual normalmente fazem parte nossos parentes – ou a maioria deles --, os amigos de nossos pais, nossos vizinhos, nossos professores, nossos amiguinhos da escolha e etc. Dessa forma, não temos escolhas. Vamos ser criados nesse meio e todos farão o possível para que aceitemos aqueles preceitos e acreditamos neles. Assim, nos tornamos crentes, porque nossos pais são, nossos amigos são e quase todos que nos rodeiam são. E mesmo que, ao longo do tempo, venhamos a fazer questionamentos – a maioria não o faz --, ainda sim somos pressionados pelo nosso meio a afastá-los, pois estamos errados e até mesmo cometendo um pecado. Mas ser ateu é completamente diferente. É preciso lutar contra aquilo que nossos pais nos ensinou a vida toda; é preciso encarar os amigos e todos aqueles que fazem parte do nosso meio. E ainda temos de dizer para nós mesmo que, apesar de todos viverem num consenso quanto a existência de Deus, são eles quem estão errados. E ao negar a existência divina tanto do homem quanto do próprio mundo, temos de ter argumentos suficientes para lutar contra todos, porque eles vão tentar nos convencer do contrário. Por isso, ser crente não existe muito esforço, mas ser ateu são outros quinhentos. Você precisa de uma inteligência acima da média; terá de dispor de muitos conhecimentos – que não te foram ensinados pelos seus pais e parentes, pelos seus professores e nem passados pelos seus amigos--; terá de ser capaz de retrucar sozinho cada razão que alguém de seu relacionamento vai lhe dar para justificar a crença deles, principalmente porque um crente não admite que alguém simplesmente não possa acreditar em Deus. Eles serão muitos, mas você vai estar sozinho. Eles vão te tachar de louco ou coisa ainda pior. Vão lhe dizer que os ateus não respeitam a vida, não tem moral e coisas afins. Grande mentira! Quase 100% dos criminosos tem uma religião. Mas como bom ateu, você não se deixa levar, permanece firme, pois sabe que o ateísmo tem as suas vantagens, principalmente a de não estar sob o julgo de velhas crenças, de dar o melhor de si aqui, sem esperar por nada após a morte e etc.

domingo, 22 de dezembro de 2013

UM LONGO CAMINHO A SE PERCORRER


Embora tenham sido os homens -- esses seres falhos e demasiado humanos -- os autores de nossas leis, são também eles que se apegam à lógica, ao rigor e a imparcialidade das mesmas, deixando de lado o bom senso -- o que nos é de mais humano --, como se a frieza e a verdade de um artigo fosse mais relevante. Ah, quantas injustiças são cometidas quando se esquece o humano e suas fraquezas! E o triste em tudo isso é que nem sempre a lei pune o infrator como se acredita, mas tão somente satisfaz àqueles que exigem a qualquer preço a justiça (a reparação do dano causado). Se todos aqueles envolvidos em condenar um réu (juízes, advogados, membros do juri e o próprio sistema prisional) entendessem um pouco mais de psicologia, as penas seriam mais eficientes e a própria criminalidade seria consideravelmente reduzida. Mas para isso é preciso uma completa reforma no sistema judiciário -- inclusive nas leis – e ainda não estamos preparados para isso. Ainda há um longo caminho a se percorrer.

sábado, 18 de maio de 2013

O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA (NIETZSCHE)

O Nascimento da Tragédia não é só a primeira obra publicada por Nietzsche, mas é também onde o jovem Nietzsche começa a expor aquilo que seria a base de toda a sua filosofia e o que seria nas obras posteriores aprofundado. Assim o leitor que abre as páginas desse pequeno livro, deparará com a oposição entre o apolíneo (forma, beleza visual e compreensão racional) e o dionisíaco (horror, êxtase, sensualismo, frenesi irracional), o conceito de arte e o que esta representa para um povo, a crítica ao racionalismo, ao platonismo e consequentemente ao cristianismo. Por outro lado, ainda profundamente influenciado por Richard Wagner e por Schopenhauer, acreditava na recuperação da cultura moderna, a qual considerava decadente, a partir da cultura grega. Basicamente, a obra traz à tona, de um lado, uma interpretação nova e original da tragédia e da cultura grega e a influência da arte na valorização da vida através do apolíneo e do dionisíaco; de outro lado, a crítica ao racionalismo moderno tem como contraponto a música de Richard Wagner, no qual Nietzsche vê como um restaurador da cultura grega e aquele capaz de disseminá-la na cultura alemã. Apesar da inegável influência de Schopenhauer, Nietzsche nessa primeira obra já combatia a resignação pessimista e a negação da vida do pensador alemão, para o qual a vontade é a fonte de todo o sofrimento. A reconciliação entre Apolo e Dionísio e as consequências disso para a cultura moderna é o tema dos últimos capítulos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O QUE NOS FAZ SUPORTA A VIDA

Os nossos sonhos e fantasias
São ilusões do dia a dia
Que acumulamos tão somente
Para não querer a morte urgente

A vida com os pés no chão
Seria insuportável. Não,
Não se pode viver o já
Sem que os sonhos estejam lá

Pois estes se renovam a cada dia
Numa triste esperança ou vã alegria
Mas eis que resistem bravamente
Às duras verdades do presente.

E assim, como num voo sem razão,
Procuram acender a chama no coração
De que ali na frente, o futuro está
Até que a morte traz o fim. E então jaz.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

FARDO LEVE


Só um leitor de Nietzsche seria capaz de escrever versos como estes. Embora não tenham sido inspirados em nenhuma obra específica do pensador alemão, é inegável a influência de seu pensamento. Este poema foi escrito em 2008 quando “Aurora”, “A Gaia Ciência” e “Além do Bem e do Mal” me acompanhavam para todo lugar.

Não é a vida
Que é dura demais
São as nossas idas e vindas
Que nos fazem andar para trás

Às vezes, corremos em círculo
Atrás de ninharias
Por causa de desejos minúsculos
Fazendo da vida uma porcaria

Não é a vida
Que nos é injusta
São nossas ações
Que a ela não se ajustam

Às vezes, tentamos satisfazer
Os desejos mais banais
E esquecemos que viver
Exige sacrifícios reais

Não é a vida
Que é um fardo pesado
É o excesso de ninharias
Que temos carregado

Deixe esse peso para trás
E leve só o que te serve
E então verás
Que a vida é um fardo leve

domingo, 7 de outubro de 2012

O HOMEM: ETERNA OBRA EM CONSTRUÇÃO

O homem é uma obra em construção, a qual nunca está pronta, mas cuja última pedra é sempre a morte. E isto é talvez o mais terrível e o mais difícil de aceitar. E por estar sempre em construção, o ser é inevitavelmente modificado a cada instante. O soprar de uma brisa no rosto já é o bastante para tornar-se diferente do que era há poucos instantes. Por isso a busca do passado é uma busca impossível, pois apenas se pode resgatar-lhe uma ínfima parte, como fez magistralmente Proust em Em busca do tempo perdido. E mesmo que se tente trazer de volta todos os elementos do passado, ainda sim não se é o mesmo e não só a busca estará sob o julgo do eu atual como a interpretação será sempre diferente todas vez que se tentar resgatá-lo. Aliás, nada é tão verdadeiro quanto a máxima de Heráclito: “Nenhum homem pode atravessar o mesmo rio duas vezes, porque nem o homem nem o rio são os mesmos”.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

COISAS PARA AS QUAIS NÃO NASCEMOS















Não há respostas para minhas inquirições
O conhecimento ainda não chegou lá.
Talvez o problema esteja nas minhas indagações
As quais eu não soube formular.

Mas minhas perguntas são as de tanta gente
Que estão na mesma situação que eu
São pessoas até mais sábias e inteligentes
Cujo desejo de saber sempre floresceu

Por que a verdade tem suas razões
Para nos iludir quando tentamos buscá-la?
Por que não vemos que nossas convicções
São o que nos impede de alcançá-la?

Talvez a verdade seja apenas aparente
Uma ilusão que a experiência nos deu
Para que não nos percamos inutilmente
Com coisas para as quais não se nasceu.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

NENHUM PASSO ADIANTE

Para Nietzsche, “A grande conquista da humanidade, até agora, é não precisarmos mais temer continuamente os animais selvagens, os bárbaros, os deuses e os nossos sonhos”*. Quanto aos animais selvagens, os bárbaros e os nossos sonhos Nietzsche está certo, mas e quanto aos deuses? O conhecimento transformou a humanidade e os velhos deuses praticamente desapareceram, mas o homem ainda não aprendeu a viver sem um deus, sem a quem temer e venerar irracional e incondicionalmente. Por isso ainda se venera Deus. Quanto a isso todo o conhecimento acumulado até hoje se mostrou inútil. Não se deu um passo adiante. Ainda se venera deuses como antigamente. Aliás, é o que Nietzsche diz acerca dos Europeus de sua época: “Por mais que haja progredido em outros âmbitos, em matéria de religião a Europa não alcançou ainda a liberal ingenuidade dos antigos brâmanes”**


* Aurora, I, 5, Sejam agradecidos!
** Aurora, I, 96, In hoc signo vinces

quarta-feira, 14 de março de 2012

OS NIILISTAS ALIENADOS


Um diz que o homem atual é um alienado (Marx) e o outro que ele vive num Niilismo (Nietzsche). Embora cada um tenha lá seus argumentos e seus pontos de vista, tenho de concordar que estão certos. A impressão que tenho é de que as pessoas, mergulhadas numa modernidade onde a informação pipoca aos quatro ventos, não conseguem lidar com elas e se sentem impotentes diante do conhecimento. Claro que muita gente esbarra nas próprias convicções e naquilo que lhe foi ensinado pelos pais e por todos que o cercam desde os primeiros anos de vida. Mas por que não questionar a mais inquestionável das convicções, mesmo que seja para afirmar a própria convicção? E uma das questões que as pessoas resistem em questionar é justamente a religião e a crença em Deus. Como um bom ateu, não quero destruir a crença de ninguém (só os fundamentalistas tentam te convencer a acreditar naquilo que acreditam). Mas há alguns fatos difíceis de ignorar. Como este: Que as religiões vivam do sofrimento, da doença, como afirmou Nietzsche acerca do cristianismo ao dizer que "o cristianismo tem por base o rancor dos doentes, o instinto voltado contra os sadios, contra a saúde", e da miséria, como afirmou Marx ao declarar que a “a religião é o ópio do povo”, do ser humano, com algumas raras exceções, eu não tenho dúvida; pois sem isso as religiões já teriam sido varridas da face da terra há centenas de anos. Mas o que eu não conformo é ver pessoas ditas “inteligentes” e com um grau de conhecimento satisfatório acreditar num Deus rancoroso, vingativo e ciumento que precisa ser louvado o tempo todo, de um lado; e por outro, um deus que está disposto a satisfazer os nossos mais insignificantes e absurdos desejos. Ou essas pessoas se fazem de idiotas ou são tomadas pela mais absurda ingenuidade. Num ou noutro caso elas não devem ser levas muito a sério. Citando Nietzsche mais uma vez, eu pergunto: Será que as pessoas não se dão conta de que "O Homem, em seu orgulho, criou a Deus a sua imagem e semelhança"?