quinta-feira, 1 de julho de 2010

A MENINA DO ÔNIBUS - Capítulo V - Part. 1


A facilidade com que me permitiu tocá-la deixou-me porém com a pulga atrás da orelha, pois mulheres mais velhas me pareciam bem mais reticentes. Lembro-me inclusive de quanto foi difícil fazer com que Ritinha – seu verdadeiro nome era Rita de Cássia – me deixasse abrir-lhe o vestido e pegar em seus seios rosados. Levei duas semanas para conseguir isso (já estava quase desistindo) e outras duas até enfiar a mão por dentro da calcinha daquela jovem de 19 anos completados no mês anterior. Todavia, após experimentar o deleite de minhas carícias, ela tomou gosto pela coisa. Obter-lhe o resto acabou sendo mais fácil. No entanto, dada a dificuldade inicial em arrancar-lhe o que queria, tive receio das complicações futuras. De fato houve algum problema, mas nada sério, até porque não envolveram seus pais, o que quase sempre torna as coisas difíceis de resolverem. Ela mesmo me confessou que se estes soubessem que a filha não era mais virgem, expulsá-la-iam de casa. O mesmo não aconteceu com Isoldinha, como era conhecida a Maria Isolda. Esta me deu bem mais trabalho. Tive de suportá-la por quatro meses, fingindo que a namorava, que me casaria devido às ameaças de seu pai, o qual afirmava castrar-me se não reparasse o dano causado à sua filha. Pensei que daquela vez chegara ao fim os meus dias de sedutor. E por pouco não pedi socorro aos meus pais para tirarem-me dessa enrascada. O absurdo nisso tudo era que a filha tinha 20 anos, portanto não se tratava de nenhuma mocinha inocente. Ah, mas dei muita sorte nesse caso! Três dias depois de seus pais me pressionarem para marcar a data do noivado, uma manhã de terça-feira, ela me liga desesperada e chorando muito, para dizer que o pai morrera ao cair no fosso do elevador de um prédio em construção. Ao invés de sentir a perda daquele homem baixinho, gorducho, bronco e que me fitava de soslaio como a um inimigo; ao invés da compaixão, senti na verdade uma enorme alegria, pois vira naquela tragédia a minha liberdade. O rompimento foi difícil e me deixou inclusive com muita pena daquela pobre infeliz, mas Isodinha acabou aceitando depois. Aliás, esse episódio, ocorrido há mais ou menos dois anos, fez com que eu me sossegasse por algum tempo. E depois procurei também escolher melhor as vítimas. Mas o tempo foi passando e quando encontrei Ana Carla, já nem me lembrava mais de Isoldinha ou Ritinha. Acredito que estas só me vieram à cabeça inclusive por causa dessa dúvida – embora Ritinha nunca tenha me saído definitivamente da memória devido à sua beleza: alta, magra, tez branca, cabelos castanhos claros. –, dessa possibilidade de Ana Carla não ser mais virgem. Talvez Ana Carla fosse mais esperta e dissimulada do que eu poderia imaginar? E quiça nem virgem fosse? “Será que ela já tivera alguma experiência sexual? Muitas meninas na sua idade sim; algumas até estão grávidas e com filhos no colo”, pensei, sendo tomado em seguida pelas imagens de Ana Carla nos braços de um rapaz, cujo dorso jovem inclinava sobre seu corpo nu.
Ah! Durante aquela noite essa dúvida me perturbou feito fantasmas a uma criança medrosa. Quase não preguei os olhos. E se pudesse lhe telefonar no meio da noite para demover-me dessa dúvida, tê-lo-ia feito no mesmo instante. Até então havia a certeza de que estava me envolvendo com uma garota pura, mas agora a possibilidade de não ser me assustava, levando-me a indagar como teria ela perdido a virgindade, como teria acontecido e com quem teria sido. E tais pensamentos quase me levavam ao desespero. “Todo esse sacrifício em vão! Todo esse tempo perdido! Não de todo. Também não precisa exagerar. Mas não é a mesma coisa! O que eu realmente quero é sua virgindade, ser o primeiro a gozar naquela xoxotinha. Isso é o que importa, é o que eu quis desde o começo. Se ela não for, quem será que foi o primeiro? Algum colega de escola? Um vizinho talvez? Vai ver que nem soube fazer direito. Não mesmo! Idiota! Nem ideia tinha de quanto significava. Ah, que desperdício! Perder a virgindade para um idiota qualquer”, lembro-me de pensar em algum momento antes dos primeiros raios de sol invadir o quarto através das frestas da janela.
Não que eu estivesse com Ana Carla tão somente por causa de sua virgindade. Não, não. Isto só não bastava, não justificava todo esse sacrifício embora fosse capaz de fazer até mais por uma virgem. A sua juventude, a sua inocência e ao frescor de seu corpo pesavam tanto quanto sua pureza. Mas até então só a vira nela uma virgem a ser deflorada, como uma jovem que não sabia nadica de nada acerca do sexo, como uma rosa delicada à espera do momento de se desabrochar. Eu tinha em mente a ideia fixa de ser o primeiro, de ter a exclusividade em lhe romper o hímen, aquela membrana tão frágil e ao mesmo tempo cobiçada por homens assim como eu.
Quando fui ao seu encontro no dia seguinte, só me havia uma coisa na mente: esclarecer essa maldita dúvida. Eu só precisava criar um clima, uma situação onde a pergunta fosse feita com naturalidade, sem lhe causar grande surpresa, pois não queria gerar nenhum tipo de desconfiança que sua pureza me fosse caso de vida ou morte.
E foi o que fiz.
Após uma longa troca de carícias, quando percebi que ela se sentia muito à vontade, inquiri:
-- Posso te perguntar uma coisa?
Ana Carla, talvez por não imaginar o que eu queria lhe perguntar, respondeu:
-- Claro que pode, meu amor!
-- Você é virgem?
Foi como se a houvesse flagrado em uma mentira ou fazendo algo vergonhoso. Ana Carla ficou vermelha, com uma expressão de timidez, de quem não entendera a pergunta, mas sabendo tratar-se de algo a tocar-lhe a nudez da alma. E por alguns instantes, achei que ela havia perdido a fala.
-- Por que você quer saber? – volveu ela logo depois.
Aí foi a minha vez de ficar com a face afogueada, embora suspeitasse de antemão que talvez me fosse fazer esse tipo de pergunta. Por isso havia me preparado. Todavia em se tratando de preceitos morais, nunca se está preparado suficientemente para confrontá-los. Era preciso porém manter o controle da situação, não lhe deixar espaço para uma recusa, pois uma recusa só faria aumentar minhas desconfianças; e assim, tal qual aquele mergulhado no mar do ciúme, torna-se refém de suas próprias desconfianças, as quais o levam a cometer os atos mais excêntricos. Então, como se a pergunta não fosse tão importante, respondi:
-- Por nada. Só por curiosidade mesmo. Mas se não quiser responder, não tem problema.
-- Não, tudo bem – disse ela, tentando ocultar o constrangimento. – Sou sim.
Ah, que alívio! Então ela ainda era pura e intocada? Então eu seria -- como fui com a neta da dona Carminha e com Ritinha cuja informação de que ainda era virgem deixou-me no mais puro êxtase, o qual provocou-me uma euforia tão grande que me deixei levar pelos instintos e o que acabou retardando meus planos -- o malfeitor a lhe roubar a pureza? “E eu que perdi uma noite de sono por nada!”, disse a mim mesmo. Fiquei tão afetado, que não fui capaz de meia hora depois me recordar o que me passou pela cabeça. Acredito entretanto, ter sido tomado por uma satisfação desmedida, por uma afetação tão grande que quase seria impossível esta ter passado ao largo de seus olhos, embora até onde sei, Ana Carla não deve ter percebido, ou se percebeu não se lembrou de anotar em seu diário naquela noite.
Fui para a casa almoçar com alma aliviada. Se até aquele encontro uma angústia tomava conta de mim, agora a sensação era totalmente outra. Eu sentia o júbilo transbordar em meu peito e provocar uma sensação visível em minha face. Dir-se-ia inclusive que havia me apaixonado, tamanha semelhança entre as duas reações.
Não foi por acaso que, ao sentar à mesa, minha mãe comentou:
-- Você está com cara de quem está amando. Quem é ela?
-- Não é ninguém não, mãe – respondi.
Ela deu um sorriso e depois falou:
-- Tudo bem, se não quer me contar. Mas eu conheço essa cara.
Insisti que realmente não estava apaixonado por nenhuma garota. O que era verdadeiro. Eu desejava loucamente Ana Carla, mas não me sentia apaixonado por ela; aliás, supor tal coisa seria um grande absurdo, talvez mais absurdo que afirmar que a paixão não é fruto do exagero, da errada percepção de que o outro é capaz de nos proporcionar um deleite como ninguém. Eu desejava seu jovem corpo e a pureza de seu sexo, nada mais.
Por falar em afetação, esta não foi exclusividade minha. Pelo que Ana Carla anotou em seu diário é possível constatar como minha pergunta intrigou-a de forma desmedida. Acho inclusive quase ter posto em risco tudo que conseguira até então. Aliás, penso até que, se lhe fizesse essa pergunta antes, de forma apressada, os destinos de tantas pessoas teriam seguido um rumo diferente.
Mas não vamos adiantar aos fatos, essas “pessoas” serão no devido tempo apresentadas ao leitor. Por hora, deixá-lo-ei com as anotações de seu diário:

Segunda, 29 de novembro.
Sai mais cedo da escola e, ao invés de ir para casa, fui me encontrar com ele. Quando eu soube que não íamos ter as duas últimas aulas, corri ao orelhão da escola e liguei para ele. Ele disse que tinha um tempinho livre e nos encontramos.
Ficamos mais mesmo foi só conversando. Eu não podia ir para longe por causa do horário. Ficamos numa pracinha que tem há umas quatro quadras da escola. É um lugarzinho gostoso, com umas árvores enormes. Há uns bancos de cimento bem embaixo das árvores. O mais importante é que ali é um lugar meio deserto e tranquilo. Quase não passa ninguém.
Foi delicioso ficar ali com ele por quase uma hora. De vez em quando, a gente olhava para os lados para ver se não tinha ninguém nos olhando e nos abraçávamos e nos beijávamos. Minha nossa! Como é gostoso beijar aquele homem! Eu fico toda arrepiada quando ele me pega nos seus braços, me aperta e me beija com vontade. Ele sabe me deixar louca!
Hoje ele me fez uma pergunta que me deixou muito sem graça. Eu não sabia o que responder. Ele me perguntou se eu era virgem. Na hora, eu fiquei vermelha e muda. Mas logo depois, antes de responder, eu perguntei: “Por que você quer saber?”. Então ele me respondeu: “Por nada. Só por pura curiosidade...”. Aquilo me deixou um pouco encucada. Por que ele estava tão interessado assim na minha virgindade? Será que ele só queria saber se eu era virgem ou não? Será que minha virgindade é tão importante assim para ele? Dizem que os homens dão muita importância a isso, mas será que ele também? E se eu não fosse? Isso mudaria alguma coisa entre a gente? Me deu vontade de perguntar para ele, pena que não tive coragem.
Respondi SIM. Era a única resposta que eu podia dar. Mas se não fosse também teria respondido NÃO. Também não me perguntou mais nada. E não tocamos mais no assunto. Mas tive a impressão der ver nos olhos dele o quanto ficou satisfeito. Fico feliz que ele tenha gostado. Para ser sincera, não gostei muito. Preferia que não tivesse me perguntado isso. Acho que não tem nada a ver, só isso.
Eu queria me encontrar com ele mais tarde, mas ele disse que só estaria disponível à noite. E esse horário não dava para mim. Ficamos de ver se conseguiremos um jeito de nos encontrar amanhã.


sexta-feira, 25 de junho de 2010

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 10

-- Vamos pegar as frutas – disse ela, desvencilhando-se de mim muito envergonhada e surpresa ao mesmo tempo.
-- Espere aí! A gente não precisa ter pressa – falei, tentando puxá-la de volta aos meus braços. Apesar da timidez, o desejo, ao aflorar de forma tão intensa, acabou jogando-a para escanteio naquele momento.
-- Não. É melhor não – afirmou Marcela.
-- Mas nós não estamos fazendo nada demais. Ninguém está vendo – insisti, tentando mantê-la sobre meu controle.
-- Já disse que não – foi categórica. – Se você não parar eu volto.
Aquilo me deixou desconsertado. Num momento ela parecia querer, noutro já não queria mais. Mesmo assim, quis arrancar-lhe nem que fosse outro beijo.
-- Ta bom, então – concordei. – Mas então só me dá mais um beijo.
Ela afrouxou a guarda e deixou que a beijasse mais uma vez.
Não sei o que me aconteceu naquele momento. Jamais havia pensado ou feito algo parecido. Tentar agarrar a menina a força era algo inadmissível. Ainda mais por se tratar da Marcela, por quem meu coração balançava.
Quando me dei conta do que havia feito, fiquei deveras envergonhado, com vontade de fugir daquela ilha a nado. Foi uma vergonha sem procedentes, muito mais do que ficara na madrugada quando me masturbei pensando nela e na Luciana. Naquele instante, se pudesse desaparecer, ficar invisível eu teria feito. Tanto é verdade que, ao longo do dia, fiz o possível para que nossos olhares não se cruzassem.
Além de bananas, apanhamos umas frutas que pareciam goiaba. A diferença estava no tamanho e no sabor. Eram bem menores e de sabor mais ácido. Eu não me lembrava de ter visto aquele fruta alguma vez. Mas como não era de comer frutas, isso não quer dizer que minha mãe nunca tenha comprado.
Voltamos em silêncio e não tocamos mais no assunto.
Acordei Ana Paula e falei para ela ir se lavar, pois teríamos um longo dia. Havia muito que fazer. Antes de ir se lavar, ela disse que queria tomar água de coco. Então fiz o sacrifício de subir numa palmeira de apanhar alguns.
-- Precisamos construir uma cabana – disse Luciana. – É muito ruim ficar dormindo ao relento, nessa areia que deixa a gente toda suja.
-- Também acho – disse Ana Paula.
Marcela mantinha-se calada e distante, com se as discussões não lhe dissessem respeito, embora isso provavelmente fosse consequência do que fizemos cerca de uma hora atrás. Notei isso, mas também não tinha coragem de lhe dirigir a palavra.
-- O problema vai ser fazer isso sem ferramentas. Só temos uma lasca de pedra que não serve para muita coisa. Temos que pensar numa outra forma de cortar a madeira. – falei.
Ficamos algum tempo sentados ao lado da fogueira, como se estivéssemos perdidos, sem saber o que fazer. No momento ela era tão somente alguns gravetos em combustão.
Não sei o que se passava na cabeça daquelas meninas. Eu porém tentava encontrar uma forma de construir uma cabana, não só para passar a noite como também para nos abrigar da chuva. Por sorte o céu permanecia limpo. Nenhuma nuvem à vista. Certamente teríamos mais outro dia quente, abafado e ensolarado; mais um dia daqueles onde a gente não tem vontade de fazer nada.
Cerca de meia hora mais tarde, levantei e falei:
-- Não adianta a gente ficar aqui à toa. Vamos tentar quebrar alguns galhos e usar eles para construir uma cabana.
-- Então vamos – disse Ana Paula, que construía castelos na areia.
-- Só que alguém vai ficar aqui tomando conta do fogo. Quem se habilita? – perguntei.
As meninas olharam umas para as outras. Depois Marcela respondeu:
-- Eu fico.
Entramos na floresta por uma trilha que encontramos poucos metros da cabana, a qual seria usada com certa frequência para penetrarmos na ilha. Percebi que aquela trilha tinha sido feita por algum animal. De repente uma possibilidade me passou pela cabeça. Se havia uma trilha, havia animais naquela ilha. Então poderíamos caçá-los para comer. Isso não era o mais importante agora, mas discutiria isso com as meninas mais tarde. No momento, só a cabana era nosso objetivo.
Não sei quanto tempo demoramos, embora não chegamos a ir longe. Mas, quando voltamos, carregávamos dois troncos de madeira não muito grossos e alguns galhos que conseguimos quebrar com o uso de cordas de cipó.
Foi o que nos ajudou. Ao encontrar os ramos de cipós, tivemos não só a ideia de apanhá-los para prender a madeira uma na outra como para quebrar galhos das árvores.
Gastamos o dia todo para construir nossa primeira cabana. E na verdade, ela não servia para muita coisa. Claro que ela nos protegia do sol e também dava a aparência de moradia. De certa forma, aquela cabana também dava a sensação de segurança, de que tínhamos um lugar para dormir.
A cobertura provisoriamente foi feita com folhas de bananeira. Mas no dia seguinte seria substituída por capim, tal como alguns de nós tínhamos visto em livros e na TV. A sugestão inclusive partiu da Luciana. Foi ela quem disse que tinha parentes que moravam no interior de Minas Gerais, os quais possuíam uma casa coberta dessa forma. Ela não sabia ao certo como o capim era amarrado, mas disse que não deixava a chuva entrar.
Para deitarmos, o chão foi forrado com capim e depois coberto com folhas de bananeira. Era a única coisa que encontramos que não nos causa desconforto. Porque deitar sobre o capim não seria possível.
Assim que começou escurecer, fizemos outra reunião. Havia alguns detalhes que precisavam ser discutidos.
-- Alguém ainda se lembra das regras que definimos ontem? – perguntei.
-- Manter o fogo sempre aceso – respondeu alguém.
-- Construir uma cabana – disse a outra.
-- É isso aí – falei. A cabana já está construída. Bem ou mal é uma cabana. Aos poucos a gente vai melhorando ela.
-- Você tem toda a razão, Sílvio – disse Luciana.
-- Então, agora está na hora de definirmos mais algumas regras. Vocês não acham?
-- Não sei – respondeu Ana Paula. – Será que a gente precisa de mais regras?
-- Claro que sim! – falei. – Se não existissem regras, o mundo seria um caos. Como é que as pessoas iam conviver umas com as outras sem regras?
-- Mas aqui a gente está numa ilha – argumentou minha prima. – Só tem nós quatro. Para que regras? Não vamos ficar aqui por muito tempo, mesmo!
-- De certa forma você tem razão – interveio Luciana. – A gente poderia ficar um tempo sem regras. Ia ser bem legal. Aí a gente ia poder fazer tudo que quisesse – continuou ela, cheia de empolgação.
-- Eu não concordo – discordou Marcela, que até então se mantinha em silêncio. – Precisamos sim de regras. Ou vocês acham que somos animais?
-- Não é nada disso! – protestou Ana Paula. – Eu só quis dizer que somos civilizados o bastante para ficar sem regras nesse lugar até sermos resgatados. Talvez amanhã ou depois já saímos daqui. Se vamos ficar por pouco tempo, pra que regras?
-- Tudo bem, então – falei. – Já que vocês querem assim. Mas como líder, quero determinar duas coisas: primeiro, vamos continuar tomando conta da fogueira; segundo, tudo deve ser dividido, desde as tarefas mais simples até o que formos comer. Ninguém deve ter o privilégio de não fazer as coisas ou ter mais que os outros.
-- Também concordo – disse Luciana.
-- Por mim, tudo bem – falou Ana Paula, como se aquilo não lhe fizesse a menor diferença.
-- E você, Marcela? O que acha? – perguntei.
-- Se a maioria acha que não precisamos de regras, então ficamos sem elas. Mas só quero ver até onde isso vai dar. Aposto como daqui uns dias, vamos necessitar delas.
-- Não vamos não – disse Ana Paula. – Até lá já estaremos em casa.
-- Espero que você tenha razão, garota – disse Marcela.
E ali ficamos conversando por mais algum tempo. A conversa caiu para temas banais dos quais não me recordo. Falávamos de situações e recordações de momentos engraçados na escola e no dia-a-dia.
Depois alguém sugeriu que fossemos tomar banho. E assim fizemos os quatros.
Foi muito divertido. Foi um dos momentos de maior descontração desde que chegamos naquela ilha. Brincamos de mergulhar e passar no meio das pernas do outro em baixo d’água, de pega-pega no meio das ondas e muito mais.
Só não ficamos mais porque estava começando a escurecer e era preciso abastecer a fogueira e buscar mais alguma coisa para comer.

terça-feira, 8 de junho de 2010

CARTA DE AMOR: DIA DOS NAMORADOS


Na ociosidade interminável de minhas noites sem você, a imobilidade do silêncio me devora a alma feito um ácido de grande poder de corrosão. É quase insuportável a saudade no meu peito, ainda mais por saber que você também deva estar experimentando uma sensação parecida com a minha, pois tuas palavras apaixonadas me levam a acreditar que o nosso amor é infinitamente grande.
Num momento ou outro até, tento não pensar em você, mas no fracasso de minhas tentativas eu me deparo com a certeza de que minhas limitações são tamanhas que não tenho nenhuma chance contra essa gigantesca força chamada amor. E então me rendo feito um crente fervoroso ao imensurável poder de Deus. Deixo os pensamentos me lançarem até você, mais precisamente aos nossos momentos tão bem registrados na minha memória.
O passado, embora ainda recente, passa-me na cabeça feito um filme onde se pode correr umas cenas e passar lentamente outras. E cada uma delas a seu modo me provoca sensações diferentes. Uma ou outra inclusive faz-me verter lágrimas, lágrimas essas que, ao formar uma gota pesada demais, escorrem-me pelos cantos dos olhos e vai morrer no travesseiro, o qual desde a última noite, exala o perfume inconfundível de teu corpo. Aliás, talvez por causa desse teu cheiro, que penetra-me pelas narinas e chega aos mais longínquos recantos de meu cérebro, essa saudade me parece mais terrível de suportar.
Penso em saltar da cama e, assim seminu, apenas com as roupas de baixo, pular pela janela e voar até você feito Ícaro. Mas ai me dou conta de que não tenho asas, de que se me atirar pela janela, ao invés de encontrar os teus braços macios, quentes e apaixonados encontrarei tão somente a dureza e a indiferença das pedras frias da calçada. E já que não tenho asas, penso em sair em disparada pela porta da sala, atravessar a rua e correr até sua casa num único fôlego. Mas não sou aquele personagem da mitologia grega cuja corrida de uma cidade a outra deu origem à Maratona. E embora moremos na mesma cidade, a distância é grande demais para que se possa tentar o mesmo feito.
Olho no relógio. E os ponteiros se misturaram para iniciar um novo dia. Tento conter a euforia e a vontade de que estas passem rápido a fim de que finalmente eu possa estar nos teus braços mais tarde, nessa data tão especial para nós, os amantes. De repente o passado e o presente se misturam. Então surge o futuro. Penso no que faremos, onde iremos e no melhor momento de entregar-te o meu presente, o qual tenho certeza de que te provocará surpresa; tento imaginar qual será tua reação, a expressão de teu rosto, de teus olhos e de tua boca; indago-me que palavras me dirás. Mas ao mesmo tempo imagino-te muda, sem palavras.
Confesso que também sou tomado pela curiosidade em saber como me surpreenderá. Embora você me seja o melhor presente que o destino me deu, portanto nenhum presente poderá se igualar a esse. Ainda sim não posso deixar de desejá-lo. Pois por mais simples que seja, o que ele representará não há preço que pague. Nada poderá valer tanto quanto o prazer de contemplá-lo com a única finalidade de trazer-me de volta a lembrança do momento em que me foi dado. Aliás, meu amor, foi pensando nisso que comprei-te algo durável, mais durável do que a nossa brevíssima passagem por esse mundo. Passagem que apesar de tão rápida, ter-me-á valido mais do que se fosse eterna, pelo simples fato de ter-te encontrado. Porque não trocaria esse instante de existência pela eternidade sem você. Até porque como disse Stendhal, um de meus autores preferidos: “Não amar quando se recebeu do céu uma alma feita para o amor é privar-se a si mesma e a outrem de uma grande felicidade”.
Dizer-te mais uma vez que te amo, pode até parecer aborrecido. Mas sei que, apesar de dizê-lo uma centena de vezes quando estou contigo, ainda sim você sente prazer em ouvi-la. Os amantes são assim mesmo. Só para aqueles que nunca experimentaram o amor no que há de mais profundo podem nos achar bobos, ingênuos, irritantes e principalmente aborrecidos. Aliás, estas palavras um tanto exageradas, como é o meu amor por ti, também devem ser aborrecidas, sem sentido e idiotas para quem não ama. Mas alguém apaixonado assim como eu, se as lesse, compreenderia minhas palavras e dar-me-ia razão. É como disse Pascal: “O coração tem suas razões, que a razão desconhece”.
É com essas palavras, meu amor, que encerro minha carta. Agora deitarei no travesseiro e deixarei que os meus pensamentos em você me guiem ao mundo dos sonhos e permitam que eu possa atravessar a noite são e salvo até que, “acordando vagarosamente para um trêmulo conhecimento da manhã”, posso levantar e me preparar para o acontecimento mais especial do dia: estar com você, meu amor.

Te amo.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A MENINA DO ÔNIBUS - Capítulo IV - parte 4

O leitor talvez esteja se interrogando de uma forma um tanto incrédula acerca dos acontecimentos acima, uma vez que não se pode acreditar que uma jovem permita uma ousadia dessas em tão pouco tempo, ainda mais de alguém que ela mal conhece. Tem razão, leitor. Ainda mais se este leitor for pai ou mãe de uma menina. Acredito inclusive que muitas delas não permitiriam tal coisa e não agiriam dessa forma. O problema no entanto não são as mocinhas, mas o homem a envolver-se com elas. Não são elas quem se deixam levar e permitem tais coisas, apenas são induzidas de tal forma que não há escapatória; ou seja: não há como recusarem. E quem afirma isso, amigo leitor, não é nada mais nada menos que alguém acostumado a fazer tais coisas. Como já tive oportunidade de comentar, até hoje só uma jovem não caiu nas minhas artimanhas. Não acredito que as outras desejassem realmente se entregar, sabendo que a virgindade é um tabu. Talvez o maior erro dos pais seja justamente o fato de não preparem suas filhas para enfrentar situações como essas, pois preferem antes de tudo mantê-las na ignorância, alheias a tudo em se tratando de sexualidade. Não por acaso, quanto mais desinformada for a jovem, mais fácil seduzi-la. Por quê? Porque aquilo tudo lhe é novo, estranho. De forma que diante de uma situação assim qualquer ser humano fica sem saber como proceder. Ana Carla, embora demonstrasse ser uma jovem inteligente, não fugia a essa regra. Certamente seus pais – ou melhor sua mãe –, por razões culturais não lhe ensinara nada. Uma jovem esclarecida não teria me deixado introduzir-lhe o dedo na vulva, pois saberia onde este poderia parar.
Ana Carla ainda chegou a deduzir antes de ser tarde, mas outras não tiveram a mesma astúcia. Dentre muitas que caíram na minha lábia nos últimos oito ou nove anos – pois foi a partir dos dezoito anos que passei a aperfeiçoar os métodos de sedução e aplicá-los a todos as mulheres que me interessassem – a maioria não se opôs à introdução do dedo na vagina em prazo tão curto. Silmara, que o leitor já conhece, embora contasse com seus dezoito anos, resistiu na primeira tentativa no terceiro dia, mas não resistiu à quarta no dia seguinte. Aliás, minha desconfiança de que talvez não fosse virgem partiu daí, quando, no banheiro de casa, sentada no meu colo com as pernas abertas, introduzi-lhe totalmente o dedo médio enquanto beijávamos (meus pais não estavam em casa e sua mãe havia ido ao supermercado comprar produtos de limpeza). O dedo brincou de ir e vir por algum tempo. Eu só não tirei o falo e lho meti na xoxota (estávamos sentados sobre a tampa do vazo sanitário, pois eu me preparava para entrar no banho) porque não queria fazer aquilo de forma apressada. Queria possuí-la num quarto de motel já que era maior de idade.
Aliás, por falar em inocência, nem todas eram inocentes. Houve dois ou três casos em que fui surpreendido com tamanha ousadia. Não vou relatá-los por hora, e se aparecer uma oportunidade não deixarei de matar-te a curiosidade, leitor. Ao invés de falar de minhas aventuras, de coisas sem importância, prefiro continuar minha história com Ana Carla. E por falar nisso, encerro este capítulo com suas anotações feitas no dia seguinte, domingo, 28 de novembro de 1999.

Antes do almoço.
Ainda estou deitada na minha cama, lembrando da gente ontem no cinema. Estou morrendo de saudades dele! Será que ele já acordou? Acho que sim. Já são quase dez horas. Ainda bem que a minha mãe não está em casa, porque assim posso escrever sem medo dela entrar de repente no meu quarto.
Ah, meu querido diário! Só você mesmo para me ouvir sem brigar comigo. Às vezes, fico morrendo de vontade de contar para alguém o que está se passando. Pensei em contar para a Marcela ou para a Bianca, mas não posso. Ninguém ia me entender. Como elas iam poder me entender, que estou apaixonada por um rapaz que quase tem idade para ser meu pai? As pessoas só veem as aparências, aquilo que querem ver. Elas só iriam me criticar, brigar comigo, falar que eu estou ficando doida. Coisas desse tipo. E quanto a ele então? O que não iam dizer? Certamente iam falar que ele só está querendo aproveitar de mim, que só quer transar com uma menininha nova, que só quer tirar a minha virgindade e depois desaparecer da minha vida. Sei que é isso que as pessoas sempre pensam. Se isso tivesse acontecendo com alguma de minhas amigas, talvez eu também pensaria do mesmo jeito. Mas sou eu quem estou vivendo essa situação. E sei que as coisas não são assim. Eu sinto que ele também me ama.
Sempre que eu digo pra ele que amo ele, ele responde que também me ama. No começo ele não dizia nada, mas agora ele diz. Ontem mesmo, quando estávamos saindo do Cinema. Eu estava tão feliz, feliz como nunca havia me sentido em toda a minha vida. E então pulei dos braços dele, dei um longo beijo naquela boca gostosa dele, naqueles lábios grandes, e disse que o amava tanto, que seria capaz de fazer qualquer loucura por ele. Ele respondeu: Eu também, minha florzinha! Hum... como eu fiquei feliz de ouvir aquilo. Meu coração até transbordou de ternura, e meus olhos quase se encheram de lágrimas. Nossa! Estou loucamente apaixonada por ele.
Eu sei que, às vezes, ele é um pouco atirado demais e passa da conta. Ontem mesmo! Não deveria ter tentado enfiar o dedo em mim. Eu queria que ele tivesse continuado só passando ele ali por cima. Eu teria deixado ele me acariciar o tempo que quisesse, mas quando ele enfiou, eu fiquei com medo. Sei que de vez em quando sou muito boba, e até inocente demais, achando que ele ia realmente enfiar o dedo lá dentro. Talvez nem fosse. Ele sabe que eu sou virgem, e não vai querer tirar a minha virgindade no cinema com o dedo. Quando isso acontecer, vai ser com o troço dele, com a gente fazendo amor. Mas isso ainda vai demorar.
Ah, se ele imaginasse que estou deitada na minha cama sem roupa, inteiramente nua! Será o que ele ia fazer? Estive me olhando no espelho agorinha e sabe o que descobri, meu diário? Que eu sou muito bonita, gostosa. Uma verdadeira gata! E quando eu tiver meus dezoito anos então? Ele vai se orgulhar tanto de sua mulher. Já pensou ele deitando e acordando todos os dias com um avião desses? Olha só o meu traseiro! Que bunda linda e redondinha. Tudo no lugar. Eu achava minha bunda grande e feia. Mas agora acho que ela é linda. As das minhas amigas é que são pequenas demais. E meus peitos então? Ele come eles com os olhos. Percebo como ele fica louco por esses peitos cheios e redondos. Imagine se eu fosse que nem a Marcela ou a Roberta, que tem a minha idade, e tem uns peitinhos que nem aparece direito? Duvido que, se eu tivesse aqueles peitinhos, ele teria se interessado por mim. Ele se interessou porque eu sou gostosa. Por isso aqueles idiotas também ficam mexendo comigo na escola.
Meu deus! Já são quase onze horas! É melhor eu me levantar e arrumar meu quarto antes que minha mãe chegue. Senão ela ainda pode acabar me dando uma surra.

Noite
Estou morrendo de raiva. Me dá vontade de sumir de casa. Eu liguei depois do almoço para ele e combinamos da gente se encontrar mais tarde. Sabia que não ia ser fácil, mas mesmo assim prometi que ia dar um jeito. Mas meu pai resolveu ir na casa de minha tia que está doente. Eu disse que não queria ir e que ia ficar na casa da Marcela, mas ele não aceitou. Falou que eu também ia e não se falava mais nisso.
Quando vi que não tinha jeito mesmo, disse que ia à casa da Marcela avisar que não ia ficar com ela, mas só usei essa desculpa para ligar para ele e dizer que não ia dar para nos encontrar. Ele me pareceu um pouco chateado, mas disse que não tinha problema. “Vamos ter muitas oportunidades de nos encontrar, minha florzinha!”, foi o que ele disse.
Eu também sei que não vão faltar oportunidades de ficarmos juntos, mas é que eu não quero deixar ele sozinho em pleno domingo. Já pensou se ele resolve sair para dar umas voltas e alguma vagabunda resolve dar em cima dele? Essas meninas de hoje em dia não podem ver um homem bonito, delicado e atencioso que já querem se esfregar com eles. Já pensou se ele se encanta por alguma dessas vagabundas? O que vai ser de mim? Eu o amo mais do que tudo no mundo. Ele é meu só meu! E não vou deixar nenhuma vadia se engraçar com ele não. Porque se eu ver, quebro ela todinha. Arranco os cabelos dela, rasgo a roupa dela e deixo ela nuazinha da silva na rua. E ainda arranho ela todinha pra ela aprender a não se engraçar com o meu homem.
Ai... ai... Estou sentindo tantas saudades dele! Meu coração está doendo tanto! O que eu faço? Não aguento ficar um dia longe desse homem. Ele é minha vida, meu tudo.
Vou é parar de escrever e deitar. Assim posso ficar pensando nele até dormir. Quem sabe até sonho com ele.

domingo, 23 de maio de 2010

DAQUI, DO MEU CORAÇÃO

Daqui, do meu coração
Eu só ouço um suspirar
De palavras sem razão
Clamando para você ficar.

O destino quer tua partida
Para longe de mim.
Mas talvez a vida
Não seja tão má assim
A ponto de querer nos separar.

O meu egoismo talvez
E a ideia da perda definitiva
Tornam tua partida de vez
Uma dor mais sofrida.

Mas não quero sofrer porém
Pois sei que não suportarei
Essa dor, meu bem.
E sei que morrerei
Da forma que não me convém.

Assim, se tem de partires
Para um nunca mais
Antes, a um precipício atires
Este desafortunado rapaz.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 09


Retornei envergonhadíssimo ao meu posto, de onde não deveria ter saído. Era como se eu cometera um ato grave, obsceno e pecaminoso, algo que de acordo com os preceitos religiosos aprendidos na igreja, a qual frequentava assiduamente nos últimos meses nas aulas de catecismo, era motivo mais do que suficiente para levantar a mão divina contra minha pobre alma. Aliás, era como se alguém houvesse me observado e agora estivesse a sussurrar-me na consciência: “eu vi o que você fez. Você é um garoto mau, cheio de pecados”.
Não que eu nunca tivesse me masturbado antes. Já fizera isso algumas vezes; todavia, nunca havia me sentido tão culpado como dessa vez, embora a sensação de culpa era inevitável. Tanto que não tive coragem de observar as meninas dormirem, pois isso certamente me faria lembrar o que eu procurava esquecer.
Quando a lua atingiu mais ou menos a posição em que deveria estar para que meu turno findasse, acordei Ana Paula. Eu já não suportava mais ficar sentado naquele silêncio, lutando contra meus próprios pensamentos, os quais, sentiam prazer em me contrariar e fixarem naquilo que eu lutava para esquecer. Como eu disse anteriormente, só se ouvia o som das ondas arrebentando na praia. E aquilo, aos poucos, acabou me irritando e fazendo com que minha vigília se tornasse uma tortura; pois não se podia fazer nada, a não ser vez ou outra jogar alguns gravetos na fogueira para que ela não se apagasse.
Ana Paula custou a levantar-se. Tive de chamá-la insistentemente mais de uma vez.
-- Mas já está na minha hora? – perguntou ela, após se levantar. – Parece que não dormi nada.
-- Já. E pela posição da lua, deve ser umas duas horas da manhã. Agora é só você esperar até a lua chegar naquela posição – apontei – que terá terminado o seu horário. Aí você chama a Luciana para ficar no seu lugar.
-- Ta bom – respondeu ela bocejando.
-- Olha lá, hein! Não vai dormir, viu? – recomendei.
-- Pode deixar – disse ela, espreguiçando-se.
-- É melhor você ir até a água e lavar o rosto – sugeri.
Sem dizer nada, Ana Paula saiu correndo em direção ao mar.
Não esperei a sua volta. Fui até onde ela estivera deitada anteriormente e deitei no mesmo lugar. Devo ter adormecido quase de imediato, pois ao tentar me recordar desse momento no dia seguinte, lembrei-me tão somente do instante em que apoiei a cabeça na areia e nada mais.
Quando acordei, estava começando a clarear. Luciana e Marcela conversavam na beira d’água e Ana Paula continuava a dormir no lugar ocupado anteriormente por Luciana. Pensei em despertá-la, mas resolvi deixá-la dormir um pouco mais. “Assim que o sol bater na cara dela, ela vai acordar de qualquer jeito”, pensei com prazer, como quem faz uma travessura.
Fui em direção às duas jovens.
-- E aí, meninas? Como passaram a noite?
-- Péssimo – respondeu Luciana.
-- Dormir, até que dormi bem – falou Marcela. – O pior foi ficar tomando conta da fogueira. Vamos ter que arrumar um outro jeito de manter ela acesa por toda a noite.
-- Também acho – interveio Luciana.
Eu também era da mesma opinião. Todavia, haviam coisas mais importantes que pensar numa maneira de não precisar tomar conta da fogueira. De forma que isso não seria resolvido tão cedo.
-- Depois veremos isso. Agora só preciso tirar essa areia do corpo e comer alguma coisa. Estou morrendo de fome. Vocês não estão?
-- Eu até que não – disse Luciana. – Já comi uma banana pouco antes de vocês acordarem.
-- Ah, eu estou! – falou Marcela, abanando-se para tirar o excesso de água do corpo. – Não estou com vontade de comer banana. Queria comer outra coisa.
-- Daqui a pouco a gente busca – falei-lhe com prazer por lhe ser útil. Ao ver que ela havia saído do mar alguns minutos antes, resolvi perguntar: -- A água está muito fria?
-- Mais ou menos. Na hora que a gente entra, está; mas logo depois, a gente não sente tanto.
Então me arrisquei.
De fato a água estava fria. Mas foi como ela disse. Ficou bom depois. Aproveitei para lavar o rosto e depois dar uma mijada. Assim elas não perceberiam. Aliás, isso era uma estratégia usada não só por mim como por todas as meninas.
Assim que saí, chamei a Marcela:
-- Vem comigo! Vamos apanhar algumas frutas! – peguei-lhe na mão, como uma criança que pega na mão de outra para fazê-la acompanhar, contudo sem deixar que ela percebesse que por trás desse gesto havia o meu interesse para consigo. -- Luciana, aproveite para acordar a Ana Paula.
-- Eu? Mas não vou mesmo! Se eu acordar aquela chata, ela é bem capaz de brigar comigo. Se ela não acordar sozinha, quando vocês chegarem, você acorda ela – asseverou olhando-me torto, de má vontade, como quem vê algo a despertar-lhe a mais profunda antipatia.
-- Tudo bem então – falei. – Até é melhor mesmo. Já tinha me esquecido que vocês duas andaram se estranhando ontem. – comentei..
Andamos por alguns instantes, até encontrar uma trilha, a qual era cercada por arbustos cuja altura quase nos cobriam. Talvez, devido à fragilidade de nossa pele, as folhas pareciam lâminas, pois. nos cortavam com extrema facilidade.
-- Vamos ficar todo arranhados – falei.
-- Eu sei. Mas vamos ter que nos acostumar – disse Marcela, segundo atrás de mim, à medida que eu abria caminho entre as folhas. – Pois estou com o pressentimento de que vamos ficar um bom tempo nesse lugar.
-- Você também acha? – perguntei, parando e virando-me para ela.
-- Já vi casos de naufrágio em que levavam dias para achar as pessoas. Se a gente estivesse onde o barco naufragou talvez seria mais fácil. Mas eles nem sabe onde foi que o barco afundou. Não sabem de nada. Como vão achar a gente? É como procurar um grão de areia na praia. Vai levar tempo. Talvez até pensem que morremos afogados.
-- Eu também pensei isso, quando chegamos aqui. Só não quis dizer nada para não assustar vocês. Mas tenho a mesma impressão. É possível que levaremos meses ou até anos para sair daqui, gata. – Parei a sua frente e, com as costas da mão, fiz-lhe uma caricia no rosto.
Ela me olhou um tanto desconsertada, talvez pela surpresa. De imediato percebi que aquele gesto a afetou. Seu rosto adquiriu um tom mais vivo e avermelhado. Cheguei mesmo a tirar a mão com medo de que ela reprovasse meu gesto.
Só que não foi isso que aconteceu. Ela segurou em meu braço, puxou-o de volta e me abraçou. Meu coração disparou. Então foi minha vez de ser tomado por uma afetação incalculável. Fiquei imóvel e duro feito uma estátua. E surpreendentemente, ela aproximou seu rosto do meu e me deu um beijo nos lábios, num beijo meio desajeitado, mas que me marcou para sempre.
Foi meu primeiro beijo. Nunca havia beijado uma garota antes. Mas isso não fez a menor diferença, porque as emoções que estava experimentando eram algo que jamais havia experimentado.
Eu não sei no que pensei. Mas não devo ter pensado em nada. Meu corpo reagiu imediatamente. Quando paramos de nos beijar e ficamos sem saber o que dizer um para o outro, eu me dei conta de que estava excitado, tomado por um desejo cuja intensidade me era completamente desconhecida. E daquele jeito usando só uma sunga não deixaria aquilo passar-lhe despercebido, o que provocaria não só a mim mas a ela também grande embaraço. Eu tinha certeza disso.
Isso me deixou mais descontrolado do que o beijo em si. Durante alguns segundos pensei numa saída. Só que não encontrava nenhuma. Então pensei comigo: “que se dane que ela veja! Ela também deve ter ficado assim...”.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 08

Eu não consegui pegar no sono apesar do cansaço; pois me sentia desconfortável deitado naquela areia. Lembro-me que sentia uma tremenda falta de minha cama. Aliás, deitar-se ao relento só me fez aumentar a sensação de abandono, a qual, com o aperto do coração, levou-me às lágrimas que no entanto tratei de contê-las por me sentir envergonhado, uma vez que sempre ouvia meu pai dizer que homem não chora. Assim, mantive os olhos fechados por algum tempo na tentativa de adormecer, mas o sono teimava em não vir, como se também ele houvesse me abandonado. Além do mais, havia a preocupação de que a Marcela não tomasse conta direito da fogueira e a deixasse se apagar . Aliás, eu tentava não me preocupar com isso, mas não conseguia, pois sobre tais preocupações eu não tinha controle.
O silêncio era estarrecedor e quase total; ouvia-se no entanto o continuo e irritante quebrar das ondas, o qual me incomodava de tal forma que me tirava qualquer possibilidade de pregar o olho. Talvez pelo cansaço, as meninas tinham adormecido logo depois de deitarem. Ao contrário do que acontecia comigo, a falta de um colchão e de uma coberta parece não ter feito diferença.
Por fim desisti de dormir. Resolvi levantar e ir até a água tirar a areia do corpo. Antes porém sentei ao lado da Marcela e ficamos conversando baixinho, para não acordar as outras duas.
-- E aí, como vão as coisas? – perguntei.
-- Horrível! – respondeu ela. – Não existe nada pior do que ficar sentada no escuro olhando para o nada. A gente tenta pensar em alguma coisa boa, mas o que vem à cabeça são só lembranças daquele acidente.
-- É verdade! Quanto a ficar olhando para o nada, depois a gente acostuma.
-- Eu não quero me acostumar. Quero ir para casa.
-- Eu também quero – concordei. – Só que talvez tenhamos que ficar um pouco mais aqui.
-- Você acha que eles vão demorar a encontrar a gente? – quis saber ela.
-- Não sei. Tenho medo de que isso possa acontecer. Pode ser que eles pensem que a gente se afogou e desistam de nos procurar. Se isso acontecer, vamos passar muito tempo nesse lugar, até que alguém apareça. – Falei. Eu não fazia a menor ideia do que poderia acontecer; todavia, algo dentro de mim me dizia que nossa estada ali seria longa.
Marcela silenciou-se. Foi como se minha opinião a afetasse profundamente, como se eu lhe houvesse afirmado uma certeza e não feito suposições. Eu por minha vez não sabia o que dizer, pois nem mesmo sabia o que pensar. Também me sentia afetado, não pelo que nos pudesse acontecer, mas sim pela presença dela ali ao meu lado, as sós, perdidos naquela imensidão do universo. Eu não conseguia esconder que só nós dois ali era um terreno fértil para pensamentos que não tenho coragem de revelar.
Tanto é verdade que achei por bem dar um mergulho. Talvez isso os afastasse e fizesse com que o fluxo para a região dos quadris cedesse.
Voltei algum tempo depois. Pela posição da lua, ainda não estava no meu horário de tomar conta da fogueira. Mas como eu não conseguia dormir, disse-lhe para ir deitar-se que eu ficaria tomando conta da fogueira.
-- Ainda bem. Porque eu estou morrendo de sono – disse ela.
Marcela deitou ao lado das outras duas e, ao que parece, adormeceu pouco depois.
A fogueira havia perdido força. E se seu não a alimentasse, em pouco tempo o fogo se extinguiria. Por isso catei alguns galhos que estavam amontoados bem ao lado, quebrei-os em pequenos pedaços e coloquei no fogo. Aos poucos, o fogo foi ganhando força.
Em seguida sentei onde a Marcela havia sentado anteriormente e fiquei olhando para a imensidão do mar, tal qual ela fizera antes. Talvez porque não houvesse mesmo para onde olhar, uma que atrás de nós a densa vegetação dava a impressão de algo assustador.
Eu quase não conseguia ver nada. Podia tão somente ver a espuma branca das ondas quebrando na praia. E, por falta do que fazer, fiquei por um bom tempo contando-as. Depois comecei a pensar em tudo que nos havia acontecido desde a saída de casa. Pensei nos meus familiares, no quanto eles estavam desesperados com o nosso desaparecimento; pensei nos familiares das meninas e na morte de meu tio. O que iríamos dizer para minha tia? Como ela tocaria a vida sem tio Jamil? E Ana Paula? Como reagiria ao descobrir que o pai estava morto, desparecido para sempre nas profundezas do oceano? Tudo isso ocupou meus pensamentos por um longo tempo.
Mas, aos poucos, aqueles pensamentos foram dando lugar a outros. Olhei para as meninas que dormiam tranquilamente na areia bem ao lado da fogueira, e meus olhos percorrem aqueles três corpos seminus, cobertos tão somente pelo biquíni. E novamente pensamentos que eu preferia não pensar tomaram conta de mim. Olhei para Luciana, que dormia de bruços, e meus olhos foram parar-lhe nas nádegas seminuas. E por algum momento esqueci minha paixão por Marcela.
A seguir, virei o rosto em direção ao mar e tentei desviar os pensamentos, como se afastar os olhos daqueles corpos impedir-me-ia de não pensar neles. Lutei contra meus devaneios por alguns minutos, tentei usar minhas concepções, como se fosse uma arma, para derrotá-los, mas foi tudo em vão. Era como se dentro de mim tivesse alguém que dizia: “Olha! O que tem de mais? Não tem ninguém vendo. Você está sozinho e elas estão dormindo. Pode olhar o quanto quiser. Não tem nada que te impeça”. Do outro lado porém alguém parecia recomendar: “não, não olhe! Não é certo fazer isso enquanto elas estão dormindo. Você ia gostar que ficassem olhando para você assim? E a Marcela? Você não está agindo corretamente com ela, desejando outra garota”. Isso porém não foi o bastante para que eu voltasse os olhos para suas nádegas e desejasse estar em cima delas.
Tais pensamentos me deixaram muito afetado. E tal qual a maioria dos meninos de treze e quatorze anos, eu só conhecia um meio de me livrar daqueles pensamentos. Assim, abandonei a fogueira alguns instantes, até porque não se apagaria tão cedo, afastei-me o suficiente para que elas, caso acordassem, não vissem o que estava fazendo, e bati a primeira de uma sequência de várias punhetas naquela ilha.