quinta-feira, 30 de agosto de 2012

AMAR É VIVER

Feliz é aquele que saber amar
Sem temor, sem preconceito;
Pois só assim poderá saborear
O prazer que lhe é de direito.

O verdadeiro amor não pode ficar
Preso às armadilhas da moral
E nem mesmo do costume milenar
Onde o prazer é um pecado mortal

O amor deve estar acima de tudo
 -- época, cultura ou religião --
E só estar subordinado contudo

A intensa sensação de prazer,
Aos desejos e vontades do coração;
Pois só assim a vida é um viver.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 29

Chegamos à cabana poucos minutos depois. Ana Paula e Marcela conversavam e sorriam. Tive a impressão de que falavam de algo engraçado. Haviam limpado o peixe e ele ainda estava espetado na lança.
Quando nos viram, tornaram-se sérias e nos encararam. Então Marcela perguntou:
-- O que foi?
-- Nada – respondeu Luciana de forma carrancuda, dirigindo-se a um canto e sentando-se.
-- O que deu nela? -- tornou a perguntar Marcela, agora se dirigindo a mim.
-- Sei lá! -- exclamei, sacudindo os ombros, porém com as faces afogueadas. E para mudar de assunto, perguntei:
-- E o peixe?
-- Já limpamos – afirmou Ana Paula. -- Agora só falta assar.
-- Vou enfiar ele na fogueira – expliquei. Apanhei a vara com o peixe e com muito cuidado a coloquei no fogo para assar.
Aguardei.
Enquanto isso, Marcela e Ana Paula saíram e foram em direção ao mar, deixando-me as sós com Luciana.
-- Me desculpe – falei, aproximando-me dela. -- É que fiquei com muito medo daquele barulho. Talvez seja só cisma minha, mas acho que tem alguma coisa nessa ilha de olho na gente.
-- Tudo bem, deixa pra lá – respondeu um tanto contrafeita.
-- Não quero assustar ninguém, mas estou começando a ficar com medo.
Talvez não devesse ter confessado meus temores, pois isso expunha minhas fraquezas e de certa forma me deixava ainda mais vulnerável àquela jovem, aos seus caprichos que dia após dia afloravam de forma mais intensa, como se ela tive consciência do seu poder e desejasse exercê-lo. Talvez ela não se apercebesse disso, mas cedo ou mais tarde daria conta e então já me teria em suas mãos. E justamente a única pessoa capaz de fazer-lhe frente.
-- Mas foi só um barulho – exclamou ela. -- Vai ver que foi um galho caindo.
-- Não foi só isso – asseverei. -- Sinto que tem alguma coisa. Pode até ser algum animal, mas que tem ah isso tem. Isso eu posso te garantir.
-- Então porque a gente não vai dar uma olhada? -- sugeriu.
“E agora? O que faço? Se disser não ela vai saber que estou morrendo de medo e vai me chamar de fracote, de medroso. Vai contar para as meninas e aí elas vão ficar rindo da minha cara. Não, isso não! Não posso deixar que a Marcela também pense isso de mim”, conclui.
-- Agora?
-- E por que não?
Senti o coração palpitar mais forte, como se o medo quisesse me dominar. No entanto, não deixei transparecer.
-- Deixe as meninas voltarem. Ai a gente come o peixe e depois a gente vai.
Luciana assentiu. Disse inclusive estar um pouco faminta. Então aproveitei para dar uma olhada no peixe a fim de ver se estava assado. Não estava no ponto, embora exalasse um cheiro agradável. Aproveitei para movê-lo através da vara a fim de que esta não queimasse.
Ana Paula e Marcela não tardaram. Continuavam alegres e falavam e sorriam. Nada fazia lembrar aquele clima de tristeza de mais cedo, quando a saudade arrancara lágrimas do coração da caçula.
-- Chegaram na hora. O peixe está assado – declarei retirando-o do fogo. -- Olha só que delícia!
Sentamos em círculo e por alguns momentos esquecemos as diferenças. Dir-se-ia ter surgido um clima de harmonia devido aquele alimento, como se a ceia tivesse um quê de sagrado. E embora o peixe não fosse assim tão grande, foi o bastante para nos satisfazer. Não houve um que reclamasse do sabor, da falta de temperos e de sal. Até porque, melhor um peixe sem sal do que comer frutas o tempo todo.
-- Por que você não tenta pegar outro, primo? -- perguntou Ana Paula.
-- Vou tentar sim, mas não agora. Agora, eu vou com a Luciana dar uma olha por aí. Escutei um barulho esquisito quando fui atrás dela. Talvez seja só um animal ou coisa parecida. Mas é melhor verificar.
Ana Paula e Marcela me fitaram com olhar desconfiado, entretanto não fizeram comentários. Levantaram em seguida e tornaram a sair da cabana em ao mar, provavelmente para lavar as mãos e tirar aquele cheiro de peixe.
Luciana levantou-se e, como se me chamasse para um passeio, disse:
-- Vamos.
Titubeei por alguns instantes. Cheguei mesmo a torcer para que ela desistisse daquela maluquice.
-- É melhor levar esta vara – falei, pegando a lança que usara para pescar.
-- O que foi? Ta com medo?
-- Não – respondi. – É só por precaução.
Saímos.
Embora não quisesse admitir, estava sim morrendo de medo. Uma sensação me dizia que poderíamos encontrar algo capaz de tornar nossa estada naquela ilha um inferno, a ponto de cometermos os mais terríveis disparates. “Meu deus! Espero que não seja nada demais. E se for algum monstro ou alguma coisa do outro mundo? E se ele quiser pegar a gente para comer? Não, meu Deus, não deixa isso acontecer com a gente! Não quero ser devorado. Quero voltar para casa, quero ver meus pais, meus irmãos. Estou morrendo de saudades deles”, pensei no instante em que saía da cabana. Passos adiante, eu tornei a pensar: “Por que ela insiste tanto em ir atrás? Não seria melhor a gente não saber o que é? Se for alguma coisa, só vai deixar a gente mais apavorada ainda... Mas e se não for nada? Eu vou ter ficado com medo à-toa. Não, nada não pode ser. Eu não estou maluco. Eu sei que ouvi alguma coisa”. Talvez tudo não passasse de efeito do medo, o qual nos leva ao ápice da imaginação e as mais absurdas deduções.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

MEU ESTILO

Não sou o tipo de escritor que põe o leitor contra a parede a fim de que ponha o cérebro para funcionar e descubra o que realmente o autor tencionava dizer com aquelas meias palavras, mesmo sabendo que a imaginação do leitor é o que completa a obra de um autor. O autor que não desperta e aguça a imaginação do leitor peca por falta de imaginação. No entanto, isso não é a mesma coisa que exigir do leitor a adivinhação por causa do excesso de concisão. Mesmo sendo um recurso poético, é justamente o tipo de coisa que não me agrada, como no poema abaixo:

Morrer
Desaparecer
Fim.
Verdade
Realidade
Fim.

Apesar de não ser tão difícil assim de deduzir o que o poeta quis dizer, ainda sim ficará a dúvida se o que ele (o leitor) interpretou condiz com o que o autor quis dizer, embora muitas vezes a intenção do autor era tão somente aguçar a imaginação do leitor, sem se preocupar com o que de fato ele houvesse interpretado. Ainda prefiro ser mais claro, mais simples, mais direto e pecar pelo exagero do que pela falta.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O REINO DA BELEZA É MAIS VASTO


Versos inspirados num aforismo de "Aurora", do filósofo alemão Friederich Nietzsche.

Astutos e alegres, vagueamos na natureza
Para descobrir e flagrar a beleza
Que há na luz do sol, ou no céu da tormenta,
Ou o que diante dos olhos nos apresenta

Assim também devemos vaguear
Entre os homens, sem deixar passar
O olhar atento de observador e descobridor
Para que se lhes manifeste todo o esplendor,

Quando os tratamos bem ou mal.
Então é proibido fruir os homens maus
Como uma paisagem selvagem
Se bondosos nos iludem feito uma miragem?

Sim, é proibido! Pois até agora buscaram
A beleza no moralmente bom. E não suspeitaram
Das imaginárias belezas sem ossos
Que há nos maus os virtuosos.

domingo, 29 de julho de 2012

COM A MINHA SOLIDÃO





















A solidão que me acompanha amiúde
Na busca de minha própria essência
Dela aceito de tudo, menos um ataúde
Para enterrar a minha existência.


Das minhas dores e decepções
Que teimam em me fazer desistir da vida
Procuro apenas tirar algumas lições
Sem porém deixá-las virarem feridas.


A solidão que para alguns faz mal à saúde
A mim, faz bem ao corpo e à consciência
Absorvo-lhe com prazer a plenitude
Para buscar a vida com sapiência


E desses momentos e abstrações
Onde a experiência é desmedida
Sobre a vida faço minhas indagações
Embora sem deixá-las afetar minha vida.  

quarta-feira, 25 de julho de 2012

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 28

Aquilo me esfriou a cabeça. Embora muito afetado, com o coração correndo feito um cão sem rumo, com os pensamentos confusos, ora pendendo para um lado, ora para outro, pude encontrar forças pensar e refletir. Fazer aquilo que estava prestes a fazer não estava certo. Eis a verdade. Se meus pais soubesse, certamente me repreenderiam e talvez até me dariam uma boa sova. Era o que eu pensava. Além do mais, a ideia do pecado, dos olhos atentos de Deus – um Deus perverso, autoritário e que mantém seu rebanho unido sob o estalo do chicote – assustava-me. Só em pensar que o criador estava a todo instante nos vigiando me fazia sentir calafrios e medo, um medo terrível. Ah, como eu temia o castigo divino! Eu daria qualquer coisa, submeter-me-ia à qualquer sacrifício para que minha alma não sofresse os castigos do inferno. Nada, mas nada nesse mundo me aterrorizava tanto quanto a possibilidade de perecer eternamente nas profundezas do inferno. Toda a minha noção de dor e sofrimento estava sempre relacionada aos castigos divinos; castigos esses oriundos por não termos em vida seguido Seus ensinamentos. Ensinamentos esses muitas vezes confundidos com os ensinamentos de meus pais, já que estes eram de uma fé inabalável. E a certeza de cometer um pecado capital ao fazer sexo com Luciana – embora meu corpo desejasse isso cada segundo naquele momento, um desejo que ia contra a minha vontade – era o que não me deixava ir até o fim. E mesmo quando eu estava ali, rolando com ela na areia, ainda era capaz de me conter, de dizer não.
Dessa vez porém foi mais difícil. Talvez deveria ter-lhe dito que não queria seguir-lhe, que não queria fazer aquilo. Mas como poderia resistir diante daquele corpo nu, tão belo e maravilhoso feito uma ninfa? Não, não poderia. Um garoto naquela idade ainda é um garoto e na mais das vezes age simplesmente por puro instinto, pois a moral embora cresça em terreno fértil ainda não é forte o bastante para nos mantermos sempre curvados. Assim, deixei os instintos aflorarem com todo o seu explendor. Até porque eu não tinha forças para enfrentá-los.
E Luciana me puxando em direção à areia, dando passos suaves e ao mesmo tempo firmes, decididos me fez lembrar por um momento as ninfas que tanto me excitavam a imaginação. Aliás, quando olhei para o seu corpo nu, esqueci completamente de Ana Paula e Marcela. Dir-se-ia estarem naquela ilha apenas eu e Luciana. Aliás, eu me esqueci não só delas como também de Deus, meus pais e até mesmo de que estávamos presos e perdidos naquela ilha.
-- Vem cá – chamou ela, após se sentar na areia e pender levemente para trás como se fosse derrubada pelo vento.
Ainda fascinado e maravilhado por tudo aquilo, obedeci suas ordens. E mesmo que sua beleza não me fascinasse e sua voz não me encantasse feito o canto de uma sereia ainda sim obedeceria; pois eu me sentia um grão de areia, como a infinidade deles naquela ilha.
Em pouco tempo eu estava em sobre ela. Seus braços me envolviam e seus lábios, após procurar e encontrar os meus, beijavam-me. Meus quadris irrequietos tentavam se ligar ao dela, mas não conseguia. Ela se movia para lá e para cá tentando me ajudar. Entretanto a falta de jeito e a inexperiência de ambas as partes tornava as coisas mais complicadas.
O dia estava ensolarado e o sol queimava as minhas costas. Pela posição do sol devia ser mais ou menos duas horas da tarde. E o calor parecia me dissolver e transformar-me em água. Isso me causava um certo desconforto, contudo não desistia. Estava disposto a ir até o fim.
Acredito que se não fosse por uma influência externa, pelo soprar da brisa que fez com que chegasse aos meus ouvidos um som estranho, teríamos ido até o fim. Mas quando ouvi aquele som de galho se partindo, como se fora pisado por um pé descuidado, ergui a cabeça e feito um animal assustado perscrutei.
-- O que foi? -- perguntou Luciana, ao ver-me parar bruscamente, como que paralisado.
-- Psiu – fiz, levando o dedo aos lábios. -- Alguma coisa na floresta – respondi em seguida.
-- Não tô ouvindo nada – acrescentou. Seu tom de voz alterara-se; apresentava um ar irritadiço.
-- Parece que tem alguma coisa observando a gente – falei.
Luciana me empurrou para o lado e sentou-se contrafeita. Parecia muito frustrada e decepcionada. Por um momento tive a impressão de que ela fosse me esmurrar, como as mulheres fazem quando se sentem ofendidas. No entanto disse:
-- Você está ficando maluco! Como pode ter alguém observando a gente? Não tem mais ninguém nessa ilha além de nós e as meninas! Já percorremos a ilha toda. Não se lembra disso? -- Concordei com a cabeça. Ela fez uma pequena pausa e depois continuou: -- E quer saber de uma coisa? Você é um idiota! -- Levantou-se e foi em direção a água.
Eu não disse palavra. Apenas fitei ao se afastar. Aliás, olhava mais em direção à mata que em Luciana, embora a beleza de seu corpo, de suas nádegas balançando fosse um espetáculo dígino dos deuses.
Estava assustado, muitíssimo assustado. A lembrança do mesmo episódio há dois dias invadiu-me à memória feito um tsunami. Meu coração batia velozmente e meu corpo transpirava ainda mais, mais que antes e por motivos completamente diferente. Para ser sincero, faltou pouco para eu me borrar.
Eu não sabia se averiguava a causa daquele som estranho ou se corria em direção à Luciana. Aliás, pensei seriamente em fazer isso; mas me contive ao me aperceber de quão medroso pareceria aos seus olhos. “Não isso, não!”, pensei. “Se for aí é que ela vai fazer o que quiser de mim. É melhor esperar ela aqui. Não vou lá ver o que é isso. E se for algum monstro, alguma fera? E se for um fantasma? Já estou ficando com medo desse lugar. Espero que a gente saia logo daqui”, continuei pensando.
Aguardei.
Cerca de três minutos depois Luciana saiu da água e assim que atingiu a faixa de areia tornou a vestir a parte inferior do biquíni.
-- O que foi que você está olhando, seu frouxo? -- perguntou ela ainda aborrecida
-- Nada – respondi.
-- Frouxo, idiota -- continuou. – É isso mesmo! Você é um frouxo. E essa coisa que você tem aí – apontou – no meio das pernas não serve para nada, isso sim! -- Passou por mim e seguiu em direção à cabana.
Com medo, levantei e fui a seu encalço. No momento, não me arriscava a ficar sozinho ali por nada desse mundo.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

COISAS PARA AS QUAIS NÃO NASCEMOS















Não há respostas para minhas inquirições
O conhecimento ainda não chegou lá.
Talvez o problema esteja nas minhas indagações
As quais eu não soube formular.

Mas minhas perguntas são as de tanta gente
Que estão na mesma situação que eu
São pessoas até mais sábias e inteligentes
Cujo desejo de saber sempre floresceu

Por que a verdade tem suas razões
Para nos iludir quando tentamos buscá-la?
Por que não vemos que nossas convicções
São o que nos impede de alcançá-la?

Talvez a verdade seja apenas aparente
Uma ilusão que a experiência nos deu
Para que não nos percamos inutilmente
Com coisas para as quais não se nasceu.