segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

OBAMA PODE ENTRAR PARA A HISTÓRIA


Ao iniciar o segundo mandato como presidente dos EUA, Barack Obama fez história. Não tanto por ser o primeiro negro a ocupar o cargo mais importante do planeta pelo segundo mandato seguido, mas sim pelo discurso em favor da paz e da igualdade entre os homens, independentemente da cor, credo ou orientação sexual. E ao falar em espanhol mostrou sua preocupação com a questão dos imigrantes ilegais e disposto a mudar as leis para legalizá-los. Claro que seu discurso tinha um objetivo específico: agradar aqueles que de fato o elegeram – os hispânicos, os negros e todos aqueles que não suportam mais um país que vinha regredindo no tempo e exacerbando seu radicalismo cristão como forma de contrabalancear o radicalismo islâmico, o que não só não resolvia a questão como só fazia aumentar o antiamericanismo pelo mundo. Os EUA vinha aprofundando – e principalmente no governo Bush – a divisão social e caminhando para um abismo perigoso, cujo reflexo mais claro é a intransigência republicana que parece preferir o país num abismo a ceder na questão da reforma fiscal. Embora não tenha conseguido, Obama pelo menos deixou claro que fará de tudo para evitar o caus. No plano internacional, ao pregar o diálogo ao invés da guerra, estendeu, de certa forma, a mão aos inimigos. Se estes vão aceitar e preferir o diálogo à violência são outros quinhentos; mas que o mundo vai ver os EUA com mais simpatia e procurar o diálogo, ah isso vai. Talvez o problema mais difícil será a questão palestina. A comunidade internacional vem pressionando e os EUA terão de agir com muita firmeza para levar Israel a um acordo de paz. Até porque Israel vem radicalizando suas posições contra os palestinos e ampliando suas colônias na mesma proporção que os palestinos vem ganhando apoio. Os israelenses – exceção talvez de uma minoria – não querem a criação de um estado Palestino e farão de tudo para impedir. Só os EUA podem levar o governo israelense a ceder. Embora sejam parceiros e sempre estiveram unidos, Israel pode se tornar a maior dor de cabeça dos EUA nesse segundo mandato de Obama. E se conseguir fazer uma reforma a fim de acabar com o déficit fiscal e levar israelenses e palestinos à um acordo de paz, o negro e de origem muçulmana pode ser tornar um dos 3 maiores presidentes dos EUA. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 33

Sentamos para comer o pouco que restava de frutas. A pouca quantidade não saciaria nossa fome; no entanto, abrandaria aquela sensação desagradável no estômago e nos permitiria dormir. Aliás, procurei comer o mínimo possível para que sobrasse mais para as meninas. Pareciam mais famintas do que eu.
-- Aquele peixe estava gostoso – comentou Marcela.
-- E como! – concordou Luciana, compenetrada numa goiaba meio verde, meio madura.
-- Amanhã vou tentar pegar outro – falei. Estava agachado ao lado da fogueira observando-as com discrição. Luciana e Ana Paula pareciam acostumadas com a falta da parte superior do biquíni. Quanto a Marcela, seus seios ainda permaneciam cobertos, mas via-se um rasgo no lado esquerdo, deixando visível uma minúscula parte do branco seio. Era nesse ponto que furtivamente olhava nesse instante. -- Espero que seja mais fácil.
-- Vai ser sim – incentivou minha prima, lambendo os dedos.
Por um momento desviei os olhos e mirei em Luciana. Parecia mais interessada na goiaba ao que se passava a sua volta. Por isso voltei a desviar os olhos para Marcela. Afinal era por ela que meu coração batia e era nela que meus pensamentos chegavam. Reparei em suas coxas. Nisso, os pensamentos me empurraram para longe dali, para o momento em que nos beijamos durante a busca de gravetos para a fogueira. Imaginei-a no lugar da Luciana me possuindo. “Por que não ela, ao invés daquela safada da Luciana? Agora vai ficar tudo mais difícil. A Luciana não vai me deixar ficar as sós com ela. Vai fazer de tudo para impedir. Tô sentindo...”, pensei. Isso me entristeceu. Não era uma conclusão escapada ao acaso. Era a mais pura verdade. Nas ameaças que me fizera minutos antes estava intrínseco a ordem para esquecer aquele amor. Minhas esperanças agora residiam na saída daquela ilha. Na volta para casa, cessaria todo aquele poder que Luciana exercia sobre mim e então ela não poderia mais me controlar.
De repente tornei a olhar para Luciana. Agora seus olhos jaziam plantados em mim. Embora a claridade não fosse suficiente naquela noite sem lua, pude ver em seus olhos o tom ameaçador e um quê de ciúmes. Nisso, um calafrio percorreu-me a espinha, indo duma ponta a outra. “Meu deus! Será que ela teria coragem de fazer alguma coisa com a Marcela?”, pensei. Mas no mesmo instante tive vergonha de tal pensamento; e então procurei afastá-lo.
-- Já anoiteceu – exclamou Ana Paula, interrompendo o silêncio.
-- Tá na hora da gente deitar – falei, pondo-me de pé. -- Amanhã temos que dar uma melhorada nessa cabana.
-- Também acho – concordou Marcela. -- Tá horrível dormir sobre essas folhas.
-- É uma boa ideia – concordou Ana Paula.
-- Mas como? -- perguntei.
-- A gente finca quatro pedaços de pau, amarra quatro madeiras em volta deles, cobre com madeira mais fina e depois procura alguma coisa macia para pôr por cima. Aí vira uma cama – Explicou Marcela. Luciana permanecia em silêncio, observando como se aquela troca de opiniões não lhe dissesse respeito.
-- Só espero que fique melhor. Não aguento mais ficar dormindo em cima dessas folhas. Elas pinicam, dá coceira... – disse Marcela.
-- Ah, vai ficar – declarei.
De fato aquilo nem poderia ser chamado de cama, mas era o que consegui fazer até então. O capim e as folhas de bananeira precisavam realmente por algo melhor. A questão era encontrar alguma coisa para forrá-la e deixá-la macia. Ninguém se lembrava de ter visto algum arbusto capaz de servir a essa finalidade. E como ninguém havia pensando nisso, talvez o tal do arbusto até existisse e só passara despercebido nas nossas andanças pela ilha.
Fomos deitar e Marcela ficou tomando conta da fogueira.
Diferentemente das outras noites, nessa eu me sentia cansado, com uma falta de energia. Na região da barriga uma sensação desagradável me deixava ainda mais indisposto. Por isso, virei para o lado e procurei aproveitar o pouco tempo de sono antes de ser despertado pela Marcela para vigiar a fogueira. Adormeci em poucos minutos.
Fui despertado com sacudidelas e o som da voz de Marcela pedindo-me para levantar. Foi então que me dei conta de que sonhava. Sonhava com algum momento do passado. Não me recordo dos detalhes. Sei, entretanto, tratar-se de um domingo qualquer na casa de meus pais. Estava dormindo e minha mãe vinha até o quarto me acordar. Sua voz meiga e suave penetrava-me nos ouvidos e eu despertava com a luz do sol entrando pelas frestas. Mas quando acordei na realidade, não era a minha mãe quem me chamava e sim Marcela.
Levantei de má vontade. Mas era meu dever assumir o seu lugar. Era uma das poucas regras decidida em comum acordo entre nós quatro. Nenhum de nós deveria quebrá-la, por mais que isso nos desagradasse. E enquanto não encontrássemos uma forma de mantê-la acesa sem ter de abastecê-la amiúde, haveríamos de nos sacrificar. Mais valia algum sacrifício do que permanecer presos eternamente naquela ilha.
Marcela tomou o meu lugar entre a Luciana e minha prima e eu, sem ter o que fazer, deixei o infinito penetrar-me na alma, absorver aquele vazio provocado pela saudade dos meus entes queridos. Pensei na minha mãe, no quanto ela deveria estar sofrendo sem notícias; pensei no meu pai, nele consolando minha mãe, pois nessas horas os homens são mais fortes e sabem melhor ocultar a dor. E por um bom tempo me perdi nessas divagações. As lágrimas vieram e aliviaram-me a dor. Dir-se-ia escorrerem dos recantos mais profundos do coração, de onde toda aquela dor provinha.
As lágrimas secaram e a dor passou. Partiram quase ao mesmo tempo. E então os pensamentos tomaram outro rumo. As preocupações com o nosso dia a dia se tornaram inevitáveis. Era preciso encontrar um meio de não deixar que as coisas fugissem ao controle. Sentia que as coisas não andavam bem. A inimizade entre Ana Paula e Luciana era um dos sinais mais claros de uma deterioração rápida da nossa convivência naquela ilha. O tom ameaçador de Luciana dirigido a mim no final da tarde só me fazia mais pessimista. Aonde poderíamos chegar se não saíssemos logo daquela ilha? Essa foi a pergunta que me fiz.
Quanto à resposta, esta me causou arrepios. Vi-nos transformando num bando de selvagens, uns lutando contra os outros, sem saber ao certo o porquê. Vi aquela ilha se transformando numa arena de combates mortais, feito aquelas onde os romanos se divertiam à custa dos escravos que lutavam pela vida. Talvez os deuses acabassem por se divertir, rir até se estatelar com nossos combates por motivos fúteis, por egoísmo, ciúme, inveja e tudo de ruim no ser humano. E então vi Ana Paula toda machucada, vitima da brutalidade de Luciana. Essa imagem aliás acabou me levando a outra, onde Marcela também era brutalmente agredida por Luciana, motivado por um ciúme descontrolado. “Será que ela teria coragem de fazer uma coisa dessas?”, inquiri-me.
Nisso, lembrei da fogueira. O fogo havia abrandado e caso demorasse meia hora a abastecê-la, talvez se teria apagado. Acrescentei alguns galhos e então o fogo voltou a crescer, a iluminar o interior da cabana. Olhei para as meninas que dormiam tranquilamente, indiferente ao som das ondas. Ana Paula dormia de lado, em posição fetal, virada para o lado oposto à fogueira; Marcela, deitada no centro, jazia de bruços, com o rosto virado para minha prima. Olhei para suas nádegas e senti um diabinho a me cutucar, a dizer-me para me aproximar e observá-la de perto. Sacudi a cabeça para afastar esses pensamentos como se a sacudisse para espantar um mosquito. Assim, desviei os olhos para o lado e estes foram dar em Luciana, que dormia de costas, com o rosto virado para o lado da fogueira.
A posição me fez lembrar da manhã anterior, de nós dois deitados na areia. Olhei para seus seios e a imagem deles, rijos, entre meus dedos, dos meus lábios a acariciá-los me fizeram cair em completo estado de absorção. Dir-se-ia ter-me transportado por uma máquina do tempo para o passado, mais exatamente para aquela manhã. E, numa sensação quase real, como se os pensamentos se materializassem e me confundisse, eu me vi enroscado em seu corpo. Seus olhos pareciam desesperados, suplicando para que dessa vez não parasse no meio do caminho.
Não obstante, parei. Eram apenas pensamentos e pensamentos moldam as imagens ao gosto da ocasião. Podemos completar uma sequência interrompida, desviar o curso dos acontecimentos, inserir passagens onde estas não existiam. Essa é a grande vantagem de nossos pensamentos. Aquilo que por um motivo ou outro não pode ser realizado, os pensamentos se encarregam de realizar. Os pensamentos tanto servem para procurar respostas para nossas indagações, para tornar o nosso mundo real suportável quanto para criar um mundo só nosso, com o que há de bom e ruim dentro de nós, um mundo onde tudo é possível, tudo é permitido.
Mas os pensamentos não podem tudo. Não podem, por exemplo, fazer de conta que um fato ocorrido não aconteceu. Se aconteceu, está acontecido e pronto! As consequências deixam marcas inapagáveis por toda a vida. Ou não pensamos no ocorrido, ou convivemos com aquilo, seja ele bom ou ruim.
E como não lembrar daquele barulho vindo do mato, que me fez interromper um ato de intenso deleite? Teria sido um sinal de Deus? “Quem sabe ele fez isso para a gente não ir longe demais”, cogitei. Talvez Deus não tivesse nada com isso e nem com tudo que acontecia no mundo. Talvez Ele tivesse há muito tempo virado as costas para o homem, por sua ingratidão, por termos muitas vezes agidos feito Ele. Talvez Ele estivesse lá, sentado no seu magnífico trono no paraíso, assistindo a grande comédia humana. Todavia, como eu poderia saber das coisas de Deus? Eu era tão somente um garoto, um rapazinho oriundo de uma família de católicos fervorosos. O leitor há de se lembrar disso. E eu não poderia abandonar esse passado de um momento para outro. Embora possa parecer ao leitor mais instruído, mais esclarecido e menos religioso de hoje um absurdo, uma inocência beirando a idiotice, a verdade é que o medo que a religião me impunha não se tratava de um desvario. Era tudo consequência natural de minha educação. Fui criado assim, fazer o quê. E até chegar àquela ilha, não me lembrava de sentir o peso da fé.
Por isso tive vergonha dos meus pensamentos, dos meus impulsos que agora vinham à tona sem que eu estivesse preparado para lidar com eles. E a lembrança daquele som horas antes ficou como sendo uma prova material da existência do criador, de como ele nos espreitava o tempo todo. Ele se manifestara para que eu soubesse que estava fazendo coisas erradas. Por isso, antes de acordar a Ana Paula para assumir o meu lugar, prometi a mim mesmo não permitir que Luciana me dominasse e me obrigasse a fazer o que não era correto. Se me deixasse dominar, a desarmonia seria inevitável e as consequências imprevisíveis.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

MAR REVLTO E CHEIO DE DESAFIOS

















As sensações que nos fazem o corpo vibrar
E a alma alegrar-se é o que buscamos constantemente
Entre as alegrias e as tristezas das quais não podemos furtar
Pois a vida é uma dicotomia inconstante.

Mas não são justamente esses momentos
Que fazem-na um mistério e um desafio?
Não é uma esperança, um querer, um pensamento,
Um prazer e uma dor que nos abundam feito um rio?

Sem as sensações, as quais nos leva a experimentar
De tudo, a vida não teria sentido. Viver seria tão entediante
Que a morte seria preferível. Mas ao podermos desejar
E quiçá alcançar o prazer torna a vida interessante.

Então? Por que negar esse fato? É sem cabimento
Uma vida só regrada à razão. Seria um eterno vazio.
As sensações são irracionais e aguçam os sentimentos
Tornando a vida um mar revolto e cheio de desafios

sábado, 8 de dezembro de 2012

UMA AFRONTA À CONSTITUIÇÃO

Durante o julgamento da AP470 (conhecida como “Mensalão”) muitos apoiaram o ministro Joaquim Barbosa e criticaram veementemente o ministro revisor Ricardo Lewandovski por propor penas mais brandas ou até mesmo a absorvição de alguns réus por falta de provas claras e contundentes, pois muitas vezes a acusação consistia em depoimentos de outros réus. No entanto, ao final do julgamento, os ministro precisam decidir o que fazer com os condenados que exercem mandatos, como é o caso de João Paulo Cunha, Valdemar da Costa Neto e Pedro Henry. Joaquim Barbosa quer que o STF cace o mandato destes parlamentares imediatamente, passando por cima do poder Legislativo que tem o poder de fato de fazê-lo. Por outro lado, Lewandovski insiste que é o Congresso quem deve caçar o mandato de seus parlamentares como rege a Constituição. Embora cada um tenha lá seus argumentos não resta dúvida de que Joaquim Barbosa, num desrespeito à Constituição, quer criar um precedente perigoso que afronta não só a independência entre poderes como a própria democracia. Pois, ao criar um precedente, nada impede que este mesmo STF venha no futuro caçar por um motivo qualquer não só o mandato de parlamentares como dos governadores e do próprio Presidente da República, coisa que só pode ser feita pelo poder legislativo. Joaquim Barbosa só poderia usar esse argumento caso a Câmara dos Deputados se negasse a caçar os mandatos dos parlamentares, o que não é o caso, pois esta ainda não se pronunciou. Portanto apoiar Joaquim Barbosa nesse caso é um desrespeito à Democracia. Quem deve caçar -- e de fato deve, pois estaria por sua vez afrontando o Poder judiciário -- é o Parlamento. Por falar no ministro Lewandovski, ele disponibilizou a íntegra de seu voto para quem interessar nesse link: http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/AP470mandatoRL.pdf

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

FARDO LEVE


Só um leitor de Nietzsche seria capaz de escrever versos como estes. Embora não tenham sido inspirados em nenhuma obra específica do pensador alemão, é inegável a influência de seu pensamento. Este poema foi escrito em 2008 quando “Aurora”, “A Gaia Ciência” e “Além do Bem e do Mal” me acompanhavam para todo lugar.

Não é a vida
Que é dura demais
São as nossas idas e vindas
Que nos fazem andar para trás

Às vezes, corremos em círculo
Atrás de ninharias
Por causa de desejos minúsculos
Fazendo da vida uma porcaria

Não é a vida
Que nos é injusta
São nossas ações
Que a ela não se ajustam

Às vezes, tentamos satisfazer
Os desejos mais banais
E esquecemos que viver
Exige sacrifícios reais

Não é a vida
Que é um fardo pesado
É o excesso de ninharias
Que temos carregado

Deixe esse peso para trás
E leve só o que te serve
E então verás
Que a vida é um fardo leve

terça-feira, 6 de novembro de 2012

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 32

A noite caiu rápido. E antes que ficasse escuro de vez, Marcela e Luciana foram recolher mais galhos para manter a fogueira acesa. Eu fiquei na cabana em companhia de Ana Paula, com a desculpa de que alguém precisava tomar conta do fogo para que este não apagasse.
-- O que aconteceu lá em cima? -- quis saber minha prima.
-- Por quê? -- perguntei surpreso.
-- Você chegou meio estranho.
-- Estranho como?
Apanhei um graveto e comecei a mexer no fogo tentando ocultar o embaraço que aquela pergunta me causava. “Será que estou mesmo?”, cheguei a perguntar-me. Ana Paula por sua vez mantinha-se próxima, quase a meu lado, sentada sobre a areia com as pernas cruzadas.
-- Aquela vadia não para de olhar para você. E você não olhou para ela uma única vez. Parece que está com medo de olhar para ela – observou. Eu poderia imaginar que Luciana não tirava os olhos de mim. No entanto, Ana Paula estava certa. Estava envergonhado demais para poder encará-la. Embora Luciana tenha encarado tudo com naturalidade, para mim não era tão simples assim. Era como se eu tivesse acabado de cometer um crime. -- O que ela te fez?
-- Nada.
-- Vocês não andaram...
-- Andaram o quê? – atalhei.
-- Nada. Deixa pra lá – disse ela, levantando-se e caminhando em direção à praia. -- Vou tomar um banho. Estou toda suja de areia.
Senti um certo alívio quando ela me deixou as sós. Imediatamente pensei: “Se ela desconfiou da gente então a Marcela também deve ter percebido. Ela sabe o que a gente fez. Ah, meu deus! E agora? E se a Luciana fala alguma coisa pra ela? Ela nunca mais vai querer saber de mim. Vai me odiar. Também por que fui deixar a Luciana fazer aquilo? Não tinha que ter dados ouvidos para ela. Ela conseguiu o queria. Só falta agora não me deixar mais em paz. Vi como ela gostou...”.
Momentos depois as duas retornaram. Cada uma trazia um feixe de galhos secos. Conversavam alegremente e nada me levava a crer que Luciana contara sobre nós. E quando Marcela me depositou seu olhar, este parecia natural, tranquilo, igual ao último que me dera cerca de meia hora antes.
-- Cadê a Ana Paula? -- perguntou, com um ar de indiferença.
-- Disse que ia se lavar.
Luciana jogou a lenha ao chão, próximo à fogueira que ardia branda, meio que querendo apagar por falta do que queimar; Marcela pegou seu feixe de gravetos e os atirou no mesmo lugar, amontoando-os.
-- Vou ver se acho ela – disse em seguida. E saiu.
As sós com Luciana, só então tive coragem de olhar nos seus olhos. Ela me encarou com um sorriso extrovertido, beirando uma gargalhada e indagou:
-- O que foi? Ainda está envergonhadinho?
Desconsertado, respondi:
-- Não. Não estou. Só fiquei com medo de você contar para a Marcela.
-- Por quê? Ela não pode saber? -- volveu ela, aproximando-se de mim.
-- Não, melhor não.
Dei dois passos para trás até encontrar uma das quatro colunas de sustentação da cabana. Luciana achegou-se e por cima da roupa, pegando em minha genitália, sussurrou-me ao pé do ouvido:
-- Agora isso aqui é só meu. Se eu souber que você andou se deitando com uma das duas você vai ver o que vou fazer com elas.
Era a primeira vez que a via fazer ameaças. E pelo tom de voz, pela pressão de seus dedos, suas ameaças soavam sérias. E isso me deixou assustado; mais assustado do que ficara ao ouvir aquele som vindo da floresta dois dias atrás.
Ciúmes? Estaria Luciana com ciúmes das outras duas? Ou apenas queria manter o controle sobre mim? Pois ela sabia que eu estava em suas mãos e que a obedeceria sem muito protestar. E sem saber como reagir, com sair daquela situação embaraçosa, apenas assenti:
-- Tá bom.
Houve um breve silêncio.
Nisso, Luciana se afastou e foi até a porta ver se Ana Paula e Marcela retornavam. Contudo, ouvia-se as vozes ao longe. Provavelmente ainda estavam se banhando. Não era possível vê-las àquela distância, pois anoitecera. Uma nuvem escura cobria a lua deixando ainda menor o nosso ângulo de visão.
Em seguida, voltou a se aproximar de mim, abraçou-me e beijou-se, como se eu fosse seu namorado. Tentei esquivar, mas ela me abraçava com força, como se quisesse deixar bem claro que poderia fazer comigo o que bem quisesse.
-- Você agora só sai por aí comigo – disse depois de me lagar.
Eu não disse palavra. Apenas me afastei e agachei próximo à fogueira para colocar um pouco mais de lenha para manter o fogo aceso. Nisso, ouvi a risada próxima de Ana Paula. No mínimo estavam falando algo engraçado.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

LEMBRANÇAS DE UM AMOR PERDIDO

Os versos abaixo foram escritos há muitos anos, bem depois porém dos momentos relembrados neste poema. Foi um desses momentos da juventude, quando a descoberta do amor vem acompanhada de muitas outras descobertas. E embora o tempo muitas vezes se encarrega de apagar nossas lembranças, algumas por um motivo ou outro parecem não sofrer a ação do tempo e permanecem vivas, como essa:


Ó, minha inesquecível e eterna amada!
Como poderia esquecer aquela madrugada,
Depois do bar, na escadaria do edifício
Em que de babá você exercia o ofício!

Ainda tenho gravado em minha memória
Todos os detalhes, todas as palavras ditas,
Todos os beijos roubados e aqueles pedidos,
E tudo o que contastes sobre tua história!

Ainda tenho aprisionado na lembrança
De teus jovens seios os mínimos detalhes:
A cor, a textura, a altura, e até a diferença
Na rigidez, após as carícias excitá-los.

Ainda vejo, como se fosse hoje,
O teu excitamento, o desejo de se entregar,
A vontade se ser minha, e a minha de te amar...
“Por que não prosseguimos?”, indago-me ainda hoje.

Mas deixamos aquele momento único passar
Na esperança de que em breve se encontrar
Para nossos corpos se unir uma única vez...
Porém, o destino nos separou e perdemos a vez...