quarta-feira, 14 de março de 2012

OS NIILISTAS ALIENADOS


Um diz que o homem atual é um alienado (Marx) e o outro que ele vive num Niilismo (Nietzsche). Embora cada um tenha lá seus argumentos e seus pontos de vista, tenho de concordar que estão certos. A impressão que tenho é de que as pessoas, mergulhadas numa modernidade onde a informação pipoca aos quatro ventos, não conseguem lidar com elas e se sentem impotentes diante do conhecimento. Claro que muita gente esbarra nas próprias convicções e naquilo que lhe foi ensinado pelos pais e por todos que o cercam desde os primeiros anos de vida. Mas por que não questionar a mais inquestionável das convicções, mesmo que seja para afirmar a própria convicção? E uma das questões que as pessoas resistem em questionar é justamente a religião e a crença em Deus. Como um bom ateu, não quero destruir a crença de ninguém (só os fundamentalistas tentam te convencer a acreditar naquilo que acreditam). Mas há alguns fatos difíceis de ignorar. Como este: Que as religiões vivam do sofrimento, da doença, como afirmou Nietzsche acerca do cristianismo ao dizer que "o cristianismo tem por base o rancor dos doentes, o instinto voltado contra os sadios, contra a saúde", e da miséria, como afirmou Marx ao declarar que a “a religião é o ópio do povo”, do ser humano, com algumas raras exceções, eu não tenho dúvida; pois sem isso as religiões já teriam sido varridas da face da terra há centenas de anos. Mas o que eu não conformo é ver pessoas ditas “inteligentes” e com um grau de conhecimento satisfatório acreditar num Deus rancoroso, vingativo e ciumento que precisa ser louvado o tempo todo, de um lado; e por outro, um deus que está disposto a satisfazer os nossos mais insignificantes e absurdos desejos. Ou essas pessoas se fazem de idiotas ou são tomadas pela mais absurda ingenuidade. Num ou noutro caso elas não devem ser levas muito a sério. Citando Nietzsche mais uma vez, eu pergunto: Será que as pessoas não se dão conta de que "O Homem, em seu orgulho, criou a Deus a sua imagem e semelhança"?

terça-feira, 6 de março de 2012

A OPÇÃO PELO PINGUIM

Embora tenha dado aulas de informática por anos e nesse período tenha ensinado Windows, há 4 anos que não o uso, exceto talvez uma vez ou outra no computador de algum conhecido. Desde que tomei contato com o Linux por volta do ano 2000 percebi que havia algo no sistema do pinguim (como o Linux é conhecido) que não havia no Windows: a segurança e a estabilidade (naquela época o Windows ainda era bastante instável). Aliás, ficava muito puto da vida quando o computador pegava vírus e era preciso formatar o computador, pois muitas vezes o vírus não podia ser removido por um antivírus. Outras vezes porém o maldito vírus havia danificado os meus dados, os quais muitas vezes não podiam ser recuperados, e então dava vontade de quebrar o computador. E quem já não passou por isso? 
 Claro que naquela época o Linux não era como hoje – mais fácil de instalar e usar do que o próprio Windows --, mas com algum esforço e graças a internet acabei aprendendo a instalá-lo, configurá-lo para que tudo no computador funcionasse e a usá-lo, já que para alguém acostumado com o sistema da Microsoft como eu o Linux era bastante estranho. Aos poucos porém, vi que a maioria das tarefas que eu fazia no Windows era possível fazer no Linux. E então gradualmente a troca de um pelo outro foi ocorrendo. Por volta de 2007 o Linux já havia evoluído tanto a ponto de se tornar tão fácil de usar quanto Windows XP. Não tive dúvida em abandonar quase que de vez o Windows. 
 Já havia trocado o pacote Office da Microsoft pelo OpenOffice e aos poucos troquei o PhotoShop pelo Gimp, o Corel pelo Inkscape e finalmente o PageMaker pelo Scribus. Na realidade, os três últimos eram usados com pouca frequência, só para fazer cartões de visita, convites e cartazes. Confesso que tive certa dificuldade em fazer as mesmas coisas que fazia nos aplicativos para Windows. A substituição mais difícil foi a do CorelDraw pelo Inkscape. Este não havia atingido no nível que tem hoje e muita coisa que fazia no Corel não era possível fazer no Inkscape. Hoje porém isso são águas passadas e tanto o Inkscape quanto o Gimp e o Scribus atingiram um nível de maturidade e possuem uma gama de recursos que não deixam a desejar em nada aos similares para Windows. Aliás, existem versões desses programas para Windows. Sem contar que são gratuitos e você não corre o risco de ser acusado de estar usando um programa pirata. 
 Hoje eu mudei de profissão. Uso quase que exclusivamente o pacote para escritório LibreOffice (um derivado do OpenOffice) e a internet. Claro que assisto vídeos, ouço música e rádios online, mas isso qualquer sistema faz. Não posso afirmar que jamais usarei o Windows, mas não tenho a menor intenção de instalá-lo nos meus computadores. Os notebooks das minhas filhas tem o Linux e o Windows instalados lado a lado (não é preciso tirar o Windows para instalar o Linux. Ao ligar o computador você opta por um ou outro), mas ainda sim elas preferem o Linux pois dizem que é mais rápido (provavelmente o antivírus seja a causa da lentidão no Windows. Lembro como isso me irritava na época). E como o Linux possui uma infinidade de variantes (chamadas de distribuições) uma das filhas prefere o Linux Mint enquanto a outra (e eu também) o Mandriva. 
 Independentemente do uso que se faça do computador, só o fato de saber que não há perigo de vírus e de ter as senhas e os dados roubados já é o bastante para optar pelo Linux. Aliás, este foi um dos motivos pelos quais a maioria das empresas fizeram a troca. Então por que não faça o mesmo você também?

ABAIXO UMA IMAGEM DO DO LINUX MINT E MANDRIVA. PARA MELHOR VISUALIZÁ-LAS, CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR.






domingo, 26 de fevereiro de 2012

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 24

-- Hoje também vai fazer um calor daqueles – comentei pouco depois, quando nos aproximávamos do pequeno vão de água doce. De fato estava muito quente e não haviam nuvens no céu.
-- É verdade! Tá muito calor – concordou Marcela, caminhando ao meu lado.
-- Sabe o que vou fazer mais tarde?
-- Não. O quê?
-- Pescar. Vou tentar pegar uns peixes – contei. – Já estou ficando enjoado de tanto comer frutas. Estou até emagrecendo. – Puxei a borda da sunga para mostrar-lhe o quanto estava folgada. Aliás, isso se devia mais a uma perda de elasticidade daquela peça do que a perda de peso. Claro que, depois de quatro dias naquela ilha alimentando-se de frutas e comendo pouco, uma pequena perda de peso era inevitável, mas nada parecido com o que eu fazia acreditar.
-- E como você vai fazer? – quis ela saber.
-- Vou pegar uma vara comprida, fazer uma ponta nela e mirar bem no peixe. Aí eu atiro ela. Se acertar, a vara vai fincar nele e o peixe vai ficar preso – expliquei, fazendo gestos com a mão para que ele fizesse uma ideia melhor.
-- Será que vai dar certo? – tornou ela.
-- Não sei. Acho que sim – respondi com insegurança. “Tem que dar certo. Não podemos ficar comendo fruta a vida toda. Não sei quanto tempo ainda vamos ficar aqui. E se não der certo, vou ter que encontrar outro jeito”, pensei.
À frente, avistei as bananeiras. Eram vários pés – cerca de vinte --, onde cachos verdes e amarelos descaiam, produzindo uma visão bela, capaz de aguçar ainda mais o nosso apetite. A maioria dos cachos jazia verde. Alguns inclusive novos e pequenos, outros entretanto começavam a madurar. Agora, maduros, aptos para serem comidos, eram somente dois. Um deles aliás comido por pássaros. Podia-se ver uma ou outra banana – as mais amarelas – com um buraco.
-- A gente podia era apanhar logo essas bananas que estão maduras – sugeri –, antes que os passarinhos comam o resto.
-- Você acha?
-- Com certeza. Ainda mais que não tem muitas assim tão maduras. Se a gente deixar elas aí, vamos acabar ficando sem o que comer – expliquei, aproximando de uma das bananeiras.
-- Depois a gente podia era apanhar aquelas ali. – Apontou para um cacho em que as bananas começavam a madurar, a adquirir um tom verde-amarelo. – Assim elas maduravam mais rápido.
-- É mesmo. Não havia pensando nisso.
-- Qualquer coisa a gente volta mais tarde e apanha elas, porque agora não vai dar para levar tudo – disse Marcela, olhando para cima, para o cacho que deveríamos cortar.
-- Vamos fazer isso, sim – concordei. – Mas agora, venha me ajudar a colher estas. Você sobe ou eu? – perguntei.
Para alcançar o cacho de bananas um de nós teria de suspender o outro. Na maioria das vezes, eu apoiava e uma das meninas subia, pois eram mais leves e, se eu subisse, não conseguiam me sustentar por muito tempo, uma vez que as mulheres têm uma força física menor que os homens.
-- Eu subo – respondeu.
-- Toma. Leva ela para você cortar, caso precise. – Entreguei-lhe a lasca de pedra, a qual era usada como faca.
Prendi uma mão na outra, firmei-as bastante. Marcela segurou em meu ombro e deu um impulso.
Enquanto ela se espichava ao máximo para alcançar o cacho de bananas, meus olhos percorreram seu corpo feito um scanner. Seus quadris estavam colados em meu rosto. E foi justamente nesse ponto – mais precisamente no meio das pernas dela – que olhei com mais atenção, como se o que houvesse ali fosse a síntese de todo o fascínio que exercia sobre mim. E afetado, por sentir aquela parte do corpo dela tão próxima, não pude deixar de pensar: “Se minhas mãos não estivessem ocupadas agora, ia acariciar as pernas e a bunda dela. Dá até pra ver direitinho a coisa dela. Parece que é gordinha. Ah, meu deus! Eu quero ela pra mim. Quero pegar nela, ver como ela é. Quero enfiar meu pinto nela. Pinto!? Ele já até cresceu. Ih! Merda! Quando ela descer, ela vai ver. Sentir ele grande. O que faço agora? Será que vai me perguntar porque ele está assim? Não, não vai ter coragem. Mas e se tiver? E o que eu vou responder?”
-- E o que eu faço com essas bananas? – perguntou ela, tirando-me de meus devaneios.
-- O quê!? – Olhei para cima. Ela me fitava com ar de mistério, como se tivesse pensando em algo. – Joga no chão. Depois a gente cata.
Foi o que fez até apanhar todas as bananas que estavam maduras.
-- Pronto. Pode me descer agora.
-- Ora. É só dar um pulo – falei. Foi o que me ocorreu para que ela não deslizasse pelo meu corpo e me visse naquele estado, embora desejasse ardentemente que sentir seu corpo deslizando pelo meu.
-- Não. Posso me machucar – retorquiu ela. – Vou me segurar nos seus ombros e descendo devagar.
Marcela firmou e deixou seu corpo escorregar, roçando no meu. Enquanto seu corpo deslizava, fui arrastado pelo turbilhão de sensações. Sensações essas que me levaram a pensar: “Será que ela está fazendo isso de propósito? Para me provocar? É bem capaz. E esses peitos passando na minha cara? Isso me enlouquece. Será que ela não vê? Que vontade de agarrar eles. Desse jeito eu não vou aguentar. Sei que não posso, que é pecado, mas não tô aguentando...”. Em seguida, assim que ela desceu, nossos olhos se cruzaram. Ela esboçou um sorriso com certo ar de malícia, e então eu lhe retribuí o sorriso. Nisso, pensei: “Será que ela me dá um beijo? A gente está sozinho aqui. Não tem porque ela ter vergonha. Acho que ela não vai negar. E ela está tão bonita. Mais linda a cada vez que olho para ela. Vou tentar”. Mas antes que abrisse a boca, ela se abaixou e começou a cantar as bananas no chão.
Abaixei também e ajudei-lhe a recolher as frutas. Enquanto fazia isso, discretamente, levantei os olhos e mirei-os em seus seios. Devido à força da gravidade e a posição do corpo dela – eles estavam dependurados --, pareciam maiores, mais belos e chamativos. “Que lindo! Deliciosos. Dá vontade de apertar, de meter a boca neles”, disse pra mim mesmo.
Só não os fitei mais porque em dado momento ela levantou a cabeça e me surpreendeu. Tornei-me rubro de vergonha e desviei o olhar no mesmo instante. E quando tornei a olhar para ela, Marcela fazia o mesmo que eu fizera antes: olhava-me na região dos quadris,com olhares perscrutantes. Aliás, isso me levou a acreditar que ela não fosse tão inocente quanto eu pensara.
“Que vergonha! Agora ela sabe por que estou assim. Pior que não tem jeito de esconder. Ela vai saber que é por causa dos peitos dela. O que faço? Será o que ela está pensando?”, inquiri-me naquele momento.
Havíamos acabado de catar as bananas. Não eram muitas, mas estávamos com as mãos cheias.
-- Vamos! – disse ela, chamando-me para retornar.
Começamos a pegar o caminho de volta. Logo atingimos a faixa de areia.
-- Você está linda, sabia? – falei.
-- Que nada! Estou toda descabelada – disse ela olhando-me nos olhos. Caminhávamos lado a lado, quase colados um no noutro, como se ambos fizesse um tipo de esforço para ficar o mais próximo possível do outro.
-- É verdade, gata! – repliquei. – Posso te pedir uma coisa?
Paramos.
-- O quê? – Pude ver um ar de timidez e curiosidade na sua maneira de inquirir.
-- Posso te dar um beijo? – perguntei. A frase por pouco ficou entalada na garganta. Meu coração palpitava, minhas mãos quase tremiam e uma sensação estranha, inexplicável se apoderava de mim. Meus instintos, sejam eles quais forem, pareciam travar uma luta sem trégua e me levar ao desespero.
Marcela titubeou por alguns instantes. Tive a sensação de que ela fazia ponderações antes de tomar a decisão e me comunicar, talvez com medo de dar um passo mais largo que as pernas. Depois de um minuto -- tempo esse que pareceu uma eternidade -- ela respondeu com afetação, como se estivesse insegura:
-- Pode.
Dei três passos e depositei o punhado de bananas e a “faca” sobre a grama.
-- Vem cá. Põe elas aqui também – falei.
Marcela me obedeceu.
Tomei-a nos braços.
Ainda era um garoto e não tinha jeito com as mulheres, não sabia como abraçá-la feito um homem experiente que ao tomar a mulher nos braços deixa-a a sua mercê; no entanto, isso não fez muita diferença. Ela também não sabia, não tinha experiência. Assim, como saberíamos se estávamos fazendo a coisa certa?
O importante não era a forma, mas sim as sensações que aquilo provocava em nós dois. Afinal de contas tudo era novidade, embora não fosse a primeira vez. Agora a coisa era diferente: não havia mais a sensação de medo e insegurança tão comum na primeira vez e a qual não nos deixa aproveitar toda a beleza e a magia do momento. Agora, aquelas sensações seriam experimentadas de forma mais intensa, com um deleite maior, onde cada um dos “eus” em cada um de nós experimentaria o sabor do prazer.
Mas eu queria mais; e também ela parecia querer mais, ir além do que fomos da última vez. A questão era que eu sentia um quê de receio, um temor de dar um passo em falso, cair e pôr tudo a perder. Sabia que Marcela não era Luciana. A Luciana me provocava por brincadeira, curiosidade, perversidade e para mostrar seu poder, mas Marcela não, ela não era esse tipo de pessoa. Não era extrovertida assim. Era tímida, embora quando estava as sós comigo parecesse mais solta, e sentimentalista. Qualquer forma de envolvimento entre nós dois ia além do jogo erótico e da busca por prazer sexual. Na verdade, ela tinha todos os traços dessas adolescentes sonhadores que acham que o amor é puro e está acima de tudo, quando na verdade o amor não passa de uma combinação de sensações prazerosas provocadas pelos nossos instintos, onde os instintos sexuais são os que mais contribuem com essas sensações.
Enquanto nos beijávamos senti uma necessidade incontrolável de tocar-lhe nos seios. Ela tinha se negado da última vez, mas quem sabe dessa ela deixava? “Quero apertar eles, quero ver como eles são”, pensei. Assim, lentamente minha mão foi escorregando de seus quadris e subindo lento, lento até tocar o pedaço de pano que os envolvia. Titubeei por alguns segundos, mas continuei.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

SOB O JULGO DOS INSTINTOS


Há muitas maneiras de encarar a vida. Cada pensador, cada corrente filosófica procura explicá-la de uma maneira. Ao longo dos tempos porém o corpo passou de exaltação à vida na antiguidade grega para o mais terrível dos pecados na idade média. Com a modernidade o corpo voltou a ser valorizado, principalmente depois de Nietzsche e Freud e da crítica à divisão do mundo entre sensível e inteligível. Até mesmo o conceito de “eu” e “livre arbítrio” está sob o julgo da dúvida. Tudo isso está levando não só à valorização do corpo como a dos instintos, os quais são considerados a chave para explicar não só nossas ações como também tudo aquilo a que chamamos de vida. Os versos abaixo exaltam exaltam exatamente o que há de mais humano no ser humano: os instintos.


Ao mergulhar no oceano das sensações
Os instintos dizem sim ao prazer
E a nudez provocando-me mil visões
Desnuda até o que não dá para ver.

A volúpia induz-me a tal peça arrancar
Feito um animal selvagem que estraçalha
Sua presa. E então me ponho a salivar
Tal qual o líder de uma matilha.

Salto sobre o corpo, onde as secreções
Fazem-me a fome e a sede desaparecer
E ao me atirar às mais profundas emoções
Exalto a vida com todo o seu poder.

Os corpos travam uma luta sem parar
Em busca de mais prazer. E essa batalha
Cujo orgasmo é o objetivo a alcançar
Diz que o prazer é a única coisa que valha

domingo, 12 de fevereiro de 2012

EU CANTO O AMOR






















Eu canto o amor
Porque o amor é vida 
E vida sem amor
É uma vida sem vida.

Eu canto a paixão
Porque a paixão é realidade
E realidade sem paixão
É uma falsa realidade. 

Eu canto o prazer
Porque o prazer é vida
E vida sem prazer
É uma vida perdida.

Eu canto tudo que é intenso
Porque o intenso é humano
E o ser que não é intenso
É puro desengano.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

POR VOCÊ EXISTIR

Os versos abaixo ocorreram-me ao acaso. Estava diante do computador me preparando para escrever um artigo e então começou a tocar True do grupo Spandau Ballet. Não sei por quais motivos esta belíssima canção acabou me levando a escrever tais versos. Pensei em revisá-los e dar uma polida no poema, mas foi tão espontâneo que resolvi deixá-lo da forma que me ocorreu. E é assim que o compartilho com vocês, meus leitores.


Sou tão grato a ti
Por você existir
Pois sei que vivo enfim

Teu rosto não me cansa
De olhá-lo tanto assim
Dias e dias sem fim

E só deixo de fitá-lo
Quando perversamente
Você o afasta de mim.

Mas à noite quando
Repouso a cabeça no leito
Tua imagem me faz adormecer

E os sonhos que tenho
Noites e noites a fio
Preenchem-me o sono

Isto só pode ser o amor
Que me faz agir assim
Feito um abobado

Talvez eu seja um rapaz
Um tanto desajustado.
Ou um homem apaixonado?

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 23

Luciana me fitou de cima abaixo com um olhar atento, como se quisesse atentar a cada detalhe. Assim, meu excitamento não lhe passou despercebido.
-- Nossa! Ele ainda está assim? – disse, deixando escapar um sorriso indefinido, pouco antes da água encobri-lo.
“Pronto! Só falta ela descobrir que estou assim por causa da Ana Paula. Não. Ela não pode desconfiar. Também. Por que você não fica pequeno logo? Por que que tem que ficar duro desse jeito?”, pensei, tornando-me ainda mais envergonhado. Procurei dar mais alguns passos para ocultar aquela alteração em meu corpo.
-- Tá. Mas já está ficando quieto – respondi com indiferença.
Nisso. Luciana se aproximou e parou a minha frente.
A água nos cobria pela cintura. De quando em quando uma onda vinha e então nos cobria até o pescoço, mas quando passava, a maré abaixava e então deixava nossos quadris descobertos.
-- Deixa eu ver como ele está – pediu ela. Aliás, ela não pediu. Foi como se me desse uma ordem, se me mandasse abaixar a sunga. Mas não cheguei a fazer isso, pois ela não me deu tempo. Simplesmente levou a mão à peça de roupa que me cobria as partes pudicas e a empurrou para baixo o suficiente para expor meu branco falo ereto.
“O que ela quer? O que ela vai fazer comigo? Ela não está pensando em fazer aquilo...”
-- Que bonitinho ele assim dentro d’água – exclamou ela, pegando-o delicadamente com as pontas dos dedos. Em seguida empurrou o prepúcio e fez a glande soltar para fora.
-- Pare! – pedi, dando um passo para trás e recolocando a sunga no lugar. – Aqui não. Senão elas podem ver. Outra hora eu deixo.
-- Eu só queria ver como ele estava – acrescentou ela insatisfeita.
Não dei importância. Dei um mergulho e em seguida fui saindo.
Embora a deixara para trás, ela me acompanhou à distância. E antes de chegar à cabana gritou:
-- Estou morrendo de fome. Não é melhor a gente procurar alguma coisa para comer?
-- É. Eu também estou com fome – respondi. -- Vou ver com as meninas se querem ir pegar alguma coisa – acrescentei. “É melhor eu levar a Marcela ou a Ana Paula comigo. Não vou deixar as duas sozinhas por enquanto. Nossa! Minha barriga está até doendo de fome. Senão a Ana Paula pode contar alguma coisa”, pensei enquanto entrava na cabana. Olhei para as duas. Estavam conversando. No entanto, quando me viram, silenciaram-se. Ao perceber isso, senti um calafrio percorrer-me o corpo. “Será que Ana Paula estava contando para ela? Ah, mas se ela contou, vou dar nela”, pensei sentindo a raiva me dominar. Assim, fitei-as nos olhos. “Não. A cara delas não parece. Talvez elas estivessem falando de outra coisa. É melhor perguntar alguma coisa”.– Ta tudo bem com vocês?
-- Tá. – respondeu Marcela. – Pó que não ia estar?
-- Não. Por nada – falei. “É. Ela não falou nada. Mas é melhor não ariscar. Nossa! A Marcela está tão bonita. Ia adorar beijar ela. Vou chamar ela para ir comigo. Quem sabe, quando a gente estiver só eu consiga agarrar ela. Não. Meu Deus! Me ajude! Não quero ficar pensando nessas coisas. Não quero ficar pecando mais...”.
Eu sabia que esses pensamentos só me ocorriam por causa do que me acontecera momentos antes. Se a Luciana não me tivesse excitado, eu não estaria agindo dessa forma. Mas eu era um menino. E não sabia como controlar meus impulsos. Aliás, era ingênuo demais para saber que não temos controle algum sobre nossos impulsos e pensamentos. Eu tentava não ficar pensando em sexo, não ficar desejando ora um ora a outra, mas não era possível. Às vezes, tentava pensar em outra coisa, pensar nos meus pais preocupados com o nosso desaparecimento, pensar no meu tio que morrera afogado quando a lancha naufragou com a gente, mas não conseguia manter esses pensamentos por muito tempo. Era só descuidar um instante e meus pensamentos recaiam em atos libidinosos com aquelas meninas naquela ilha perdida no oceano. Tudo ali parecia um convite para o pecado, como se meus instintos aflorassem com uma intensidade jamais vista.
-- Precisamos apanhar algumas frutas – afirmei. – Vocês não estão com fome?
-- Claro que estamos – assentiu Marcela.
-- Vem comigo. Vamos apanhar alguma coisa para comer – falei. “Ela não vai recusar. Aí quando a gente estiver sozinho. Vou pegar na mão dela. Vou abraçar ela. E a gente vai se beijar. Aí...”
Marcela se levantou. Abanou as nádegas para remover a areia e disse:
-- Então vamos.
-- Eu também vou – declarou Ana Paula, levantando-se também.
Nisso Luciana chegou.
-- Aonde vocês vão? – perguntou, embora soubesse.
-- Apanhar alguma coisa para comer – falei. “Mas só eu e a Marcela. Vocês duas vão ficar. Quero ficar sozinho com ela”. – Vamos Marcela. Vocês duas fiquem aí. Aproveitem e coloque mais um pouco de lenha na fogueira que ela está começando a se apagar.
-- Eu também vou – adiantou-se Ana Paula.
-- Não. Você fica – ordenei.
-- Mas eu não vou ficar aqui sozinha com ela. Você sabe que eu odeio essa va...
-- Calada – interrompi. – O que eu conversei com você agora a pouco? – falei de forma enérgica, apontando o dedo para ela.
-- Não fale assim com ela – pediu Marcela.
-- Eu não fiz nada – esquivou-se Luciana, denotando sarcasmo.
-- Sua falsa – disse Ana Paula.
-- Já mandei você calar. Será que não consegue ficar um minuto sem brigar. – Virei para Marcela. – Ela sabe por que estou falando assim com ela.
Ouve um breve silêncio. Ana Paula olhou para Marcela e depois abaixou a cabeça. Luciana virou o rosto para a porta. Marcela olhou para as duas e depois em minha direção. Era como se ela procurasse entender o que se passara entre eu e minha prima para me obedecer daquela forma. Ao vê-la, com aquele olhar inquiridor, conclui: “Ana Paula não contou nada pra ela. Senão ela não estaria com essa cara. Melhor assim. Eu não ia ter cara para encarar ela depois. Não deveria ter feito aquilo. Foi uma idiotice, isso sim”.
-- Luciana, por que você não vai apanhar alguns galhos pra fogueira enquanto a gente vai buscar algo pra comer? Enquanto isso, a Ana Paula fica aqui, tomando conta da fogueira – sugeri. Na realidade, só queria evitar que as duas ficasse por muito tempo juntas. Estava bem claro que havia uma guerra declarada entre as duas.
-- Por que eu? – protestou ela.
-- Porque você é a mais velha. Por favor. Não vamos ficar criando problemas. Já temos problemas demais. Vocês não acham?
Todas se entreolharam novamente. Depois me fitaram. “Melhor assim. Senão não sei o que vai ser da gente. Preciso tomar cuidado para não ficar causando briga entre elas.”
-- Tá bom – disse Luciana ao sair da cabana pisando firme. Via-se um quê de insatisfação em seus modos. No entanto, Ana Paula deixou escapar um discreto sorriso, como se experimentasse certo contentamento por ver a outra naquele estado. Era uma menina ainda, mas sabia perfeitamente quando havia aplicado um golpe certeiro no adversário.
-- Vamos, Marcela – falei dirigindo-me a saída. – E não quero saber de confusão entre vocês duas, hein – recomendei.
Demos alguns passos. Todavia lembrei-me: “É melhor voltar e pegar a faca de pedra. Vai que a gente precisa cortar alguma coisa”.
-- Espera só um pouquinho – pedi. – Vou voltar para pegar a faca de pedra. – Virei para o outro lado e saí correndo.
Ana Paula estava sentada no chão, com as pernas dobradas, os braços em volta e a cabeça apoiada sobre os joelhos, como se olhasse para si mesma. Entrei e falei:
-- Vim pegar a faca. A gente pode precisar dela.
Ana Paula levantou a cabeça e olhou em minha direção. Seus olhos estavam vermelhos e cheios de lágrimas. Chorava. “Mas o que é dessa vez?”, perguntei-me, “Será que essa menina não sabe fazer outra coisa que não seja chorar e brigar?”
-- O que foi? – perguntei com irritação.
-- Nada – respondeu.
-- Como nada? Então por que você está chorando? – aproximei-me e agachei a sua frente.
-- Ninguém aqui gosta de mim. Vocês só ficam brigando comigo. Queria estar na minha casa agora. – Nisso, Ana Paula começou a soluçar e choro tornou-se mais intenso. – Tô com saudade da minha mãe, do meu pai e dos meus irmãos – acrescentou com dificuldade, pois o soluço a impedia de falar com desenvoltura.
Levei a mão até seus braços, desvencilhei-os e a abracei. A posição incômoda dificultava o nosso abraço; no entanto, era preciso confortá-la. “Eu também estou. Eles devem estar desesperados a procura da gente. Já faz três dias que sumimos”. Ao lembrar de meus pais, também me senti entristecido. Por um momento, quase deixei escapar gotas de saudade. Mas me contive. “Não posso chorar agora. Senão aí é que ela vai chorar mais ainda”.
-- Vai. Pare de chorar. A gente vai sair daqui em breve. E aí a gente vai poder matar a saudade. Já pensou? A família toda reunida? – Não cheguei a pronunciar a última palavra, pois me lembrei no mesmo instante do meu tio. “Coitado do tio Jamil. E quando a tia souber que ele morreu? Ah, meu deus!”
Não sei se foi a inexperiência por não saber como confortar as pessoas, mas eu não deveria ter-lhe dito aquelas palavras. A verdade era que Ana Paula era a única que, ao voltarmos para casa, não ia encontrar a família completa. Seu pai – o meu tio Jamil --, não estaria lá para comemorar. “Ela deve estar sofrendo muito. Coitado do tio. Morrer dessa forma. É. Preciso ser mais paciente com ela. Vai ver que é por isso que ela está assim: revoltada, brigando com todo mundo”.
Com muito custo, consegui confortá-la. Nisso, Marcela havia retornado devido a minha demora.
-- O que aconteceu com ela? – perguntou, quando chegou.
-- Saudades de casa. E por causa do tio também – expliquei. – Mas agora ela já está melhor. Não é verdade?
Ana Paula meneou a cabeça afirmativamente e esboçou um sorriso forçado e contido.
-- Fica assim não – pediu Marcela. – Vai dar tudo certo.
Ana Paula tornou a balançar a cabeça em sinal de concordância.
-- A gente já volta – falei ao me levantar. – Só vamos apanhar algumas bananas pra matar a fome.
Apanhei a faca de pedra sobre um monte de areia e saímos.