quinta-feira, 12 de julho de 2012

NENHUM PASSO ADIANTE

Para Nietzsche, “A grande conquista da humanidade, até agora, é não precisarmos mais temer continuamente os animais selvagens, os bárbaros, os deuses e os nossos sonhos”*. Quanto aos animais selvagens, os bárbaros e os nossos sonhos Nietzsche está certo, mas e quanto aos deuses? O conhecimento transformou a humanidade e os velhos deuses praticamente desapareceram, mas o homem ainda não aprendeu a viver sem um deus, sem a quem temer e venerar irracional e incondicionalmente. Por isso ainda se venera Deus. Quanto a isso todo o conhecimento acumulado até hoje se mostrou inútil. Não se deu um passo adiante. Ainda se venera deuses como antigamente. Aliás, é o que Nietzsche diz acerca dos Europeus de sua época: “Por mais que haja progredido em outros âmbitos, em matéria de religião a Europa não alcançou ainda a liberal ingenuidade dos antigos brâmanes”**


* Aurora, I, 5, Sejam agradecidos!
** Aurora, I, 96, In hoc signo vinces

terça-feira, 3 de julho de 2012

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 27

Encontrei-a uns dois quilômetros depois. Agachada sobre a areia, de frente para o mar, estava fazendo xixi. Parecia distante, compenetrada, pois não me viu se aproximar.
Parei para observá-la, para ver como as mulheres faziam suas necessidades. Apenas reparei em suas costas e depois em suas nádegas brancas. Estava um pouco longe. Queria aproximar, ver com mais detalhes por que todas as mulheres se agacham para fazer o que nós homens o fazemos de pé. “Por que elas não fazem como a gente?”, fiz-me essa pergunta ao se aproximar. “Será porque elas não têm pinto como a gente? É, deve ser. E se fizer de pé, vai escorrer pelas pernas”, conclui. Aliás, aquela imagem remeteu-me à outra mais antiga, quando vi uma garotinha fazendo xixi na calçada. Ela deveria ter uns quatro anos e estava inteiramente nua. Ao vê-la fazer xixi daquele jeito, fiquei deveras impressionado. Não pela sua nudez, pois a minha inocência passava ao largo de qualquer obscenidade, contudo, o fato de estar agachada foi o que me impressionou. Durante o jantar por pouco não indaguei minha mãe, mas faltou-me coragem. E essa dúvida acabou caindo no esquecimento, vindo à tona ao observar Luciana, embora a inocência não fosse mais a mesma.
Ela se levantou, despiu-se completamente e foi caminhando em direção ao mar, carregando sua única peça de roupa na mão direita. Fiquei olhando-a dar suas passadas lentas, despreocupadas, como se a vida fosse infinita. Eu olhava para suas nádegas, nos movimentos que faziam a cada passada de suas pernas e ficava admirado com a delicadeza daqueles passos. Dir-se-ia andar numa passarela. Até quando estão andando naturalmente algumas mulheres parecem desfilar. E Luciana fazia isso tal qual uma modelo. Ela ia se afastando, se aproximando do mar e eu continuava olhando, afetado, com o corpo incendiando, com os pensamentos revoltos, tomados por lembranças, lembranças de nós dois deitados na areia. E essas lembranças tinham o poder de criar novas imagens, dando asas a minha imaginação.
Ela entrou lentamente na água e, quando esta lhe atingiu os quadris, deu um salto para frente e mergulhou. Pensei em me esconder atrás de uma enorme palmeira e ficar olhando-a indefinidamente, vendo o nadar de seu corpo esguio, o bater de seus braços e suas pernas, o envergar de seu dorso ao saltar uma onda ou dar um mergulho e emergir em seguida; mas meu corpo, como se puxado por um cabo invisível, sentia-se arrastado, atraído em sua direção.
Dei alguns passos e disse-lhe um “oi!” para não assustá-la quando estivesse mais perto. Ela virou e minha direção e, talvez surpresa, perguntou:
-- O que você está fazendo aqui?
-- Cheguei na cabana e não te vi. Perguntei as meninas e eles disseram que você tinha vindo por essas bandas. Então resolvi vir atrás – falei. Entrara na água e agora me aproximava.
-- Resolvi andar um pouco – Foi o que ela disse. – E aí? Desistiu de pescar?
-- Não. Peguei um peixe enorme. – Cheguei onde ela estava e vi em sua mão a parte inferior do biquíni.
-- Hum... Que bom! Então hoje vamos comer algo decente – afirmou, fitando-me e sorrindo em seguida, um sorriso que parecia ter algo mais.
-- Acho que vamos ter peixe para o almoço – brinquei, retribuindo-lhe o sorriso. No entanto, olhava com insistência para a parte inferior de seu corpo, embora esta estivesse submersa e pouco visível; aliás, o movimento da água distorcia quase que totalmente os contornos de seu corpo do umbigo para baixo. Sentia meu coração palpitar, o peito arfar e o rosto quente, mas não conseguia parar de olhar.
-- O que foi? – perguntou ela. -- Parece inquieto?
-- Nada – desconversei ainda mais rubro.
Se aquele episódio tivesse acontecido com uma das outras meninas, a coisa teria terminado por ali. Provavelmente eu teria virado para o lado e aguardado até ela se vestir. Todavia, era Luciana quem estava bem ali na minha frente, com um olhar diferente, com os lábios ocultando alguma intenção, alguma travessura, reflexo de sua curiosidade destemida, consciente de que o mundo é dividido entre aqueles que dominam e aqueles que são dominados, usados por uma pequena minoria como objetos, como meio de atingir seus objetivos. Talvez ela não fizesse a menor ideia do porquê que alguns sentem prazer em dominar, em usar os mais fracos para sua própria satisfação; mas ela sabia que entre nós dois, era ela quem ditava as regras e quem comandava o jogo. Se eu lhe tinha algum poder sobre si era porque ela permitia, porque ela precisava desse poder para se proteger, para sobreviver.
-- Nada! Sei.. – E, não demonstrando constrangimento, deu dois passos, parou bem próxima de mim, afundou a mão n’água e agarrou-me os genitais por cima da sunga. – To vendo – acrescentou imediatamente. – Então por que ele está assim?
-- Assim como? -- Foi uma reação espontânea. Dir-se-ia inclusive uma atitude insensata, palavras que só um idiota seria capaz de proferir.
-- Não se faça de bobo! Você sabe muito bem!
-- Ah... sei lá! -- Foi o que consegui responder, dando um passo para trás.
Pensei em virar e sair correndo, afastar-me, ir para um lugar onde pudesse ficar sozinho e usar o que eu sabia para tirar-me daquele estado, e fazer com que aqueles pensamentos que atormentavam minha alma findassem. Todavia, uma parte de mim, aquela parte onde habita um diabinho vermelho de rabo em forma de flecha e orelhas e chifres grandes, sussurrava insistentemente para ficar e explorar aquele vasta e desconhecida ilha chamada mulher, uma ilha repleta de segredos, de mistérios. E por que não de perigos também? Então eu fiquei, pois a voz que me cochichava do outro lado para não ficar, para sair dali soava fraca, quase inaudível.
-- Pensa que me engana, é? Você está assim porque sabe que eu estou pelada – disse ela com naturalidade. Em seguida tornou a se aproximar e sem dizer palavra arrancou-me o falo para fora. -- Nossa! Como está duro! -- exclamou.
Eu não disse palavra; apenas fitei-a e esperei, como se num jogo aguardasse que o adversário terminasse sua jogada. De novo pensei em fugir, em escapar de seu poder, de suas brincadeiras sem graça. Mas alguma coisa me prendia a ela e me impedia de escapar. Aliás, se eu pudesse prever o futuro, jamais teria de me aproximado dele naquele momento.
-- Vem cá. Me abraça e me beija – pediu. Todavia, não esperou; jogou-me os braços em volta do pescoço e puxou-me para junto de si, cerrou os olhos e ofereceu seus lábios. E sem ter como recusar, aceitei-os.
Foi um beijo estranho, apesar do desejo. Meu coração palpitava, minhas mãos tremiam, meus pensamentos tombavam e davam cambalhotas, como se arrastados por uma onda gigantesca. Talvez eu até quisesse, mas naquele instante não conseguia aproveitar o momento. É possível que naquele momento supusesse aonde ela estava querendo chegar, apesar da minha inocência. Eu ainda era um garoto e não estava preparado para ir tão longe. Achava que fazer essas coisas era cometer pecado, era provocar a ira de Deus; pois a ideia que tinha de Deus não diferia muito da ideia acerca de meus pais. E se meus pais se aborreceriam quando soubessem que andei fazendo aquelas coisas, então Deus também se aborreceria. Por isso fiquei confuso, e mais confuso ainda ao sentir uma de suas mãos segurar-me o pênis ereto, empurrá-lo para baixo e introduzi-lo no meio de suas pernas, em tom de brincadeira.
Não sei explicar o que se passou, embora acredito que não tenha acontecido nada. Lembro-me tão somente de sentir-lhe as mãos seguraram-me os quadris e empurrá-los e depois tornar a puxá-los dezenas de vezes. Nesse ínterim, depois de conseguir me livrar do pensamento de que Deus me castigaria por aquilo, aproximei-lhe os lábios dos seios e sorvi-lhe os mamilos, ora um ora o outro.
E quando finalmente tomara gosto, esquecera o desejo de escapar, esquecera Deus e sentia prazer naquilo – aliás, um prazer crescente, um prazer que aos poucos me fazia esquecer não só Deus como tudo a minha volta, como se o mundo de repente transformara-se apenas num mundo de sensações e prazer –, Luciana soltou-me os quadris e disse para sairmos da água e ir para a areia.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

COISAS QUE ME FAZEM LEMBRAR DE VOCÊ

Ao longo do dia, eu me deparo
Com muitas coisas que me fazem
Lembrar de você. Mas é claro
Que é nossa música porém
Que ouvi-la me é muito caro.

Os versos, remetendo a momentos
Tão inesquecíveis de nosso amor,
Levam-me a experimentar o sofrimento
Que me dói mais que qualquer dor
Que se tem conhecimento.

Ainda sim, feito Prometeu acorrentado,
Eu a ouço todos os dias. Pois quem,
Sob o julgo dum coração apaixonado,
Não faria isso também?

Talvez tomado pelo pensamento
De que você voltará, meu amor,
Não vejo que isto não tem cabimento;
Pois do nosso amor, só restou a dor.

domingo, 10 de junho de 2012

MEU AMOR, O QUANTO ME SIGNIFICA ESSE DIA


Eu tenho tantas datas para comemorar e tantos momentos inesquecíveis para relembrar que este dia é só mais um desses momentos. Mas ainda sim, não há como negar, meu amor, que esse dia é motivo de muita alegria. Eu te amo mais do que tudo nesse mundo. Talvez por isso o “Dia dos Namorados” seja tão significativo assim, porque ele me faz lembrar como nunca de quanto te amar é tudo.
Já acordei diferente, com os pensamentos em você. Eu fiquei imaginando como você reagiria ao nos encontrarmos, a roupa que estaria usando e até mesmo quais palavras me diria. Imaginei inclusive o sorriso que teus lábios deixariam escapar e o tamanho do brilho dos teus olhos. Sei que isso pode parecer um tanto idiota, mas fazer o quê? Os apaixonados agem feito idiotas e mesmo assim não há nada que um ser humano deseje mais na vida do que estar apaixonado. Ao longo de nossa existência, experimentos os mais variados e intensos prazeres, mas nenhum é tão intenso quanto o prazer de te amar. Acho que nem precisava estar te dizendo isso. Você deve saber disso muito bem.
As horas passam lentamente e quanto mais vai se aproximando o momento de nos encontrarmos, mais impaciente e com mais frequência eu consulto o relógio, como se isso fizesse os ponteiros correrem mais rápido. Meu coração há muito perdeu os compassos e assemelha-se a um garotinho afoito. Talvez por isso eu esteja a transpirar, embora o dia esteja relativamente frio. Aliás, resolvi te escrever esta carta justamente para conter a ansiedade, a qual quase me leva ao desespero. Talvez assim o tempo passa mais rápido.
Virei o rosto para o lado e fitei o pequeno embrulho que comprei para ti. Obviamente você não faz a menor ideia do que seja. Mas aposto que, enquanto você também se prepara, deva estar pensando no que eu vou te dar. Eu confesso, meu amor, que não me preocupo com o que vou ganhar. Talvez porque o presente em si não fará a menor diferença, mas sim o significado que ele carregará consigo. Aliás, foi pensando nisso que te comprei algo duradouro, para que toda vez que olhá-lo, você se lembre não só de mim mas do momento em que te foi presenteado. Tenho certeza de que esse momento te será eterno, como será o momento em que nossos olhos se cruzaram, trazendo consigo um deleite imensurável.
Já estou eu consultando o relógio mais uma vez. Falta pouco mais de uma hora. Vou encerrar por aqui. Não consigo nem mesmo escrever-te mais. Veja minha letra como parece nervosa e inconsistente. Isso é a vontade de estar contigo, meu amor.
Antes de terminar, só queria te dizer mais uma coisa, meu amor.
TE AMO, TE AMO mais do que tudo.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

QUANDO SE LÊ AS ENTRELINHAS


Existe um fato: Lula sugeriu ao ministro do STF Gilmar Mendes o adiamento do julgamento dos envolvidos no escândalo do “Mensalão” para não prejudicar as eleições municipais de outubro. Existem duas interpretações dos fatos: Lula tentou interferir no julgamento do mensalão (uma) e Lula apenas fez uma sugestão ao ministro (outra). Quanto a primeira, esta está sendo explorada não só pelo próprio Gilmar Mendes como também por alguns setores da sociedade, ligados àqueles que tem algum desafeto com o ex-presidente e o Partido dos Trabalhadores (PSDB, DEM, PPS e alguns setores da mídia) que pelos mais variados motivos tentam tirar algum proveito da situação, talvez querendo atingir a presidente Dilma. Quanto à segunda versão, compartilhada pelos demais ministros do supremo e pelos demais setores da sociedade que, além de não verem uma interferência no julgamento do mensalão concordam inclusive que julgar os culpados do mensalão durante as eleições pode sim influenciar nas eleições e não contribuem em nada para a democracia. O melhor seria a antecipação ou até mesmo o adiamento. Mas voltando ao Ministro Gilmar Mendes. Por que ele fez tal declaração justamente para a revista Veja? O que ele quis com isso? Por que ele foi se encontrar as sós com Lula se presumivelmente sabia que o assunto seria o mensalão? Não seria mais prudente ter recusado o convite? Não é questão de acusar ou não o Ministro. Mas não devemos esquecer que Gilmar Mendes, antes de virar ministro do STF, indicado pelo então amigo FHC apesar de uma série de protestos contra sua indicação, foi secretário da presidência do então presidente Fernando Collor de Melo (PRN) e depois Advogado Geral da União no governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSBD), aliás quem o levou ao supremo com a aposentadoria do ministro Néri da Silveira. É de se lembrar também que foi o próprio Gilmar Mendes quem em 2008 concedeu de forma surpreendente dois habeas-corpus em 48 horas ao banqueiro Daniel Dantas, gerando uma crise que ficou conhecida como “foro privilegiado ao banqueiro que havia roubado milhões”. E mais uma vez o próprio Gilmar Mendes se envolveu numa crise institucional, gerada pela operação Satiagraha, a qual foi denunciada pelo colega Ministro Joaquim Barbosa, que gerou um embate entre os dois ministros que dura até hoje. E por último vale lembrar que Gilmar Mendes é citado nas gravações da quadrilha do Carlinhos Cachoeira por diversas vezes e viajou e se encontrou com Demóstenes Torres em Berlim. Agora eu pergunto: é ele ou o ex-presidente Lula o mais interessado em criar uma crise entre os três poderes? 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O POUPADOR


Eu não sou um sujeito à toa
E nem vivo do fruto alheiro
Quero apenas viver numa boa
Com o meu próprio dinheiro

Não roubei quem quer que seja
E nem pratiquei contravenção
Minha renda é fruto da peleja
Depois de muita privação.

Renunciei por anos a quase tudo
Para acumular meu capital
E apliquei-o na bolsa e em fundos
E até na poupança um porcentual

E dos rendimentos abundantes
Vivo a aproveitar a vida
Mas sempre lembrando constante
De que economizar é a melhor pedida

domingo, 6 de maio de 2012

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 26


Houve um ar de constrangimento ao ficar na presença de Marcela durante o dia. Talvez tenha sido por isso que procurei, assim que degustamos as bananas mais maduras, manter-me o mais longe possível dela, como se sua presença me remetesse a algo que eu procurava a todo custo esquecer. E quando nossos olhos casualmente se cruzavam, o que era inevitável, desviavam-se imediatamente seguidos de um rubor em nossas faces.
Eu não sei o que se passava na cabeça dela naqueles instantes; na minha porém vinha a lembrança não só do ocorrido mais cedo como também do episódio no segundo dia naquela ilha, quando a beijei pela primeira vez. E então eu me sentia inda mais tímido e envergonhado, como se cometera um crime horrendo e o qual poderia me fechar as portas do céu. O arrependimento em meu peito não só em relação ao que Marcela e as outras meninas poderiam pensar a meu respeito, embora isso também contasse muito, mas principalmente pelo temor a Deus, Dele estar vendo tudo que eu fazia aqui na terra como um ser impiedoso que castiga severamente o menor deslize de suas ovelhas. E quando eu estivesse diante Dele e Ele enumerasse todos os meus atos aqui na terra? Como eu me justificaria a fim de conseguir a sua absolvição para entrar no reino do céu? Não, eu não queria perecer no inferno e ser torturado para todo o sempre pelo diabo. Se havia uma coisa que eu temia era o inferno. Só a possibilidade de minha alma queimar eternamente me causava pavor; pois eu ouvia as piores e mais terríveis histórias sobre o inferno não só na igreja, quando íamos à missa, como também em casa e na escola desde pequeno, embora com o passar dos anos passei a por em dúvida a veracidade tanto dessas narrativas quanto a própria fé em Deus a ponto de hoje ter perdido completamente a fé. Mas depois do acidente com a Lancha, da morte do meu tio e durante boa parte de nossa estada naquela ilha, minha fé manteve-se inabalável.
Só que eu não queria ficar pensando no ocorrido para não pensar nos possíveis castigos, já que uma coisa levava a outra. E isso só seria possível se eu me afastasse e me entretece com alguma coisa. E como havia planejado antes, fui tentar pescar com uma vara pontiaguda para fisgar os peixes.
A minha primeira dificuldade foi entrar na mata para apanhar uma vara. Desde o episódio em que parecia ter visto alguma coisa se aproximar, na noite em que Luciana me surpreendeu masturbando-se e depois, com sua curiosidade e falta de vergonha, me fez ter um orgasmo, eu não tivera coragem de ir tão longe. Só de pensar que de qualquer ponto escuro da floresta poderia surgir terrível e monstruoso e me devorar fazia-me gelar e tremer dos pés à cabeça. Mas a necessidade muitas vezes é o que nos obrigar a correr riscos imensos. E perdidos naquela ilha, se não nos arriscássemos de vez em quando, não sobreviveríamos. Talvez por isso tenha criado um pouco de coragem e adentrado a mata para encontrar uma vara fina comprida e resistente para pescar.
Tive um pouco de trabalho para fazer-lhe uma ponta. A nossa “faca”, que já não prestava muita coisa, estava mais cega do que nunca. Aliás, quebrara numa das extremidades onde mais cortava. Contudo, depois de muito resistir pacientemente, consegui deixar uma das pontas fina o bastante para penetrar nos peixes. E isso só foi possível porque me ocorreu de esfregar a ponta da vara até que afinasse numa grande pedra
Agora só faltava treinar a pontaria. E eu teria muito que treinar, pois desde pequeno a minha pontaria sempre foi péssima. Contudo, estava obstinado a pegar um peixe. Dir-se-ia questão de honra, embora pensasse nisso para evitar de pensar em Marcela. E quando a gente quer, a gente consegue, basta ter força de vontade. Sempre ouvia isso de meus pais. E eles estavam com a razão. E por mais que eu fosse um garoto, era crescido o suficiente para saber disso. Além do mais, eu tinha todo o tempo do mundo. Poderia insistir, insistir o quanto quisesse. Poderia levar alguns minutos, meia hora, uma hora ou até mesmo o dia inteiro, mas em algum momento fisgaria um peixe.
E foi isso que não me fez desistir, mesmo quando o sol mudou de lado e eu já estava prestes a deixar para o outro dia.
De repente vi um dos grandes nadando tranquilamente entre duas pedras. Então eu olhei fixamente para ele, como se tentasse hipnotizá-lo. E por alguns instantes, me mantive inerte, apenas com os movimentos de meus olhos e minha respiração. A vara jazia em minha mão erguida, pronta para ser lançada. Mas eu queria esperar o momento certo – aquele instante em que você tem a certeza absoluta de que dessa vez não vai errar.
Esperei-o ficar numa posição em que fosse fácil calcular onde a lança o atravessaria. E assim, medindo bem com os olhos, coloquei toda a força no braço e atirei-a. Esta atravessou o peixe bem no meio, pouco abaixo da cabeça e enroscou-se nas pedras.
O pobre infeliz começou a se debater, querendo nadar para frente, mas a lança mal se movia. E mais que de pressa, abaixei e segurei-a pela outra ponta e a enterrei ainda mais para não deixar nenhuma possibilidade de escapar. E assim, como muito cuidado, desprendi-a das pedras e a ergui com peixe ainda se debatendo.
Ah, que sensação mais deleitosa! Foi como se, após uma luta feroz pela vida contra um inimigo bem mais poderoso, eu o tivesse finalmente vencido. Não sei nem mesmo explicar o que senti naquele momento. Nem mesmo hoje, depois de muitos anos, ainda não encontro palavras capazes de descrever com exatidão o que senti. Só posso dizer que me senti o homem mais feliz do mundo.
Qual foi a minha primeira reação ao apanhar a vara e erguê-la com o peixe sacolejando, desesperado para se soltar? Embora o mais lógico fosse retirá-lo do espeto e tentar fisgar outro, não foi isso que se passou pela minha cabeça. Aliás, nem sei se ouve tempo para pensar, pois simplesmente sai correndo com o espeto na mão em direção à cabana para mostrar as meninas o resultado da minha pescaria.
Encontrei a Marcela e Ana Paula sentadas lado a lado no chão, com os joelhos dobrados e os braços em volta. Ana Paula estava com os olhos vermelhos, dando a impressão de ter chorado mais uma vez.
Isso conteve meu estado eufórico, todavia não o bastante para dizer:
-- Olha o que eu peguei. – Aproximei a ponta onde o peixe ainda se agonizava sem forças.
-- Nossa! Que peixe grande! – espantou-se Marcela.
-- Agora a gente não precisa mais ficar comendo frutas o tempo todo – falei.
Ana Paula apenas ergueu a cabeça e olhou com ar de indiferença, como se isso não representasse melhora na nossa alimentação; em seguida tornou a abaixar a cabeça.
“Será o que aconteceu dessa vez?”, indaguei-me em pensamentos, “Será que ela e a Luciana já brigaram de novo?”.
-- O que aconteceu? – perguntei para Marcela.
-- É por causa do pai dela.
Então a lembrança da triste morte do tio Jamil me veio à memória. E por algum momento a cena do barco virando e todos nós caindo no mar se formou em minha cabeça. Esqueci o fruto da pescaria por alguns instantes. Olhei para Ana Paula e para Marcela e pude ver o desespero em seus rostos quando nos vimos as sós naquela imensidão de mar. E eu pude rever o meu próprio desespero ao gritar pelo tio e não obter respostas.
Entreguei a vara com peixe para Marcela e sentei ao lado de Ana Paula.
-- Não fique assim, prima – pedi, tomando-a nos braços e afagando seus cabelos.
Ela apoiou a cabeça em meu peito e tornou a chorar compulsivamente.
O pranto e a dor de minha prima acabaram por me comover; pois não era simplesmente um choro como a maioria dos que nos ocorre principalmente na infância. E por mais que tentasse ser forte, não pude deixar de verter lágrimas; pois também eu sentia um forte aperto no peito, consciente de que nunca mais veria o tio Jamil, de que sua família ao saber de sua morte também entrariam em desespero.
Marcela aproximou-se e também nos abraçou. Embora não tivesse nenhum parentesco com nossa família, também ela demonstrava estar consternada com a morte de meu tio.
E ficamos assim por algum tempo. Entretanto, depois da dor tornar menos intensa e Ana Paula finalmente parar de chorar, Marcela se levantou e foi mexer na fogueira. Aproveitei o momento para levar a mão ao queixo de minha prima, levantar sua cabeça e dizer-lhe enquanto olhava fixamente em seus chorosos olhos:
-- Não fique assim. Tudo vai ficar bem.
Ana Paula meneou a cabeça e tentou esboçar um sorriso.
Então lhe levei a mão ao rosto e enxugue-lhe as lágrimas. Seus olhos denotavam muita dor, feitos os olhos de uma criança sozinha, órfã, perdida no mundo, a qual só o tempo é capaz de aliviá-la. Era como se a minha presença não fizesse muita diferença, não confortasse sua dor.
-- E aí? Vamos preparar aquele peixe para o almoço? – perguntei, tentando reanimá-la? Ela meneou a cabeça afirmativamente. – Então vamos lá.
-- Como é que vamos fazer para limpar ele? – quis saber Marcela.
-- Sei lá! – falei. – Nunca limpei um peixe.
-- Eu sei mais ou menos. Já ajudei a minha mãe a fazer isso algumas vezes – adiantou-se Ana Paula.
“Ótimo! Assim ela vai se entreter e não vai ficar pensando na morte do pai. E a Luciana? Por onde anda?”, pensei. Em seguida perguntei para a Marcela:
-- Cadê a Luciana?
-- Ah, não sei não. Disse que ia andar por aí. Foi naquela direção. – Apontou a frente, para o lado onde costumávamos apanhar frutas.
-- Vou atrás dela e contar que peguei um peixe – falei, saindo da cabana e principiando a correr.