domingo, 20 de julho de 2014

ADEUS Á INOCÊNCIA - CAP. 43


Voltei com dois peixes atravessados pela vara, frutos de muita paciência e perseverança. Não tinha certeza quanto tempo levara para pescá-los. Poderia ter se passado meia, uma, duas horas ou até mais que isso. Aliás, o tempo não era importante desde que chegamos àquela ilha. Éramos apenas guiados pelo movimento do sol e da lua. Sabíamos quando era dia, noite, quando era cedo, por volta do meio dia e final de tarde, nada mais além.
Marcela e Ana Paula também haviam retornado e estavam preocupadas com o meu sumiço. Ana Paula chegou inclusive a dizer que se eu demorasse mais um pouco iriam ela e Marcela atrás de mim.
-- Fui atrás de alguma coisa pra gente comer -- falei, entregando os peixes para Marcela. -- Agora é a vez de vocês limpar.
Marcela pegou a vara com os peixes e disse para Ana Paula:
-- Vamos preparar eles para o almoço. Pelo menos não vamos comer algo diferente hoje.
-- É. As coisas tão melhorando por aqui -- disse minha prima rindo. -- Num aguentava mais comer frutas o tempo todo.
Saíram. Por alguns minutos fiquei às sós com Luciana. E para quebrar o silêncio, perguntei:
-- E o pé? Como tá?
-- Pelo menos parou de doer um pouco.
-- É só não forçar que em três ou quatro dias ele já vai tá bem melhor.
-- Você acha que até lá estarei andando? -- quis saber, com certo entusiasmo, como se minhas previsões fossem infalíveis.
-- Talvez -- procurando manter vivas suas esperanças. Não queria desapontá-la e deixá-la de mau humor, pois se o fizesse a coisa acabaria refletindo em nós mesmos. Até lá ela estaria mais conformada e viria que sua recuperação poderia levar semanas.
-- Não quero você andando com aquelazinha por aí.
-- Num precisa se preocupar. Num vou fazer nada com ela. Já disse! -- respondi com irritação, deixando bem claro o quanto essa conversa me desagradava. De fato, toda vez em que ela falava da Marcela daquele jeito eu me irritava. Ela não podia compreender, mas eu amava outra e não ela. Se era condescendente com Luciana e a deixava praticar certos atos comigo era por medo e fraqueza. Se tivesse forças e pudesse escolher, não faria com ela aquelas coisas de jeito nenhum, mas a minha covardia não deixava. Por isso, na medida do possível procurava fugir dela, mas nem sempre isso era possível.
-- É bom mesmo!
Nisso, Marcela e Ana Paula retornaram com os peixes limpos. Marcela, por ter mais experiência, colocou-os para assarem na fogueira enquanto minha prima se encarregava de manter o fogo a todo vapor, alimentando-o com pequenos gravetos. E não demorou a ficarem prontos, embora talvez se os houvéssemos deixado mais teriam ficado mais saborosos. No entanto não reclamamos da falta de tempero e sal. Melhor assim do que comermos frutas o tempo todo.
-- Um pouco de sal e eles iam ficar mais saborosos – disse Luciana.
-- Mas a gente num tem sal – falei.
-- Por que a gente não tira do mar? -- inquiriu Marcela.
-- Mas num tem sal aqui. Só água salgada – interveio Ana Paula
-- É só a gente por a água do mar dentro de algum recipiente e deixar ela evaporar. O sal não evapora e vai ficar no fundo do recipiente – explicou.
Aquela sugestão rendeu uma acalorada discussão. Se por um lado havia a possibilidade de obter sal para temperar os peixes, por outro havia a dificuldade em obtê-lo. Não havia um recipiente grande o suficiente onde pudéssemos armazenar uma grande quantidade de água. E essa dificuldade acabou adiando a tentativa de obtê-lo até que houvesse como. Por fim, concluímos que isso não era tão importante e necessário assim.
Súbito, fez um breve silêncio.
-- Estava saboroso, mas não deu para matar direito a fome -- disse Luciana.
-- Quer que eu vá pegar alguma fruta? -- perguntei.
-- Não. Precisa não. Mas se você quiser trazer um pouco de água eu aceito.
Apanhei a casca de coco, a qual usávamos para transportar e beber água -- embora quando tínhamos sede íamos na fonte, pois a mesma ficava a menos de um quilômetro da cabana --, e fui buscar água. Aliás, a sede não nos preocupava tanto quanto a fome. Talvez porque sabíamos que água não nos faltaria. Quando algum de nós sentia sede, simplesmente ia até a fonte, onde encontramos a faca, bebia e retornava sem dar santificação aos demais. Era como fazer uma necessidade: todos nós fazíamos naturalmente, sem alarde. No entanto, para Luciana, devido à impossibilidade de se locomover, isso deixou de ser uma coisa simples e natural. Pois dependia de nós para tudo, embora quase sempre esse “nós” se resumia a mim.
Ao retornar, passei pelas meninas. Estavam tomando banho de mar. E embora não tenha prestado atenção, pude perceber que diziam alguma coisa engraçada uma para a outra, pois ambas riam alto. "Só espero que num estejam falando de mim", lembro-me de pensar. De vez em quando via-as cochichando e, embora não soubesse do que se tratava, achava que falavam de mim. Talvez por andar fazendo coisas erradas com Luciana, vivia receoso e desconfiado. Aliás, tinha quase certeza de que sabiam de alguma coisa. Por mais que Luciana não contara nada, não era possível, devido ao comportamento meu e principalmente ao dela, que Marcela não tenha notado nada. Quanto a Ana Paula abrir a boca e comentar alguma coisa eu não temia e sabia que não falaria nada, ainda mais depois das ameaças que lhe fiz.
Entreguei o pote com água para Luciana e ela bebeu.
-- Quer mais? -- perguntei.
-- Não. Obrigada -- foi a resposta que me deu, entregando-me a casca de coco vazia. E depois de um breve silêncio perguntou um tanto mal humorada: -- Por que aquelas duas vadias tanto ri?
Apesar de não ser uma pessoa mal humorada, o estado de espírito de Luciana contrastava com o daquelas duas. E pela maneira como se referiu à Ana Paula e Marcela, pude perceber o quanto a descontração delas irritava a outra.
-- Num faço a menor ideia -- respondi. -- Mas vou lá dar uma olhada.
-- Não. Não precisa! Não quero que você vá. Fique aqui comigo, meu hominho.
Disse-lhe que não demoraria. Ela insistiu para que ficasse com ela, alegando que se sentia muito sozinha presa naquela cabana. Respondi-lhe que uns minutinhos sem mim não fariam diferença. E também precisava dar uma mijada. Aliás usei isso como desculpa.
Aproximei. Não me viram chegar porque pareciam procurar alguma coisa. Aliás, pude ver no rosto de Ana Paula, antes que ela mergulhasse, um certo ar de desespero. Achei estranho aquilo, porque momentos antes podia-se ouvir da cabana as duas brincando. E quando aproximei e notaram a minha presença foi como se vissem um fantasma. Não notei nada de diferente porque estavam com água até o pescoço.
-- O que foi? -- indaguei, deduzindo que havia algo de errada.
Ambas entreolharam-se. Só então Ana Paula resolveu falar:
-- Marcela perdeu a parte de baixo do biquíni.
Instintivamente olhei para ela e, apesar de coberta pela água do mar, a imagem de seu corpo seminu condensou-me no cérebro. Obviamente ocorreu uma transposição de imagens. Na verdade aquela parte do corpo dela que se manteve até então coberta pelo biquíni e que se formou nos meus pensamentos não eram dela, mas de Luciana. Eu completara a parte oculta com o que estava acostumado a ver na outra.
-- Como isso aconteceu? -- perguntei surpreso.
-- Ela tirou para lavar e de brincadeira tomei da mão dela. Ela começou a correr atrás de mim e joguei por ali – apontou Ana Paula para um ponto cerca de meio metro de onde estavam, em direção ao mar. -- Só que ele afundou e num achamos mais.
-- Já procuramos, mas nenhum sinal -- volveu Marcela.
-- Vô dá um mergulho pra ver se acho.
Mergulhei. Mas ao invés de me atentar em achar a peça do biquíni, procurei antes de mais nada, manter os olhos bem atentos para ver se conseguia observar o meio das pernas de Marcela. Talvez se perdesse aquela oportunidade não teria outra. E de mais a mais, fui tomado pela curiosidade em saber se a dela era igual a da Luciana. Embora soubesse que as duas tinham a mesma coisa, desejava saber o que havia de diferente. Talvez por estar apaixonado por Marcela, estava certo de que não só naquela parte do corpo, mas em tudo que se referia a ela, era mais bonito e mais perfeito. Era muito jovem e inocente para saber que o amor é cego e transforma a feiura em beleza, porém só fazia confirmar o velho ditado. E se não estivesse cerca de meio metro dela, teria visto tudo com clareza, mas a água distorcia as imagens. Por isso, naquela primeira investida, não pude ver muita coisa.
Embora conseguisse prender a respiração por bastante tempo, não quis que ela desconfiasse das minhas intenções. Então voltei à tona e disse-lhe que não estava conseguindo ver muita coisa.
-- Mas vô tentar de novo – falei.
Prendi a respiração e dei outro mergulho. Fui ao fundo e me segurei na areia para que dessa forma ficasse difícil para saberem onde eu estava. E com muito cuidado para não voltar a superfície, aproximei de Marcela, numa distância onde a água não distorcesse minha visão. E o que vi quase me fez perder o controle e emergir diante dela.
Ainda hoje tenho essa imagem impressa no cérebro como se essa visão houvesse ocorrido a poucos instantes. Acredito inclusive que mesmo quando a vida estiver me escapando e a morte me estendendo a mão e a vida me passar como um flash, essa imagem passará diante dos meus olhos com todos os detalhes. Embora ela estivesse com as pernas juntas e não me fosse possível ver muita coisa, só a visão daqueles pelos negros, apesar de mais curtos e espaçados que os de Luciana, foi-me suficiente. Dava por satisfeito por ter retido aquela imagem. Mas havia mais. Um detalhe me chamou ainda mais a atenção. Uma parte dela parecia sair para fora. Era algo pequeno, mas que eu não tinha visto em Luciana. E esse algo, que eu não fazia a menor ideia do que se tratava, intrigou-me de uma forma que, se não fosse a falta de ar, eu teria o observado por mais tempo até ter uma noção melhor do que se tratava. Mas o instinto de sobrevivência falou mais alto e então dei um impulso para trás e voltei à tona. Se tivesse outra oportunidade, observaria com mais atenção e tentaria descobrir.
-- E aí? Achou? – Foi a pergunta que Marcela me fez.
-- Não. Nada. A Correnteza deve ter levado ela – respondi.
-- E agora o que faço?
Ana Paula olhou para minha cara a procura de uma resposta. Pensei em dizer-lhe para ficar assim mesmo. Mas obviamente isso lhe seria constrangedor, embora se demorássemos mais tempo naquela ilha, mais cedo ou mais tarde nossas roupas acabariam se despedaçando. Então ocorreu-me de sugerir-lhe:
-- Tira a parte de cima e amarra em baixo.
Titubeante, acabou dizendo:
-- Mas eu vou ficar com os peitos de fora?
-- E qual o problema? Eu e a Luciana num já estamos? -- acudiu Ana Paula, com um certo sorriso.
-- Melhor isso que sua coisa de fora – falei, dando de ombros, como se não lhe houvesse outra saída.
-- Então sai daqui, que a gente vai tentar dar um jeito – Pediu ela, virando-se de frente para a imensidão do oceano.
Constrangido, acabei por me afastar em direção à areia. Aliás, era o melhor que eu tinha a fazer. Se saísse com elas, vir-me-iam excitado.
Era preciso esconder isso não só delas como de Luciana. Assim, fui em direção ao bananal e, longe das vistas daquelas duas, bati uma rápida punheta, já que aquela imagem tão fresca em minha mente tratou de apressá-la a ponto de me provocar uma ejaculação quase instantânea.

terça-feira, 13 de maio de 2014

A VONTADE DE NADA

Feliz quem não busca a verdade de nada
Porque verdade mesmo não há
São apenas explicações mal dadas
E uma forma de nos confortar.

Tudo é inconstante e inconsequente
Como nossas mais firmes opiniões
Pois julgamos moral e parcialmente
O outro com as nossas paixões

Mesmo que a verdade fosse alcançada
Nós a ignoraríamos e deixaríamos pra lá
Pois seria uma carga por demais pesada
Para qualquer ser humano carregar

A ilusão é a verdade aparente
É a raiz de todas as religiões
É a fantasia plantada profundamente
Na nossa alma e em nossos corações

sexta-feira, 2 de maio de 2014

UM QUERER CONSTANTE

O meu querer, é um querer constante
É uma volúpia, um não sei o que dizer
Que se faz mais intenso no instante
Em que tua a roupa você faz ceder

Tua nudez, tão única e virginal
É um narcótico que me faz diminuir
O homem e sobressair o animal
Cuja chama que não se pode extinguir,

Sem que a carne com a carne
Num ir e vir de forma tão frenética
O nó da volúpia e da desrazão se desarme

Ainda sim, o meu querer não finda enfim
Pois a estonteante beleza de tua estética
Faz-me a imaginação não ter fim...

sábado, 12 de abril de 2014

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 42

    -- O que aconteceu? -- perguntou Luciana. -- Tá com a cara de quem viu fantasma.
    De fato eu estava muito amedrontado. No entanto, não tive coragem de confessar a verdade. Ela não acreditaria e ainda caçoaria de mim e me humilharia como gostava de fazer. Parecia sentir prazer em fazê-lo. – aliás, como gostam de fazer todos aqueles que, para manter o controle sobre o outro, procura humilhá-lo e rebaixá-lo para que este se sinta impotente e aceite melhor sua condição, sem forças para contestar. Desta feita, preferi responder:
    -- Nada não. É que vim correndo e tô cansado.
    Se de fato acreditou, não sei dizer, pois parecia por demais preocupada com a lesão no pé. Quis apenas saber minha opinião acerca dos benefícios de enfaixá-lo com folhas de bananeira.
    -- Você acha que vai ajudar a sarar mais rápido?
    -- Acho. Quando a gente se machuca o médico num manda enfaixar? Então? É pra sarar logo.
    Esse diálogo, que prosseguiu em torno da gravidade e do tempo de recuperação daquela lesão, findou com a chegada de Marcela e Ana Paula. Elas vinham alegremente falando de algo que suspeitei estar relacionado a mim; pois, ao me avistarem, súbito silenciaram com uma expressão de surpresa no rosto, como se não esperassem me encontrar ali.
    -- Uai! Já voltou? -- disse minha prima.
    -- Não. Tô lá ainda! -- exclamei.
    A minha resposta arrancou uma gargalhada de Luciana, a qual em tom provocativo acrescentou em seguida:
    -- Idiota! Se ele está aqui é porque chegou né!
    -- Idiota é você, sua imprestável, que tá aí entrevada...
    Antes que ela terminasse a frase, intervi:
    -- Vão parar as duas. Já num temos problemas demais aqui pra ficarem arrumando mais? -- indaguei. Embora tenha sido o culpado por aquele princípio de tumulto, a inimizade entre Luciana e Ana Paula só colocou mais lenha naquela fogueira por demais incendiária.
    Silenciaram-se.
    Eu não sabia como enfaixar o pé lesionado, ainda mais que o material usado não era o adequado e qualquer toque provocava-lhe muita dor. Desta feita a contribuição de Marcela foi por demais útil, embora, a medida em que o enfaixava, Luciana, apesar de gemer de dor a cada pequeno movimento na parte lesionada, também explicava como melhor pôr-lhe as ataduras. Aliás, foi uma tarefa dificultosa, onde tive de executá-la com uma delicadeza e paciência incrível, coisa que não estava acostumado a fazer, pois, embora fosse um garoto tímido, a delicadeza, muitas vezes encontrado em pessoas assim, não fazia parte das minhas qualidades. Até isso me faltava.
    -- Pronto – disse após dar um nó para prender os pedaços de folha na canela. Embora o trabalho não tenha ficado lá essas coisas, percebia-se um resultado razoável, capaz de se não resolvesse o problema pelo menos imobilizaria em parte o pé contribuindo assim para uma recuperação mais rápida.
    -- Ufa! Ainda bem. Já não aguentava mais – exclamou ela.
    -- Isso vai te ajudar a recuperar depressa – disse Marcela levantando-se, que até então permanecera agachada ao meu lado. -- A gente não sabe quando vamos ser resgatada.
    -- Se é que vamos – obtemperou Luciana.
    -- Claro que vamos. E num vai demorar – declarou Ana Paula que, devido à inimizade com Luciana, mantinha-se recostada à entrada da cabana assistindo com certo deleite o sofrimento da outra.
    -- Espero que você esteja certa – falei, -- porque eu lá tenho as minhas dúvidas.
    Houve um pequeno debate onde a posição de cada um de nós sobre o resgate ficou bem clara. Tanto eu quanto Luciana era partidário de que as buscas por nós haviam cessado enquanto que Ana Paula não aceitava isso e insistia que estavam a nossa procura e que seríamos encontrados em mais dois ou três dias. Marcela por outro lado mantinha uma posição dúbia. Ora concordava comigo e Luciana, ora apoiava a posição de Ana Paula. Aliás, com o passar dos dias acabou aceitando que tanto eu quanto Luciana estávamos com a razão.
    Aliás, nesse ínterim esqueci por completo o incidente de mais cedo, o qual me levou a retornar para a cabana com o coração escapando pela boca. No entanto, quando Marcela e Ana Paula anunciaram que dariam uma volta pela ilha, a lembrança daquele som que eu não sabia do que se tratava veio-me à memória e, como ocorrera ao ouvi-lo, um filete de gelo percorreu-me a espinha. E se não fosse isso, talvez teria acompanhado as duas, mas faltou-me coragem. Assim permaneci quieto e compenetrado em meus pensamentos.
    Partiram.
    – O que foi? Você parece meio esquisito – quis saber Luciana, deitada a minha frente, pois ainda permanecia agachado ao lado do pé lesionado.
     – Nada não.
    – Como não? Pensa que não te conheço? Vai. Não seja bobo. Desembucha logo – insistiu, fazendo esforço para sentar.
    Relutei em contar. Contudo, mesmo impossibilitada de se mover, Luciana exercia poder sobre mim, talvez porque eu já começava a me acostumar com aquela condição. Assim, não me restou outra alternativa a não ser contar-lhe.
    – Mas você com essa história de novo! Nós já não demos uma volta por aí e não achamos nada?
    Anui.
    – Então? Isso é fruto da sua imaginação, só isso! Você só se assustou da primeira vez e agora qualquer barulho te deixa com medo. Vem cá, meu bebezinho – disse ela estendendo um dos braços e pegando-me na mão. – Não precisa ficar com medo – acrescentou. Pensei em recusar; contudo, suas palavras dominavam feito o canto de uma sereia, o que me acabou puxando para ela. Súbito estava nos seus braços feito uma criança assustada no colo da mãe. – Eu não vou deixar que nada te aconteça. É só você ser um bom menino e me obedecer.
    Por um momento eu realmente me senti confortado e seguro. E embora aquela lembrança me continuava viva na memória, nos braços de Luciana, com o rosto colado nos seus seios, ela não me parecia mais tão assustadora. Aliás, cheguei até mesmo a duvidar que houvesse escutado algum som estranho. Talvez eu tenha me enganado e, sob a influência do medo, tenha imaginado tudo aquilo. “Vai ver que ela tá certa! Vai ver que eu ando imaginando coisas mesmo!”, pensei. No entanto, eu não estava certo de nada. Possivelmente, quando estivesse sozinho, não teria a mesma opinião e então meus temores me causariam novos calafrios e eu voltaria achar que havia alguma coisa naquela mata a nos observar.
    – Vem cá. Deita aqui do me ladinho – pediu ela. – Quero te abraçar. Me sinto tão sozinha e abandonada nesse estado. Você não faz ideia. É horrível não poder sair por aí como aquelas duas – começou ela a se lamentar. – Pelo menos a gente se distraia um pouco, não ficava pensando nos nossos familiares e não sentiria tanta falta de casa. Eu me sinto como um animal preso, enjaulado. Ah, meu anjo! É tão horrível. – Era a primeira vez a ouvi-la me chamar assim, de forma tão carinhosa e com uma ternura que me tocou o coração. Senti pena dela e naquele momento esqueci por completo não só tudo que me fizera como também as ameças com relação à Marcela. – Ainda bem que tenho você para me ajudar a suportar tudo isso. Quando você está assim tão juntinho de mim eu me sinto a mulher mais feliz e poderosa do mundo.
    Ergui a cabeça e olhei-a nos olhos. Brilhavam como eu nunca tinha visto. Por um momento achei que ela fosse chorar, todavia abaixou a cabeça e aproximou seus lábios dos meus, beijando-me ardentemente. Confuso e impotente, pois não esperava aquele tipo de reação por parte dela, só não deixei-a me beijar como correspondi ao beijo, abraçando-a fortemente.
    Foi mais um erro, um erro gravíssimo. Mas como evitá-lo. Era um garoto bobo, inexperiente, muito aquém da esperteza dela. Como eu poderia saber que por trás daquelas belas e comoventes palavras havia uma segunda intenção. Hoje eu sei que muitas mulheres fazem esse jogo porque é uma das formas mais eficientes de enganar o homem, pois estes se iludem facilmente como tais palavras, achando que têm o dever de amparar o sexo frágil, quando na realidade não há fragilidade alguma. Embora sem condições de sair daquela cabana sozinha, Luciana sabia como poucas me manter no cabresto. Aliás, essa é a única explicação para eu não a tenha deixado ali, sozinha, quando, aproveitando que estava em seu poder, levou-me a mão a suga e empurrando-a para baixo, disse com naturalidade:
    – Deixa eu ver como está o meu brinquedinho. – Pegou-me no pênis encolhido e acrescentou: – estou com saudades de você. Quando eu estiver melhor a gente vai brincar muito, muito mesmo.
    Tentei puxar-lhe a mão e cobri-lo novamente. No entanto, ela disse:
    – Não, não. Ele é meu! E brinco com ele o quando quiser. Não é, minha coisinha fofa, deliciosa? -- falou. Súbito porém acrescentou: -- E se eu desconfiar que uma daquelas vadiazinhas andou brincando com você, eu te arranco com uma mordida. Tá entendendo? – Ao proferir tais palavras, fez questão de apertá-lo a fim de me provocar dor.
    Senti medo. E fiquei tão amedrontado quanto ficara ao ouvir aquele som vindo da floresta. Todavia, o medo não era de um castigo divino ou coisa parecido, mas por temer não só pelo meu futuro como pelo de Marcela e Ana Paula naquela ilha se por ventura precisássemos ficar ali por muito tempo. Se levássemos semanas ou meses longe da civilização, mais cedo ou tarde a barbárie acabaria despertando nela e as consequências seriam inimagináveis. Assim, tomado pela impotência, deixei que ela continuasse.
    – Faz ele ficar grande – pediu.
    – Para quê? Você num pode fazer nada – argumentei.
    – Não importa. Quero ver ele grande. Não gosto dele assim. Acho muito esquisito e feio. Ele deveria ficar sempre grande. É tão bonito. Não todo enrugado e encolhido assim, feito uma coisa morta. – Luciana continuava a brincar com meu pênis, ora balançando-o de um lado para outro, ora empurrando e puxando o prepúcio. Aliás, ela parecia sentir algum prazer nisso.
    – Não consigo – respondi.
    – Claro que você consegue. Chupa meus peitos e se concentra. Pensa que não sei que é assim que funciona? Com a gente é assim. Eu fico quando você me acaricia e chupa eles. Com vocês também não deve ser diferente. Foi assim que fiz o Paulinho ficar de pinto duro. Parecia contigo. Tinha a tua idade e era tímido que nem tu é. Ele quis escapar mais segurei ele. Quando levantei a camiseta e mandei ele chupar meus peitos, o pinto dele cresceu rapidinho. Era um pintinho fino e cumprido, mais e mais rosado que o teu. Se a gente tivesse mais tempo acho que tinha deixado ele enfiar em mim. Mas eu só queria ver e pegar.
    Obedeci. E de fato aqueles mamilos nos meus lábios deram resultado. Vendo-o crescer sentiu-se satisfeita e exclamou:
    – É tão bonito ver ele ficar grande. Parece uma coisa mágica. Parece que ele não vai parar nunca de crescer. Mas aí ele para e se torna tão duro. Nem parece que agorinha era uma coisa horrível e todo mole.
    Continuou a observá-lo enquanto mexia aqui e ali. Houve um momento em que o soltou e agarrou-me os testículos como já fizera uma vez. Então apertou um e depois o outro entre os dedos. Súbito, indagou:
    – É daqui que sai aquela coisa que chamam de “esperma”, não é?
    – Não sei. Acho que sim – respondi. De fato não sabia. Era o tipo de garoto, talvez por ser ainda muito jovem, que não se preocupara em conhecer a fundo como se engravidava uma mulher e nem de onde vinha o “aquilo que saia de mim” quando me masturbava. Suspeitava que poderia ser dos testículos, mas não estava certo.
    – Como não sabe! Todo homem deveria saber. Como você pode ser tão ingênuo assim, garoto? Em que mundo você vive?
    Luciana parecia indignada. Eu por outro lado jazia com as faces em brasa de vergonha, por não saber algo que ela me fazia acreditar que tinha a obrigação de saber. Talvez se sua mão não me segurasse firmemente os testículos, eu teria me levantado e a deixado sozinha. Mas se tentasse escapar, ela os agarraria e então a dor seria insuportável. Assim, esperei que os soltasse, o que de fato aconteceu pouco depois. Então me levantei.
    – Onde você pensa que vai?
    – Vou pegar alguma coisa pra comer. Tô ficando com fome – respondi.
    Luciana me atirou seu olhar faiscante, como se sentisse enganada e declarou:
    – Mentira. Sei muito bem o que você vai fazer.
    – Não. Num vou fazer nada.
    De fato não mentira. Embora tenha usado uma desculpa para me afastar, não pensava em me masturbar. Só não queria mais ficar ali, em suas mãos, sendo tocado como um boneco de luxo que quando ela cansa de brincar atira-o num canto até que sente vontade novamente.
    – É sim – disse ela quando me viu sair da cabana. – Vem cá – chamou. – Deixa e fazer para você. Vai ser mais gostoso.
    Não lhe dei ouvidos. Apanhei a vara de pescar e virei em direção às pedras, onde ela se machucara no dia anterior. Ao me afastar, ainda pude ouvi-la dizer:
    – Volte aqui, Sílvio! Se você não quer que eu faça então eu deixo você pôr ele em mim. Eu também quero. Tô morrendo de vontade dele.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

MINHA ALMA POR TI DOMADA

Uma coisinha tão linda assim
Deve ser fruto da minha imaginação
Ou meus olhos estão enfim
Completamente cegos de paixão

Mas o que posso eu fazer agora
Se meus olhos não enxergam nada
Além desta delicada flor de amora?
Sim, minha alma está aprisionada

Pareço viver um sonho sem fim
Ao alimentar o meu pobre coração
Com tua beleza e frescor. Enfim,
Só você me dá ao viver uma razão

Portanto, não parta, não vá embora
Seja a minha eterna namorada
Eu te amarei sempre, como agora

Que tenho a alma por ti domada...

terça-feira, 25 de março de 2014

NOVA MARCHA DA FAMILIA: UM DESVARIO

Para comemorar os 50 anos do Golpe Militar que derrubou o ex-presidente João Goulart estão programadas uma série de passeatas com o objetivo de reviver a “Marcha da Família com Deus”, a qual foi o estopim para a tomada do poder pelos militares. Os organizadores do movimento querem, como em 64, que as forças armadas derrubem o atual governo e instaure uma ditadura militar. A alegação desses saudosistas é, de um lado, a de que a presidenta Dilma pretende, após as eleições, instaurar uma ditadura Comunista no Brasil e, de outro, que a corrupção está generalizada e só um governo militar pode findá-la. Há ainda uma outra parte desse movimento -- conservador e de orientação religiosa -- que prega o retorno dos preceitos morais e do bom costume. É inegável que se trata de um movimento promovido por saudosistas e dir-se-ia lunáticos, cuja visão da realidade é distorcida e deficiente. Qualquer pessoa em sã consciência não levaria essas pessoas a sério, mas num país onde a democracia e liberdade de expressão permite que qualquer um possa expressar suas ideias -- embora os integrantes desse movimento querem, por incrível que pareça, o fim dessa liberdade, liberdade essa que permite possam exercer seu direito de se manifestar, ou seja: querem cuspir no prato que comem -- esse tipo de coisa acontece. Quanto aos argumentos dessa gente, não têm fundamento. É de um desvario sem tamanho acreditar que Dilma ou qualquer outro postulante ao Palácio do Planalto queria instalar um governo comunista no Brasil. Já está mais do que provado que o comunismo é um sistema político utópico e se praticado insustentável, o qual só trás atraso econômico e autoritarismo, não por culpa do sistema, mas por causa do ser humano cujas razões não vêm ao caso. Quanto à corrupção, é preciso reconhecer que esta se encontra em todas as esferas da administração pública; entretanto, o problema não é esse ou aquele governo e sim do sistema. Hoje, tem-se uma maior percepção de que a corrupção aumentou vertiginosamente por dois motivos: o primeiro é que de fato ela pode ter aumentado; e o segundo -- o mais importante -- é fruto da liberdade, uma vez que a imprensa tem toda a liberdade de investigar e denunciar qualquer mal feito, diferentemente do que ocorreu durante o Regime Militar, onde os órgãos de repressão não só inibia a qualquer tentativa de investigação como agia com brutalidade para que as denúncias não viessem à tona. A história está repleta de exemplos que mostram que os regimes ditatoriais são bem mais corruptos que os democráticos. E por fim, há o argumento de que é preciso resgatar a moral e os bons costumes. Não há duvida de que se tratam de pessoas extremamente conservadoras e preconceituosas que se sentem desconfortáveis diante do homossexualismo e das liberdades individuais presentes nos dias atuais e veem isso como uma degeneração humana. Gostemos ou não, a humanidade vive uma nova realidade, talvez um período de transição e por isso essa sensação de impotência e aceitação de uma nova realidade, e não vai ser uma tentativa de volta ao passado que resolverá o problema; até porque o passado não volta.

segunda-feira, 24 de março de 2014

QUANDO A RAZÃO FAZ BEM


As palavras que me norteiam a alma
Na verdade, eu prefiro esquecer
Elas não me proporcionam calma
E só me trazem a ira e fazem sofrer

Os desejos que me trazem desrazão
Na realidade, eu prefiro deslembrar
Eles não me trazem paz ao coração
E só me fazem odiar e desprezar

As palavras e os pensamentos podem
Levar os homens a cometer insanidades
Que de posse da razão não as cometem

Por isso, eu ofereço à minha dor a cura
E não cedo ao impulso da animalidade
Pois este finda, mas o ato porém perdura