quinta-feira, 23 de maio de 2013

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 37

Embora não me fosse a primeira vez a entrar naquela mata, só o fato de ter de voltar ali para procurar uma vara para pescar, causava-me calafrios. E quando demos os primeiros passos para adentrá-la, seguindo a mesma trilha pela qual passamos há dois dias, não só a lembrança daquele som vindo não sei de onde, o qual quase me fizera morrer de medo, como também a imagem de um ser monstruoso me fizer as pernas bambearem. E nem mesmo Luciana ao meu lado deixava-me com menos medo, pois o medo independe de termos ou não alguém para nos proteger. Quando se instala em nós, a presença de outrem ou as mais convincentes provas de que não há nada a temer pouco ou nenhum efeito tem sobre o medroso, pois o medo é como o ciúme: preferimos acreditar em nossa fantasia do que nos fatos. E para ser sincero, Luciana, vendo-me reticente, com os olhos e ouvidos mais que atentos, feito um cão caçador ou como quem espreita o inimigo, insistia de forma um tanto jocosa, chamando-me de fracote e bichinha, para deixar de bancar o idiota pois não havia nada ali.
Para não mais ser humilhado, procurei me controlar, embora só externamente, e passei a concentrar na busca de algo para fazer a tal vara de pescar. Sabia não ser difícil encontrar uma, pois em alguns pontos, misturado aos grandes troncos, encontrava-se árvores ainda muito jovens, com pouco mais de um metro de altura e cujos troncos tortos não me serviam. E foi tão somente há alguns metros dali, numa pequena subida mais acentuada que avistei o que estávamos a procurar.
-- Ali! – apontei. -- Achei!
Luciana sem me esperar correu por entre a vegetação, como que desembestada. Na pressa, a peça inferior do biquíni prendeu-se num galho caído ao chão, arrebentou-se e desprendeu-se-lhe do corpo. Vi quando ela tentou segurá-lo, mas este ficou dependurado alguns centímetros de seu corpo.
-- Merda! -- Foi a única coisa que disse antes de apanhá-lo para ver onde havia rompido. E após examiná-lo disse: -- Arrebentou bem aqui. Não sei se vai ter jeito. Já está ficando podre, isso sim!
-- E agora? -- perguntei ao me aproximar.
-- Por enquanto vou ter que ficar assim. Quando chegar na cabana vejo com as meninas se tem como dar um jeito. Se não tiver paciência – asseverou ela com naturalidade, como se andar nua aos olhos de todos não lhe causasse nenhum embaraço.
-- Mas você vai andar assim, pelada?
-- E qual o problema? Se tivesse de quem esconder ela, seria de você. Mas... Bem... De você não tem mais o que esconder, né? -- deu uma risada. -- Você já até comeu ela, né, safadinho? -- Mais uma vez Luciana não perdeu a oportunidade de fazer piadas. Parecia-me que ela sentia prazer em me deixar envergonhado. -- Além do mais. Não dou mais três dias para o biquíni delas caírem aos pedaços. A tua sunga é que vai durar um pouco mais. Até é melhor. Não quero aquela franguinha da Marcela de olho nesse troço aí. -- Vermelho eu estava e mais ainda fiquei. -- O que foi? Só porque falei nele e você já ficou todo cheio de vergonha? -- Num movimento rápido e inesperado, agarrou-me a sunga e puxou-a para baixo. -- Não é meu brinquedinho? Já te avisei. E não tente me enganar. Enquanto a gente estiver nessa ilha, e pelo jeito vamos ficar aqui por um bom tempo, ele é só meu. Se você transar com aquela idiota, sou capaz de quebrar ela toda. Viu bem? Nem tente! -- Ameaçou ela mais uma vez, olhando com olhos faiscantes, como que possuída por uma raiva incontrolável.
-- Não vou tentar – menti, após um breve silêncio.
Ah! Como me custou proferir tais palavras, mesmo não sendo sinceras. Talvez o aperto no coração me fosse tanto ou maior do que no peito daquele crente fervoroso que, para salvar seus entes queridos, renega a própria fé. Se havia alguma dúvida quanto a impossibilidade de tentar alguma coisa com Marcela, estas se reduziam a cada dia. Luciana estava conseguindo nos separar, e eu sabia disso. Por amá-la não poderia por a sua vida em risco. Luciana era capaz de cumprir suas promessas, pois não havia nada a impedi-la disso.
-- Também não sei o que você viu naquela fedelha. -- Enquanto falava, Luciana desatou a parte superior do biquíni e, inteiramente nua, acrescentou: -- Olha os meus peitos! Não são maiores e mais bonitos que os dela? Veja como são volumosos. -- Olhei. Não havia outra coisa a fazer. Súbito, virou de costas e voltou a fazer comparações. -- E minha bunda? Também não é maior? Mais bem delineada? -- Lembro-me desta palavra porque era a primeira vez que a ouvia. Delineada. O que ela queria dizer com delineada? Tive vontade de perguntar-lhe, mas a timidez não deixou. -- Agora olha para ela – pediu virando-se de frente. -- Duvido que ela tenha uma assim, igual a minha. Vai ver que nem pelos tem ainda. Você não gosta dela?, de enfiar ele nela?
Não respondi. Apenas fitei-lhe as partes íntimas por alguns instantes e, como quem tenta mudar o rumo da conversa a qual o desagrada, parti em direção à fina, comprida e jovem árvore, a qual seria quebrada rente ao chão e transportada até a cabana, onde, com o auxílio da “faca”, apontada numa das extremidades para que pudesse fisgar peixes. Luciana por sua vez não desistia, parecia obstinada em me seduzir e fazer comigo o que não conseguira mais cedo. Talvez estivesse excitada, com as chamas da volúpia a queimar-lhe as entranhas. Embora essa possibilidade não me tenha passado pela cabeça em nenhum momento enquanto estávamos ali, hoje não vejo outra explicação para tanta insistência. Dizem que existem mulheres piores que homens, cujo fogo entre as pernas é uma chama constante, incapaz de ser apagada.
-- Só de me ver assim ele não cresce? -- perguntou.
-- As vezes – respondi. Embora muitas mulheres podem até pensar que a nudez feminina é suficiente para excitar um homem, isso nem sempre é verdade. Muitos homens, principalmente os mais jovens, realmente não precisam de tanto. Um par de seios a mostra, uma roupa sensual já é o bastante para incitar a imaginação. No entanto, é preciso uma predisposição para isso. Qualquer coisa capaz de impedir a fixação na fonte de excitamento impede que as imagens sejam processadas pelo cérebro e os mecanismos que provocam o excitamento disparados. No meu caso, o que impedia era o medo, o medo de estar naquela mata e súbito deparar com não sei o que. Por mais que tentassem me convencer de que ali não havia nada, por mais que houvéssemos penetrado naquela floresta dois dias atrás a procura de algo e nada encontrado, ainda sim mantinha a convicção de haver algo horripilante a espreita, pronto para nos arrebatar. E não seria Luciana, Marcela ou todas elas juntas quem me excitariam naquele lugar com a sua nudez. Poderiam insistir o quanto quisessem., todas as tentativas seriam em vão.
-- O que tenho que fazer para ele crescer?
-- Nada.
-- Como nada? Ele não cresce sozinho, que eu sei – tornou ela, pegando-me no pequenino e encolhido falo, tão encolhido quanto um animal amedrontado. -- Se mexer com ele assim, ele não cresce?
-- Não. Para! Num quero – pedi, empurrando-lhe a mão.
-- Por que você não quer? Você não gosta de fazer comigo?
-- Não é isso.
-- É o que então? -- indagou ela com irritação.
-- É que estou com medo. Sei que tem alguma coisa aqui dentro dessa floresta. Sinto que estamos sendo observados.
-- Você de novo com essa história. Ô moleque idiota! Estou começando a achar que você está usando isso como desculpa para não transar comigo. É isso?
-- Não. Não é.
-- Não mesmo! -- insistiu.
-- Já falei que não.
-- Então se o problema é esse, apanha logo essa vara e vamos sair daqui. Lá na arei você não terá do que ter medo.
Obedeci. Enquanto tentava arrancar a arvorezinha, pois tombara-a de um lado para outro sem sucesso, pensava numa forma de escapar quando retornássemos à faixa de areia. Correr não daria certo. Só faria aumentar sua raiva e mais cedo ou mais tarde me pegaria as sós e então estaria em suas mãos. Minha única chance -- embora pequenina -- era deparar com uma das meninas. Como aquela trilha não era muito distante da cabana, talvez Ana Paula ou Marcela tivesse saído para uma caminhada. E se encontrássemos com uma delas, Luciana não poderia me culpar.
Depois de muito insistir e com a ajuda de Luciana conseguimos arrancar a tal vara. Quebramos os galhos ali mesmo e tomamos a trilha de volta.
No caminho, ainda lhe perguntei:
-- Não vai cobrir os peitos?
-- Não. Para que?, se embaixo não tem nada tampando? Fica até esquisito. Agora vou ficar é assim feito Eva. Não era assim, meu Adão, no paraíso? Não é isso que está escrito naquela história idiota da bíblia?

sábado, 18 de maio de 2013

O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA (NIETZSCHE)

O Nascimento da Tragédia não é só a primeira obra publicada por Nietzsche, mas é também onde o jovem Nietzsche começa a expor aquilo que seria a base de toda a sua filosofia e o que seria nas obras posteriores aprofundado. Assim o leitor que abre as páginas desse pequeno livro, deparará com a oposição entre o apolíneo (forma, beleza visual e compreensão racional) e o dionisíaco (horror, êxtase, sensualismo, frenesi irracional), o conceito de arte e o que esta representa para um povo, a crítica ao racionalismo, ao platonismo e consequentemente ao cristianismo. Por outro lado, ainda profundamente influenciado por Richard Wagner e por Schopenhauer, acreditava na recuperação da cultura moderna, a qual considerava decadente, a partir da cultura grega. Basicamente, a obra traz à tona, de um lado, uma interpretação nova e original da tragédia e da cultura grega e a influência da arte na valorização da vida através do apolíneo e do dionisíaco; de outro lado, a crítica ao racionalismo moderno tem como contraponto a música de Richard Wagner, no qual Nietzsche vê como um restaurador da cultura grega e aquele capaz de disseminá-la na cultura alemã. Apesar da inegável influência de Schopenhauer, Nietzsche nessa primeira obra já combatia a resignação pessimista e a negação da vida do pensador alemão, para o qual a vontade é a fonte de todo o sofrimento. A reconciliação entre Apolo e Dionísio e as consequências disso para a cultura moderna é o tema dos últimos capítulos.

domingo, 5 de maio de 2013

A MORTE DE CICLISTAS NO TRÂNSITO

A morte de ciclistas em acidentes de trânsito vem chamando a atenção dos meios de comunicação nos últimos dias. Não por esse tipo de acidente ter aumentado e sim devido ao fato de em um dos casos a vítima, o ciclista, ser um atleta e a cidade a sede da próxima olimpíada. Embora este tipo de acidente seja frequente, principalmente nos centros urbanos onde o há um grande volume de bicicletas, é inegável ter aumentado muito nos últimos anos. E a explicação para esse aumento é compreensível. De um lado, o aumento da frota de veículos; e do outro, o aumento de ciclistas. No primeiro caso, o aumento se deu devido a melhora na renda da população e aos incentivos fiscais que possibilitou a um número muito grande de pessoas comprar um automóvel; no segundo caso, o aumento de bicicletas nas ruas tanto é consequência da melhora nas condições financeiras das pessoas quanto fruto do aumento da frota de veículos, que fez com que as pessoas optarem por uma moto ou bicicleta a fim de escapar dos enormes congestionamentos. No entanto, isso por si só não explica o aumento dos acidentes. Há que se considerar outras variáveis. E dentre estas podemos citar a inexperiência tanto dos novos motoristas quanto dos ciclistas. Que há bem mais motoristas e ciclistas despreparados no trânsito hoje em dia não resta dívida. Principalmente motoristas, os quais ao adquirir um carro pela primeira vez saem das autoescolas sem condições de lidar com as mais variadas situações no trânsito, sem contar aqueles que tiram carta no passado e só agora tiveram a oportunidade de comprar um carro. Por outro lado há o ciclista que ou por pura ignorância ou por achar que, por ser um ciclista, não deve respeitar o mínimo do mínimo das leis de trânsito. Não trafegar na contramão ou cruzar uma rua sem antes ver se não vem um veículo lhes parece a coisa mais natural do mundo. Aliás, não querendo por toda a culpa nos ciclistas, até porque em muitos casos o motorista é o responsável pelo acidente, a falta de uma educação no trânsito leva os ciclistas a cometerem absurdos, onde o motorista não pode fazer nada para impedir o acidente. Não querendo generalizar, até porque há uma pequena minoria de ciclistas que respeitam as normas de segurança, mas uma grande maioria dos ciclistas ignoram completamente a faixa exclusiva para eles, circulando no meio dos carros e muitas vezes contra a mão como se ali do lado não houvesse uma faixa para a circulação de bicicletas. Por outro lado, os motoristas não parecem compreender que na mais das vezes um ciclista no trânsito é um veículo a menos, tornando o trânsito menos congestionado. Portanto, um ciclista não é um inimigo ou alguém que simplesmente está atrapalhando o trânsito. E por último, as vias publicas da maioria das cidades não foram planejadas pensando nos ciclistas, mas sim nos motoristas e depois nos pedestres, o que não dá muita opção ao ciclista. Aliás, mesmo onde há ciclovias, estas em muitos casos são mal sinalizadas e conservadas. De forma que a culpa pelos acidentes de trânsito envolvendo ciclistas e motoristas é de todos, principalmente do poder público que além de não fornecer condições adequadas para os ciclistas não possui um política de educação para o trânsito, ensinando, desde os primeiros anos na escola, as nossas crianças a respeitarem as leis de trânsito e principalmente o seu semelhante.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

UMA DOR QUE TEIMA EM NÃO CESSAR

A saudade que me atravessa o peito 
É uma dor que me faz sangrar 
Pelos olhos. Sinto-me imperfeito 
Já que tal sentimento não sei controlar. 

Talvez essa paixão tão intensa assim 
E a qual me faz odiar as horas 
Seja fruto dessa saudade sem fim 
Que me assola quando ela vai embora. 

Amá-la tanto: eis o meu grande defeito! 
Talvez nem seja como o ato de amar 
Mas fruto duma loucura que de qualquer jeito 
Traz uma dor que teima em não cessar. 

O desespero e a confusão são enfim 
Quem me acompanham até altas horas 
Naqueles dias que sem ela, são sem fim 
Que só findam com o adormecer na aurora

sábado, 27 de abril de 2013

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 36

É possível que eu tenha corrido uns cinco minutos antes de tomar ciência de que, se continuasse, acabaria dando voltas na ilha. Só então parei e, confuso, comecei a atinar acerca do que fazer; pois ficar plantado ali também de nada adiantaria. Olhei para trás e nenhum sinal da Luciana. “Ela não me seguiu”, conclui. “Voltar para a cabana? E o que vou dizer para as duas?”, indaguei-me, sentando sobre a areia para recuperar o fôlego. “Não posso chegar lá sem as goiabas. Vou ter que voltar. Elas estão esperando...”, continuei a pensar. Aliás, estava mais preocupado em não retornar de mãos vazias e em ocultar o incidente do que com o que a Luciana poderia fazer comigo. Só alguns instantes depois, quando principiei a retornar, o temor de encontrá-la me impeliu para trás feito um vento contrário.
O medo, na realidade, não era de um ato violento, de uma agressão física ou coisa parecida e sim do seu julgamento. Se ela rira de mim por causa do tamanho do pênis, o que não faria agora que fugira dela? “Idiota! Como pude bancar o idiota?” Seu riso, seu escárnio seriam como punhaladas no peito, um ferimento mortal no meu orgulho masculino. Contudo, não retornar, não encará-la seria ainda pior. E já que teria de fazê-lo, então que o fizesse enquanto estávamos as sós; pois na frente das meninas ser-me-ia ainda mais humilhante e insuportável, seria dar o passo definitivo para a minha desgraça. Não, não. Antes sucumbir sob a espada do inimigo do que suportar o peso da covardia.
Luciana parecia ter adivinhado que eu retornaria. Cerca de quinhentos metros depois, onde jazia as goiabeiras, estava ela de pé, com as mãos sobre os quadris, olhando para cima, aparentemente procurando as frutas entre as folhas verdes. Embora parecesse compenetrada, viu-me aproximar cabisbaixo, feito um cãozinho que, após uma travessura, sabe que será castigado.
-- Voltou, seu fracote! -- Foi o que me disse quando parei ao seu lado.
-- Eu não sou fracote – respondi, ainda sem coragem de olhá-la de frente.
-- Não. Então o que é então? E por que fugiu de mim? -- Luciana olhava-me com uma expressão de fúria, feito aquele que, provocado ao extremo, age como se estivesse pronto a agredi-lo violenta e irracionalmente.
-- Porque você ficou rindo do meu pinto – respondi, extremamente envergonhado.
-- Além de frouxo ainda é complexado! 'Tadinho dele!-- exclamou, soltando uma risada. -- E o que eu queria que você fizesse, seu idiota? Nunca tinha visto ele tão pequenininho assim – mostrou com os dedos. -- Até parecia com o do meu irmãozinho de oito anos.
Ah, querido leitor! Fiz o possível para me conter, para não não demonstrar mais fraqueza e ser ainda mais ridículo; contudo, não tive forças. E as lágrimas vieram, como se o choro fosse então uma forma de pôr para fora tudo que estava sentindo. E então danei a chorar feito uma criança pequena.
Luciana, de forma surpreendente, tomou-me nos braços, apertou-me fortemente e acariciando a nuca, pediu:
-- Pare, vai.... Desculpe. Não queria te magoar assim. Não fiz por maldade. Eu juro! Só achei engraçado ele tão encolhidinho. -- Houve um breve silêncio. Foi como se ela esperasse alguma resposta, alguma palavra de minha parte. Contudo, eu apenas tentava encontrar forças para conter o choro. -- Olha para mim – pediu ela, deixando cair os braços. Lentamente ergui a cabeça. Então Luciana enxugou-me as lágrimas carinhosamente, perpassando delicadamente os dedos ao longo da trilha formada pelas lágrimas. -- Vem! Vamos ver se a gente apanha algumas goiabas. Vi umas ali naquele pé – apontou, -- bem ali.
Com um sorriso, enxuguei os olhos e feito uma criança perdoada depois de ser severamente repreendida, corri em direção à goiabeira e perguntei-lhe em que galho ela vira as frutas. Luciana apontou e subi na árvore para apanhá-las.
No retorno à cabana, Luciana não fez referência ao incidente. Apenas fez comentários acerca da escassez de frutas. Disse que seria preciso pescar ao menos um peixão para matar nossa fome. Assenti prometendo-lhe fazer isso ao retornarmos.
-- Eu também quero aprender a pescar. Você me ensina? -- perguntou ela.
Titubeei num primeiro momento, contudo suas palavras meigas e a forma como ela pôs um ponto final àquele incidente me fez sentir na obrigação de retribuir-lhe tamanha gentileza. Digo isso com a certeza de não ter agido de outra forma. Toda a minha educação, amparada nos preceitos cristãos, fora no sentido de que o bem se paga com o bem. Contudo, hoje eu agiria de forma oposta. Por que retribuir um favor com outro? Um favor não é uma dívida, não é uma obrigação. Naquele momento porém acabei por responder:
-- Ah, sim! Ensino. Mas você vai ter que arrumar uma vara pra você.
-- Eu arrumo. Mas você vai ter que me ajudar a encontrar uma.
Só então percebi ter cometido um erro. Entrar naquela floresta novamente? Com ela ainda por cima? “E se ela quiser ver meu pinto de novo? E se quiser brincar com ele? Ele ficar grande e ela vai querer fazer aquilo”, pensei no momento em que entrava pela porta da cabana. Aliás, meus pensamentos desfizeram-se no ar quando olhei para Marcela que, deitava sobre a cama, brincava com uma concha provavelmente encontrada enquanto estive fora, desviou o olhar em minha direção e em seguida para Luciana. Parece ter percebido algo de estranho, sem no entanto fazer muito caso, pois em seguida voltou a atenção para concha. Aliás, ao chegar a essa conclusão, entristeci. Se ela não se importava com isso, só poderia ser porque também eu lhe significava muito pouco ou quase nada. “Sou um idiota mesmo!”, lembro-me de pensar. “Ela não está nem aí para mim”, conclui. E cabisbaixo sentei num canto enquanto Luciana depositava as goiabas sobre uma folha de bananeira usada para forrar o solo.
-- Só conseguimos essas – disse ela em seguida. -- O jeito vai ser você pegar um peixe – virou em minha direção – Isso não mata a fome de ninguém. -- E depois de uma pausa continuou: -- E você? Vai me ensinar a pescar ou não?
-- Vou sim – respondi de forma tímida, como que constrangido, pois tanto Ana Paula quanto Marcela ficaram surpresas. -- E vou ensinar vocês duas também. Assim a gente pode pegar bastante peixe.
Pois então foi a vez de Luciana olhar-me torto, com um olhar faiscante, como que enraivecida. Abaixei a cabeça e desconsertado, certo de que ela não ia deixar isso por menos. Então pensei: “Ela vai se vingar de mim...”

quinta-feira, 25 de abril de 2013

UMA OPORTUNIDADE PERDIDA

Ninguém em sã consciência não é capaz de reconhecer que o sistema político brasileiro -- fruto de uma Constituição parlamentarista, cujo sistema não foi aprovado no plebiscito de 1993 -- é distorcido e tem uma grave anomalia ao permitir tanto a criação quanto a eleição de pequenos partidos e cuja única finalidade é atender interesses escusos. Uma reforma política, a qual dificulta não só a criação desses pequenos partidos (tal qual a que está tramitando pelo Congresso) como também exige um cociente mínimo para que um partido tenha direito a assento no parlamento é de extrema necessidade a fim de acabar tanto com a ingovernabilidade pela qual o Brasil vem caminhando a cada eleição quanto com a corrupção e o toma lá dá cá, como a compra de parlamentares pelo PT no Governo Lula e a aprovação da emenda da reeleição no Governo Fernando Henrique Cardoso. Estes são apenas dois exemplos de como essas distorções fazem tão mal à democracia brasileira. Países tão distintos politicamente e de tão longa democracia como a Alemanha, os EUA e o Reino Unido entre outros adotam mecanismo que impedem partidos casuístas e inexpressivos de ocuparem cadeiras nos respectivos parlamentos. No entanto, no Brasil, qualquer um pode criar um partido; usar o prestígio pessoal; enganar os eleitores, os quais muitas vezes são analfabetos funcionais; e enfim se elegerem com o único objetivo de cuidar de seus interesses pessoais. E o projeto aprovado pela Câmara e agora suspenso pelo Ministro Gilmar Mendes a pedido do PSB, por suspeita de inconstitucionalidade, seria uma avanço. Contudo, a maneira como este foi e feito a sua rápida tramitação pelas comissões e pela Câmara dos Deputador, num momento em que novos partidos são criados, passa-se a sensação de que se trata de um casuísmo, o que na realidade é. Mas este é justamente o maior problema de nosso país: muitas vezes as leis (necessárias diga-se de passagem), cuja necessidade é de fato, são questionadas ou não entrando nem em vigor justamente pelo casuísmo, por essa pressa em aprová-las a fim de beneficiar alguém ou algum grupo. E talvez mais uma vez se está perdendo uma grande oportunidade de moralizar a forma de fazer política e tornar esse país governável e não refém de um grupo espalhado por pequenos partidos que não respeitam nem a identidade ideológica e muito menos o eleitor.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O NOSSO TALIBÃ

Muitos se indignaram (inclusive eu) com o fato de um pastor evangélico e declaradamente racista e contra os homossexuais ter assumido uma comissão que trata exatamente das questões dos direitos dessas minorias. Embora este tenha sido o caso de maior repercussão na mídia é bom lembrar que se trata tão somente da ponta de um iceberg. A questão é muito mais profunda e séria. É bom lembrar que o Brasil sempre esteve na vanguarda da tolerância racial e no respeito aos direitos dos homossexuais, inclusive durante o Regime Militar, onde o alvo não era essas minorias, mas os chamados “subversivos” ou aqueles de orientação marxista, os quais combatiam o regime. No entanto, com a redemocratização e com os partidos de centro-esquerda no poder, o alvo dos movimentos “religiosos” e de direita passaram a ser essas minorias. E para combatê-las, nada melhor do que o poder legislativo, onde as leis são feitas de fato. E foi aí que as igrejas, principalmente as evangélicas, se uniram não só para proteger seus interesses como para combater o homossexualismo, o aborto e a “imoralidade que se abateu sobre a sociedade brasileira”. Um prova de que essa estratégia vem dando resultado é o fato de o Brasil ter ficado para trás nessas questões, sendo ultrapassado inclusive por Argentina e Uruguai onde o união civil de pessoas do mesmo sexo tornou-se lei. E para mostrar o quanto o Brasil caminha para trás, a bancada evangélica (sempre ela) quer proibir que solteiros entre em motéis. O projeto é de autoria do deputado Josias Macieira (DEM-TO) que estabelece a obrigatoriedade da apresentação da certidão de casamento nas recepções de motéis. Não, isso não é piada! Pelo jeito querem transformar o Brasil numa Arábia Saudita, num Irã ou num Afeganistão. Aliás, se o Afeganistão tem o seu Talibã, pelo jeito o Brasil também tem o seu: os fundamentalistas evangélicos. E do jeito que eles vem atuando nos bastidores e usando as igrejas para enganar o povo, em poucos anos voltaremos à Idade Média, a mesma que muitos países do Oriente Médio vivem mergulhados.