segunda-feira, 27 de abril de 2015

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 57


Naquele final de noite fez-se de fato uma reunião com o intuito de selar a paz entre nós. A reunião foi iniciada por Marcela e ao final ficou decidido que não haveria mais discórdia entre as meninas, embora pude perceber no olhar de Luciana, o qual me era dirigido constantemente, que na primeira oportunidade ela romperia o acordo. Ficou decidido também que, devido a pouca possibilidade de sermos resgatados nos próximos dias (ainda não se falava abertamente no fim das buscas), faríamos uma boa melhora na cabana, tornando-a mais aconchegante a habitável, já que esta seria por um bom tempo o nosso lar. Todos, inclusive Luciana, que ainda não havia melhorado totalmente do pé, teria de ajudar. Não haveria privilégios e exceções. E por último, ficou decidido que vasculharíamos a ilha a fim de encontrar pedaços de metal para que usássemos como ferramentas ou que pudessem ser usado para fabricá-las; aliás, essa proposta partiu de Marcela em seguida a decisão de melhorar a cabana, quando indaguei como faríamos para cortar madeira para construir os alicerces, no que Marcela propôs encontrarmos pedaços de metal e derretê-lo. Lembro-me inclusive de suas palavras:
-- Claro que metais são pesados e afundam. Portanto eles não iam chegar aqui, mas algum pedaço preso à madeira ou a um pedaço de barco ou até mesmo deixado aqui por alguém. A gente já sabe que essa ilha já foi visitada. Pregos velhos e enferrujados. Devem ter alguns poi ai, enferrujados, mas mesmo assim servem.
E de fato ela estava com a razão. Foram encontrados por minha prima pouco mais de meia dúzia deles pregados numa tabua que a maré deva ter trago há alguns anos. Marcela achou um pedaço de chapa presa a um pedaço de pau, provavelmente destroços de um barco pesqueiro que naufragara ali perto. E nos dias seguintes, mais pregos, parafusos e mais um pedaço de metal medindo cerca de dez centímetros quadrados foram achados. Aliás, este último foi fruto de um golpe de sorte, uma vez que só pode ser encontrado porque Ana Paula estaca cavando a areia para fazer um castelo quando deparou com algo duro. E, ao cavar para ver do que se tratava, descobriu-se o pedaço de ferro.
Recolhemos tudo que achamos naqueles dois dias e então tornamos a nos reunir para decidir o que fazer. Eu não fazia a menor ideia de como derretê-los, pois sabia que aquele fogo brando da fogueira, a qual mantínhamos acesa desde a chegada à ilha, não serviria para nada. Luciana e Ana Paula chegaram inclusive a dizer que não seria possível derretê-los. Marcela por outro lado insistiu que se fizéssemos uma fogueira maior talvez desse certo, pois quanto maior a fogueira maior o calor. Isso inclusive gerou um princípio de discussão entre ela e Luciana, onde tive de intervir, relembrando-as da promessa feita há dois dias no sentido criar desavenças.
Os ânimos se acalmaram, mas era evidente que não por muito tempo. Luciana, possivelmente tomada pelo ciume, não suportava a outra. Uma nova briga era questão de tempo. Uma discordância ou uma palavra mais ríspida por parte de Marcela certamente levaria Luciana a iniciar um bate boca e quiça partir para a agressão, ainda mais agora que estava boa do pé e ela já conseguia andar embora se forcá-lo muito.
De fato Luciana e Ana Paula estavam com a razão. Levei ao fogo os pregos sobre a chapa de metal e deixei-os por mais de meia hora e não derreteram, mesmo colocando mais madeira a fim de aumentar o fogo e o calor. Realmente o calor aumentou, tanto que não conseguimos ficar tão próximos da fogueira como ficávamos antes, mas não deu resultado. Houve inclusive o temor de que o fogo pudesse atingir os pedaços de madeira que sustentavam a cabana. Assim, tanto os pregos quanto os dois pedaços de ferro foram deixados do lado de fora da cabana até o dia seguinte, na esperança de que encontrássemos uma utilidade para eles. Aliás, naquela noite mesmo, após aquela tentativa fracassada de derretê-los, Marcela sugeriu tentarmos novamente no dia seguinte, mas agora construindo com pedras uma espécie de fornalha e, ao invés de usarmos gravetos como vínhamos fazendo, usarmos pedaços mais grossos de árvore. A questão era que não havia como cortarmos as árvores.
-- Por que a gente não tenta amolar esse pedaço de ferro maior? É só você ir esfregando uma pedra dum lado dele que ele vai amolar. Depois a gente tenta usar ele para cortar um pedaço de árvore mais grosso – propôs Luciana. -- Eu te ajudo a cortar.
-- Podemos tentar – respondi.
E assim foi feito. Levei um dia e meio para conseguir afinar um dos lados da chapa de ferro, já que a mesma possuía cerca de um centímetro de espessura. Quando dei o serviço por terminado, jazia com as mãos machucadas e com os braços doloridos. E para compensar o meu esforço, houve uma salva de palmas, um parabéns para você e finalmente as três decidiram que eu ficaria na cabana descansando enquanto elas iriam em busca de algo para comermos, uma vez que naquele dia eu ainda não tinha ido pescar apesar de que tencionava fazê-lo mais tarde, antes de anoitecer. Aproveitei para tirar uma soneca, já que estava sozinho.
Acordei com o riso das três. Vinham alegremente em direção a cabana. Não consegui entender o que diziam, mas o fato de estarem sorrindo me tranquilizou, pois quando saíram temi que pudessem desentender-se e voltarem sem se falarem. Lembro-me inclusive de pensar: “É tão bom ver elas assim. Quem sabe Luciana pára de implicar com elas e larga até do meu pé. Ela sabe que num sinto nada por ela e que gosto mesmo é da Marcela. Talvez ela esqueça de vez aquela história de que sou seu maridinho e de que tenho que fazer um filho nela. Ela nem tentou me agarrar esses dias e nem me obrigou a meter com ela. É. Ela deve ter parado com isso. Viu que estava fazendo coisa errada, que Deus ia castigar ela. Ela disse que não acredita em Deus. Mas deve ter dito isso só da boca para fora. Como pode uma pessoa não acreditar em Deus? É até pecado pensar numa coisa dessas...”.
-- Olha o que achamos – disse minha prima, mostrando-me dois ovos, menores do que ovos de galinha. -- Ovos!
-- Onde vocês acharam isso? -- apressei em perguntar. Imediatamente levantei e fui pegá-los.
-- Lá em cima, no cume da ilha, perto de onde fomos outro dia – explicou Lucina. -- Subimos as três lá em cima. E não achamos só isso não. Olha aqui: -- estendeu o braço e aproximou a mão onde se encontrava três goiabas grandes e bem maduras. -- A gente trouxe essas aqui para você. É um presente.
Apanhei uma das goiabas e, antes de levá-la à boca, falei:
-- Mas e pra vocês?
-- A gente já comeu lá no pé mesmo. Eu comi quatro, a Marcela três e a Luciana também comeu quatro – disse minha prima. -- E tem mais lá, mas como estavam verdes, a gente resolveu deixar para ir buscar depois.
-- Vocês não deveriam ficar se enfiando nessa mata. É perigoso! -- falei.
-- Perigoso por quê? -- insistiu Luciana. -- Não vai me dizer que é por causa daquela história de que você andou ouvindo sons estranhos vindo de lá. Já te falei: mil vezes que isso é coisa da tua cabeça. Não tem nada ali. A gente andou a mata quase toda e não vimos o menor sinal de qualquer animal. Não tem pegadas, não tem nada. Portanto, não tem bicho nenhum.
-- Mas eu ouvi – insisti. -- Eu senti que tinha alguma coisa observando a gente.
-- Deve ter sido o vento que te deu essa sensação – disse Marcela, um tanto tímida e agachada num canto. -- Realmente não vimos nada.
Vencido, acabei aceitando. No entanto, não me convenci. Aliás, ninguém me convenceria do contrário, nem mesmo as mais contundentes provas. Eu podia estar errado e completamente equivocado, mas eu era tão somente um garoto de treze anos, e nessa idade ainda damos muito crédito à nossa imaginação, como se ela fosse tão somente uma extensão da realidade. Não havia amadurecido o bastante para distinguir o real do imaginário, ainda mais se levarmos em conta que, como acontece com muitas crianças, os pais, ao invés de educá-los de forma que essa separação fique bem clara, acabam por usar esta falta de discernimento para distorcer ainda mais a realidade, incutindo um medo que na maioria dos casos acaba afetando a criança para o resto da vida.
Olhei discretamente para ela e notei algo errado. “Será que ela e Luciana andaram brigando? Será que ela descobriu alguma coisa ente eu e ela? Não. A Luciana num ia contar. Pode ter sido outra coisa? Mas o quê? Perguntar. É melhor não. Quando a gente tiver sozinho eu pergunto”, pensei. Embora aquilo ficou me encucando na cabeça, provocando-me uma curiosidade difícil de ocultar, não toquei no assunto. Preferi esperar.
Comi duas goiabas apenas. Não que a outra não coubesse, eu apenas achei que poderia guardá-la para mais tarde ou para o dia seguinte. Nesses ínterim, foi levantada a questão de como cozinhar os ovos. Mais uma vez quem propôs a melhor solução foi Marcela: encher duas cascas de coco com água, colocar um ovo em cada e colocá-la na fogueira. Assim a água ferveria e cozinharia os ovos.
-- É assim mesmo que se cozinha ovos – explicou Luciana, numa das raras vezes em que concordou com Marcela.
Quando Ana Paula se levantou para buscar água para cozinhá-los, ofereci-me para acompanhá-la. As sós com minha prima, poderia indagá-la.
-- A Marcela parece estranha. Aconteceu alguma coisa entre vocês?
-- Não – respondeu Ana Paula. -- É que ela tá menstruada. E como ela num tem absorvente e aquela parte do biquíni só tampa um pouco na frente e atrás, embaixo fica sem nada e como ela tá menstruada, vai ficar escorrendo pelas pernas dela. -- explicou.
Fiquei surpreso. Em nenhum momento me passou pela cabeça que as meninas teriam de enfrentar esse problema.
-- Menstruada é quando a mulher tá naqueles dias? -- Eu já tinha aprendido alguma coisa sobre a menstruação, mas ainda sim não sabia do que se tratava com exatidão, dai a pergunta.
-- É isso mesmo!
-- E agora?
-- A Luciana disse que num dá pra fazer nada. Ela vai ter que ficar se lavando quando começar escorrer – disse Ana Paula.
-- E quanto tempo ela vai ficar assim?
-- Num sei. Uns três ou quatro dias. Ela disse que no mês passado ficou três, mas a Luciana disse que costuma ficar quatro. Então num sei.
-- Tudo isso? -- perguntei com espanto. Nisso ocorreu-me que também eu teria de conviver com aquela situação. Isso muito provavelmente alteraria a nossa rotina, uma vez que Marcela teria que se lavar muitas vezes ao dia. -- E você?
-- Eu? Ainda num fiquei. Sou nova ainda. Ainda não virei mocinha.
Enchemos os dois potes com água doce e retornamos. No trajeto de volta interroguei minha prima acerca daquela novidade. Algumas perguntas ela não soube responder; outras ela respondeu de forma insatisfatória, uma vez que, como ela mesmo afirmou, era muito nova para saber sobre essas coisas. Talvez se não estivéssemos chegando na cabana teria feito-lhe mais perguntas.
Após cozidos e deixados esfriar por alguns instantes, foram descascados e partidos ao meio, onde cada um saboreou lentamente a sua metade. Isso nos fez lembrar de nossa casa, da deliciosa comida que nossas mães preparavam. Cada um falou de seu prato preferido e de como este nos fazia falta. Um ar de saudade e tristeza se abateu todos nós, levando-nos ao mais completo silêncio; silêncio esse que só foi quebrado para dizer que deveríamos dormir para, no outro, dia tentarmos cortar algumas árvores para então construir uma casa de verdade.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A DIVISÃO DO PAÍS E O ATUAL GOVERNO

    As últimas ondas de protestos ocorridas no início do mês mostram que o país continua dividido desde as últimas eleições. De um lado estão aqueles que votaram na atual presidente e os quais procuram defendê-la com unhas e dentes independentemente dela está fazendo um bom ou mal governo. De outro estão aqueles que não votaram nela e, em grande maioria, os que votaram no outro candidato, os quais acusam a presidenta Dilma e o PT por todos os problemas pelos quais o país está passando e por isso querem a todo custo tirá-la do poder, através de um golpe militar ou de um impeachment.
    Mas afinal, quem está com a razão? Ambos e nenhum dos lados. Primeiro, porque cada um defende o seu ponto de vista e seus interesses, que no caso é o oposto do ponto de vista e dos interesses da outra parte; segundo, porque cada lado tem um quê de razão em seus argumentos, embora esses argumentos sejam muitas vezes fruto da falta de razão e excesso de emoção. Se por um lado o governo é legítimo, não havendo (ainda) razão para um impeachment, por outro é preciso reconhecer que os inúmeros problemas que vêm afetando o Brasil é, em grande parte, responsabilidade do atual governo, o qual não fez o necessário para evitá-los. A crise de econômica, a falta de credibilidade do país e os altos índices de inflação poderiam ter sidos evitados se as medidas necessárias tivessem sido tomadas na dose certa e na hora certa, o que não ocorreu. Por outro lado, é preciso reconhecer que a corrupção não é culpa do atual governo. Por mais que alguém afirme o contrário, tem-se de admitir que a corrupção está enraizada na sociedade brasileira há mais de 100 anos. E o mais grave: não só nos órgãos da administração pública como em todo lugar, das grandes corporações às pequenas empresas, embora isso raramente apareça nos meios de comunicação.
    Nunca é bom lembrar que qualquer ato que resulta em vantagem é corrupção, por menor que seja. E uma grande maioria das pessoas que tem a oportunidade de levar algum tipo de vantagem não pensa duas vezes, sem se dar conta que o seu ato é tão grave quanto aquele cometido por um agente público. É claro que hoje temos a percepção de que a corrupção é muito maior do que no passado, até porque é assunto diário nos meios de comunicação. E elas têm razão. Mas não tanto pelo fato de a corrupção ter aumentado assim tão significativamente e sim porque hoje é muito mais fácil identificar uma movimentação financeira ilícita, um enriquecimento incompatível com as rendas daquela pessoa, etc. E o mais importante: hoje vivemos numa democracia onde a liberdade de imprensa dá todas as garantias aos jornalistas e a imprensa como um todo para investigar e denunciar qualquer irregularidade, coisa que não era possível há 25 anos. Isso, no entanto, não exime o PT pelos atuais escândalos envolvendo o partido, um partido que até chegar ao poder era pautado na defesa da ética, uma ética que ele jogou por terra.
    Apesar de tudo isso, exigir o impeachment da presidenta Dilma não se justifica. Aliás, nem há base jurídica para isso, pois mesmo que houvesse um envolvimento dela, isso ocorreu na administração passada. De mais a mais, isso só tende a agravar a instabilidade política, provocando uma crise econômica ainda maior que a atual e gerando um custo muito alto ao país, o que consequentemente penalizá todos nós, porque uma crise não afeta o “Brasil” e sim todos os brasileiros.
    Por isso, eu pergunto aos integrantes dos dois grupos: O que é mais importante? O seu voto, o seu candidato, o seu partido e suas convicções políticas ou o Brasil? Independentemente de quem tenha sido o meu e o seu candidato, temos de admitir: o atual governo não é fruto de um golpe militar ou de uma fraude eleitoral. E até que provem o contrário, foi eleito democraticamente pela maioria dos eleitores. Portanto, como cidadãos honestos e defensores das leis, devemos respeitar a vontade da maioria, gostemos ou não disso; mas não passivamente. Todos nós, sem exceção, devemos exigir que o governo, pertença ele a corrente que pertencer, governe para todos, fazendo o melhor para todos nós; que crie mecanismos e combata incansavelmente toda a forma de ato ilícito praticados por agentes públicos, punindo os culpados. Talvez o maior problema do Brasil seja justamente a impunidade e não  quem esteja no poder.

quinta-feira, 26 de março de 2015

ADEUS À INOCÊNCIA - Cap. 56


-- Que bom ver vocês! -- exclamei quando se aproximaram.
-- O que foi? -- perguntou Ana Paula, entrando na água. -- Aconteceu alguma coisa?
-- Não. Num aconteceu nada – menti. -- É que eu fiquei preocupado com vocês duas no meio daquela mata. Por causa daquele barulho estranho que andei ouvindo --comentei com um certo alívio de encontrá-las sãs e salvas.
-- Encontramos uma trilha, subimos por ela e fomos até o topo. Bonita a vista lá de cima. Não é, Marcela?
Marcela parecia mais interessada em me fitar. Parecia desconfiar de alguma coisa, como se em mim houvesse algo que a inquietava.
-- É sim! Dá para ver toda a ilha.
-- E não encontraram nada de diferente? -- perguntei. Talvez elas tivessem visto algo de estranho, mas que não deram importância. Eu não podia aceitar que simplesmente tudo não passava de fruto da minha imaginado.
-- Diferente como? -- quis saber Marcela.
-- Algum animal ou sinal de pegadas?
-- Não, não vimos nada -- respondeu.
-- Só uma árvore quebrada lá em cima -- Lembrou minha prima.
-- Mas aquilo lá foi um raio -- interveio Marcela.
Lembrei-me que provavelmente falavam da mesma árvore que eu e Luciana vimos, quando ali estivemos.
-- A gente também viu quando subimos lá.
-- Não acho que tenha algum animal grande na mata. Talvez algum bicho pequeno como um porco selvagem, uma capivara, um macaco ou algo menor ainda – disse Marcela. -- Mas acho pouco provável. A ilha é pequena demais e animais grandes precisam de muito espaço.
-- Talvez. Mas não sei. Ainda acho que tem algo maior. Algo que está se escondendo da gente – falei, sorrindo para ela. Marcela retribuiu-me o sorriso e em seguida baixou a cabeça como que envergonhada.
-- E não acharam nada de interessante para a gente comer?
-- Não – respondeu Ana Paula. -- Achamos um pé de limão, mas eles ainda tão muito pequenos. Até pensei que fosse laranja, mas a Marcela disse que era limão.
-- Lá em casa tem pé tanto dum quanto do outro. Pelo cheiro da folha dá para saber. E aquele que está lá em cima é um pé de limão. Pode ter certeza. Tão pequenininhos ainda, mas dá para ver que é de limão. E do bravo ainda por cima.
-- A gente também num andou muito – interveio Ana Paula. -- Amanhã a gente vai procurar melhor. Não é? Andar pela mata e pelo outro lado da ilha. Talvez a gente ache alguma coisa.
-- Ela queria andar mais, mas falei que ia escurecer em breve – explicou Marcela. -- À noite pode ser perigoso. Pode ter cobras e no escuro fica difícil de avistar elas.
-- Você num disse que tinha cobras lá! -- exclamou Ana Paula. -- Se eu soubesse num tinha ido.
-- Todo lugar onde tem floresta, tem cobras. Talvez aqui não tenha porque é uma ilha pequena. Mas não precisa ter medo não. Elas só atacam se sentirem ameaçadas. Se a gente encontrar uma, é só se afastar devagarinho que ela não vai fazer nada com a gente.
-- Eu morro de medo – falei.
Continuávamos de pé, um de frente para o outro, com água até os quadris. Vez ou outra uma onda nos atingia e então tínhamos de saltar para não sermos levados.
-- Eu também tenho medo – disse Ana Paula.
-- Eu não. Sei que elas não mordem a gente se não mexermos com elas. Meu irmão é veterinário. Por isso sei dessas coisas.
Embora nos encontrássemos naquela ilha há mais de uma semana, era a primeira vez que Marcela falava um pouco mais de sua família. Falara dos pais algumas vezes, mas superficialmente. Aliás, isso explicava em parte o porquê dela ser uma menina com tantos conhecimentos sobre coisas da natureza. E embora eu estivesse apaixonado por ela, todos aqueles acontecimentos e os problemas enfrentados por nós até então acabaram impedindo-me indagá-la acerca de seus. Sabia que ela tinha dois irmãos mais velhos, mas não sabia nada sobre eles.
-- E aí? Pegou muitos peixes? -- Perguntou Ana Paula.
-- Peguei três. Agora só falta limpar e por eles para assar.
-- Hum, já está até me dando fome – brincou Marcela. Nisso nossos olhares se encontraram novamente e sorrimos. Por um momento senti uma vontade incontrolável de aproximar, tomá-la nos braços e beijá-la apaixonadamente. Mas a presença de minha prima inibiu-me. A maldita timidez era o meu ponto fraco. Por causa dela, eu renunciava a muita coisa. Por outro lado porém, acabava fazendo outras das quais eu me arrependia profundamente, como não ter tido forças e firmeza para dizer não ao Fabrício. E não era só a timidez. Ao me ver abraçado à Marcela e trocando carícias, poderia ter uma reação e deixar escapar um comentário acerca do que eu havia feito com ela. Aliás essa lembrança foi determinante para que eu sentisse uma necessidade de me afastar.
-- Daqui a pouco a gente vai e limpa. Já que estamos aqui, vamos nadar, Marcela? Tá calor. -- convidou Ana Paula, dando um mergulho.
-- Vamos.
-- Quer nadar com a gente? -- convidou-me.
Mais uma vez fiquei tentado em aceitar, mas ocorreu-me que Luciana estava na cabana, provavelmente precisando de mim para limpá-la, o que contribuiu para que eu recusasse. Talvez ela ainda estivesse deitada da mesma forma em que a deixara. Súbito, a imagem de seu corpo nu, de suas pernas arreganhadas e de sua vulva lambuzada pelo meu sêmen formou-se em minha mente. “É melhor eu voltar e ver se ela precisa de ajuda. Qualquer coisa eu pego ela e ajudo ela vir n'água se lavar. Ela vai precisar. Senão ela vai ficar com cheiro de porra...” Assim, acabei dizendo:
-- Não. Já estou há algum tempo aqui. Vou ver se a Luciana num precisa de alguma coisa. Talvez ela também queira tomar um banho. Ainda não consegue andar sozinha, apesar de tá melhor. Vou ter que ajudar.
-- Bem feito pra ela. Bem que ela poderia ficar assim pra sempre. Num faz falta mesmo! -- declarou minha prima.
-- Também num fale assim. Não se deve desejar o mal de ninguém. E ela faz falta sim. A gente precisa dar uma melhorada na cabana. Num podemos continua dormindo sobre a areia a vida toda. Eu não queria ser pessimista, mas se até agora num acharam a gente é porque já pararam de procurar. E se a gente quiser sair daqui, vai te que ter muita paciência. Vamos ter que esperar alguém vir aqui – falei.
-- Também acho – concordou Marcela. -- Mais dia menos dia alguém vai aparecer por aqui. Talvez um barco passe aqui por perto. Ou até mesmo um avião. Ai a gente faz sinal e eles verão a gente. Que a gente vai sair daqui disso eu não tenho a menor dúvida. Só resta saber quando.
-- Eu já num aguento mais ficar aqui. Quero ir para minha casa. Minha mãe deve estar desesperada. E eles nem sabe que o meu pai morreu – disse Ana Paula começando a chorar.
Marcela aproximou-se e a abraçou. Em seguida acrescentou:
-- Todos eles pensam que estamos mortos. O que sua mãe está passando é o mesmo que nossos pais estão passando.
-- Mas vamos voltar para casa. Só precisamos ter um pouco de paciência e procurar nos mantermos unidos – falei.
-- Se aquela vadia quisesse... Mas ela só quer arrumar confusão – acrescentou minha prima.
-- Então vamos fazer o seguinte: num dê motivo – sugeri. -- Depois de assar e comer aqueles peixes, a gente vai ter uma conversa e procurar manter a paz entre a gente. Tá bom?
-- Só quero ver se ela vai aceitar.
-- Claro que vai, prima. Pode deixar que vou ter uma conversa com ela. Por fala nisso, vô voltar. Vê se não demoram muito. Já está escurecendo.
Caminhei em direção à faixa de areia e deixei as duas ali.
Luciana estava do mesmo jeito em que a deixará minutos antes. Apenas havia apoiado a cabeça sobre um dos braços e parecia passar por uma madorna. Parei diante da porta e a observei. Adormecida, sem aquele ar arrogante e ameaçador, pareceu-me mais bonita e encantador. Percorri-lhe os olhos pelo corpo nu e, ao fixá-los no meio das pernas dela, fui tomado pelo devaneio. Imaginei aquela barriga crescendo e os seios ficando maiores. Pensei no que ela diria quando vissem que estava grávida. Súbito porém, ocorreu-me que isso acabaria com todas as minhas esperanças de ficar com Marcela, as quais já eram praticamente nulas. Então senti um calafrio, como aquele que sentimos ou termos uma sensação ruim. “Que absurdo! Um filho. Ela num vai ficar grávida. Deus num vai fazer isso comigo. Tá vendo tudo. Sabe que num tive escolha. Ela é a culpada de tudo”, disse para mim mesmo. Tentei pensar noutra coisa, mas observando-a não foi possível. “E quando ela for parir? A gente nasce por ali, pelo meio das pernas. Mas é tão pequena a boceta dela. Como é que um bebê consegue sair por ali. Deve doer. Elas fazem uma força. Já vi na novela. No filme também. Elas tão sempre fazendo força, gritando. Parecendo que vai morrer. Também, pra sair por ali tem que fazer muita força mesmo! Na hora num quero tá por perto. Vou para o outro lado da ilha. Deve ser muito nojento... Não. Ela num vai parir aqui na ilha. Demora um tempo até que o bebê fique pronto pra nascer. Alguns meses, acho. Até lá a gente já foi embora...”
Súbito, ocorreu-me que tinha de despertá-la e levá-la para se lavar. Assim, chamei-a. Ela acordou e, olhando ao redor, acrescentou:
-- Sua priminha e sua paixãozinha ainda não voltaram? Acho que o lobo mau ou aquela coisa que você cisma de ter visto comeu as duas. Tadinha delas... -- acrescentou com sarcasmo.
-- Tão lá na praia. Encontrei elas agorinha a pouco.
-- Que pena! Não ia nem sentir falta delas. Assim essa ilha ia ser só nossa. Minha e sua. A gente ia viver aqui para sempre.
-- Tá maluca! Não quero ficar aqui para sempre. Quero voltar pra casa.
-- Pois eu não sinto a menor vontade. Pra quê? Meus pais nunca ligaram para mim mesmo. Preferem aquele traste do meu irmão. Ele é o queridinho. Mas eu? Aposto que no fundo nem tão sentindo tanto assim a minha falta.
-- Não fale besteira.
-- Também não quero falar disso. Isso só me faz ficar com raiva. Estou bem melhor aqui. Ninguém fica me chamando de “galinha” e “papa macho”. Aqueles garotos são todos uns idiotas. Brincam com a gente e depois ficam chamando a gente de galinha. -- Súbito, parou. Fitou-me e acrescentou: -- O que você quer? Por que não ficou lá com elas? Eu nem ia brigar. Sei que você não ia fazer nada mesmo – disse ela após um esforço para se sentar.
-- Por que não? -- retruquei.
-- Por que não sou idiota. Primeiro, porque você não ia estar com tanta vontade assim. Não faz uma hora que você tinha acabado de gozar em mim. Ainda tô melada da tua porra. Ainda está escorrendo, olha! -- abriu as pernas com prazer e me mostrou. -- Em segundo lugar, você não ia ter culhão para transar com as duas. Terceiro, você é fraco e moralista demais para transar com a própria prima. Para fazer isso, você teria de estar desesperado de vontade, mas não está. Quarto, você ama aquela idiota da Marcela e por isso mesmo não vai de jeito nenhum transar com outra mulher na frente dela, menos ainda com a sua priminha. Então, enquanto as duas estiverem juntas, eu não tenho porque ficar com medo.
De certa forma ela estava com a razão, contudo, enganara-se quanto à minha prima. Como já é de conhecimento do leitor, embora tenha sido por impulso, transara com Ana Paula. Aliás, Luciana chegou a desconfiar pouco depois, mas tal desconfiança não foi à frente justamente porque de fato ela me achava incapaz de fazer isso com uma prima.
-- É. Não seria mesmo! -- menti, procurando não demonstrar que mentia.
Nesse instante tive uma ideia. “Se ela não desconfia das duas juntas, então tenho uma chance de ficar com Marcela. Ana Paula gosta dela. Elas são amigas. A gente pode sair os três juntos. Ana Paula fica em algum lugar nos esperando e eu fico com a Marcela”. E ao chegar a essa conclusão, tive de virar para o outro lado a fim de esconder minha alegria.
-- Anda, seu idiota! Me ajuda a levantar. Quero fazer xixi e preciso me lavar.
Aproximei e peguei em seu braço. Ela se levantou e, escorada em mim, deixamos a cabana em silêncio. No entanto, dentro de mim uma alegria se espalhava como se todos os problemas houvessem sido resolvidos. Pensava nos momentos a sós com Marcela. Poderíamos nos esconder atrás de uma medra e se amar livremente. E durante esses devaneios, não me ocorreu que, ao melhorar, Lucina estaria livre para nos vigiar, mesmo que eu estivesse com Ana Paula.

terça-feira, 10 de março de 2015

ADEUS À INOCÊNCIA - Cap. 55

Não me restou outra saída a não ser obedecer. E por mais que eu não quisesse deitar ao seu lado, não via como escapar. Apesar de impossibilitada de andar sozinha e menos ainda de correr atrás de mim, nas mãos de Luciana não pensei em momento algum, apesar da recusa inicial, não obedecer. Eu sabia quais eram as suas verdadeiras intenções. Aquela primeira semana ali na ilha me ensinou mais do que os últimos dois anos, o que me permitiu chegar a tais conclusões.
A principal razão pela qual não queria me deitar com ela era ser surpreendido por Marcela e Ana Paula Por isso, antes de agachar e me aninhar ao seu lado, olhei para fora, para ver se as duas não retornavam.
O sol estava se pondo, deixando aquele tom avermelhado tão comum nos finais de dias. Isso me levou a concluir que elas não tardariam, pois, por mais corajosas que fossem, não teriam coragem de andar pela mata à noite. "Elas vã ficar com medo. Daqui a pouco vão aparecer. É melhor eu fazer o que tiver de ser feito logo. Assim ela me deixa em paz", pensei.
-- Isso! Assim que eu gosto do meu maridinho -- disse Luciana me abraçando. -- Agora vem cá! Beija e acaricia sua esposinha. Faça seu papel de homem! -- Nisso ela levou-me a mão até o falo encolhido e o acariciou.
"Sabia!", exclamei com meus botões. "Se é isso que ela quer, então vou fazer logo e ponto final"
Um tanto irritado, rolei para cima dela e disse-lhe:
-- Já que você quer que eu seja o seu marido, então, sua puta, vou fazer a minha parte. -- levei a boca até os seios dela e os chupei. Isso acabou dando início a minha excitação. -- Agora toma, sua cadela! – acrescentei, afundando os quadris no meio de suas pernas embora não a tenha penetrado.
Essas palavras a inflamou.
-- Então você acha que sou uma puta? É isso?
-- É. Você é uma puta!
-- Então me ame como puta.
Eu não fazia menor ideia de como se tratava uma puta. No entanto, o fato de considerá-la uma, o que me levava associar o nome às prostitutas, deduzi que não eram objeto de afabilidades. Os homens que se deitavam com elas deveriam humilhá-las, tratá-las com grosserias e até bater-lhes. De forma que me senti no direito de fazer o mesmo. Aliás, naquele pedido vi uma oportunidade de machucá-la sem que ela encarasse isso com uma agressão e um ato de vingança, pois no fundo era isso que meu subconsciente deseja fazer.
A imagem que antecedeu o ato e a qual se formou em minha mente tão clara como se fosse real acabou despertando em mim uma intensa sensação de prazer, sensação essa que acabou por me excitar de vez. Aliás, não era a primeira vez a experimentar essa sensação. Com minha prima ocorrera o mesmo.
Ajeitei o falo na vulva dela com a mão e enquanto dizia “Então toma, sua puta!”, penetrei-a com violência. Lucina apenas soltou um “ai” um pouco longo e cerrou os olhos. Os quadris tornaram a subir a afundar com toda a força. Ela novamente suspirou outro “ai” porém acrescentando um “que delícia”, o que me desapontou, pois tencionava causar-lhe dor e não prazer.
Por isso tive de mudar de estratégia. Levei os lábios a um dos seios dela e mordi-lhe o mamilo. Pensei em deixar minha marca, mas alguma coisa dentro de mim impediu-me de exercer a pressão nos maxilares para fazê-lo. Assim, a mordida foi forte, o bastante para lhe provocar dor, o que a levou a reclamar:
-- Ai, seu grosso! Isso dói!
-- Fica quieta, puta! – foi o que respondi. -- Se você quer ser uma puta, então num reclame.
Ela não disse nada. Eu porém pensei: “Bem feito! E vou fazer mais. Vou te bater”
Em seguida uma bofetada atingiu-a na face. Não foi uma bofetada forte (ainda não tinha coragem de bater nela para machucar), mas o bastante para me dar um prazer intenso. E nem me importei quando ela reclamou:
-- Seu viado!
-- Sua puta! – falei, dando-lhe mais uma bofetada, agora na outra bochecha.
Ela tentou me retribuir a bofetada, mas segurei-lhe o braço antes. E olhando-a bem fundo nos olhos, continuei a martelá-la entre as pernas. Súbito fui envolvido pelo véu do prazer e os gemidos acompanharam o gozo.
-- Isso! Goza! Faz o nosso filho! -- exclamou ela com prazer. Só então me dei conta de que o objetivo dela não era o seu gozo, mas o meu sêmen. Ela queria um filho e estava disposta a qualquer sacrifício para engravidar-se, até mesmo ser por mim chamada e tratada como uma puta.
Imediatamente sai de cima dela, como se isso pudesse evitar que ela ficasse grávida. Mas não foi só por isso a minha pressa em me desvincilhar dela. Não queria ser surpreendido pela Marcela e minha prima naquela posição. Caso isso acontecesse, Marcela estaria perdida para sempre.
-- Vem cá! Eu ainda não gozei.
-- Problema seu! -- retruquei, saindo da cabana e caminhando em direção à água, a fim de me lavar. E enquanto caminhava sem pressa, uma sensação de ódio e arrependimento se misturavam; ódio por ter sido ludibriado e arrependimento por ter chegado ao gozo, permitindo assim que ela pudesse se engravidar. Aliás, isso me levou a esquecer Marcela e Ana Paula por algum tempo. Só pensava no que faria se de fato Luciana ficasse grávida. Que explicação daria para meus pais e para os pais dela. Achava que teria de me casar com ela e passar o resto da vida aturando-a, embora soubesse que existem pessoas que se casam e depois se divorciam. Mas naquela época o divórcio não era tão comum e as pessoas que se separavam não eram vistas com bons olhos. Ainda havia um certo preconceito quanto a ser divorciado.
Pouco depois, vi as duas retornarem. Caminhavam pela faixa de areia conversando alegremente. Pelo jeito falavam de algo engraçado. Elas não me viram na água. Isso inclusive me permitiu observá-las. E enquanto as observava, pensei: “Ela é linda! Ah, como eu queria que ela tivesse no lugar daquela vagabunda! Eu ia tratar ela com tanto amor e carinho. Nela sim, eu ia ficar feliz de fazer um filho. Como queria abraçar ela e beijar ela também. É tão difícil ficar perto dela e não ficar olhando pra ela, pra Luciana não brigar. Mas ela num vai conseguir separar a gente. Num vô deixar que ela continua a me dominar assim. Vou arrumar um meio de acabar com isso. Vou mesmo! Num vou transar mais com ela. Num quero que ela fique grávida também. Odeio ela! Isso sim! Se ela continuar a me obrigar a fazer essas coisas, ainda mato ela. Ela que não me subestime!”. Súbito, ocorreu-me que elas encontrariam Luciana deitada nua e iam ver ela melecada no meio das pernas. Iriam perguntá-la o que era aquilo. Talvez para se vingar ela dissesse que eu a estuprara. “Ela bem capaz disso! E mesmo que ela não diga, minha prima vai saber o que aconteceu. Ela vai se lembrar do que fiz com ela. Vai reconhecer o cheiro. Vai saber que aquilo veio de mim. Quando fiz com ela, aquilo ficou nela também. Ela já viu a gente se beijando. Sabe que a gente anda fazendo coisas escondidos. Ai vai ter certeza. Merda! E agora? O que faço?”.
Então ocorreu-me de gritar por elas e chamá-las para virem ao meu encontro. Assim eu teria tempo de pensar no que fazer. E foi o que fiz.
-- Marcela!... Ana Paula!... Ei, vocês duas! Venham até aqui!
Pararam e me procuraram. Quando me encontraram, acenaram. Cheguei a pensar que não viriam. Contudo, viram em minha direção e principiaram a correr.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

NO VÁCUO DE MINHA MENTE

No vácuo de minha mente sem ideias
Escapa um pensamento funesto:
Seriam realmente verdadeiros e reais
Este eu, esta vida, o mundo e todo o resto?

Não seria uma ilusão tudo que se tem vivido?
Não seria a realidade uma mera aparência?
E se tudo que até então tem existido
For fruto de nossa própria ignorância?

Talvez a vida com suas verdades irreais
E suas certezas enterradas num deserto
Façam de nós, seres humanos, animais
Infelizes, doentes e de um futuro incerto

Talvez a razão – esse mal adquirido
Na aurora da civilização – seja a essência
De nossas desilusões, onde a vida sem sentido
Desperta-nos o animal e leva-nos a decadência

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 54


-- Estou gostando de ver – disse Luciana quando, não muito após chegar àquele ponto aonde estava acostumado pescar, peguei o primeiro peixe. -- Você até que não é tão inútil assim – deixou escapar.
-- Eu não sou um inútil! -- exclamei, com a raiva dominando-me. E súbito, ocorreu-me de pegar aquela lança e trespassá-la como fizera com o peixe. Cheguei inclusive a olhá-la enquanto imaginava: “Podia enfiar ela na barriga dela. Ia vazar nas costas. Ia demorar a morrer. Ficar estrebuchando ali. Horrível! Isso ia ser. Não. Assim não. No pescoço dela. Ia matar ela mais rápido...”
-- O que foi que você está me olhando assim com essa cara de mau? -- interrompeu-me ela os pensamentos.
-- Nada, não. -- desviei o olhar envergonhado.
-- Vai! Anda! Pega outro!
Aguardei. Logo apareceu um maior do que eu havia pescado. Observei e aguardei que ele parasse por alguns instantes. Enquanto isso, mirei-o lentamente, sem fazer o menor barulho. Luciana viu que eu me preparava e manteve-se em silêncio, afim de não espantá-lo e nem me atrapalhar a concentração. Súbito, lancei a vara. A ponta chegou a acertá-lo de raspão, mas não o fisgou. Desapareceu da minha vista.
-- Errei o desgraçado! -- comentei enquanto me abaixava para apanhar a lança. -- Preciso melhor a pontaria. Ainda erro de vez em quando.
-- Por que você não faz um alvo e treina na cabana? -- sugeriu ela.
-- É mesmo! Não tinha pensado nisso!
-- Não se preocupe! Sua mulher está aqui para pensar por você – disse ela com entusiasmo, entonando a palavra “mulher” como se fosse a palavra mais especial que ela conhecia.
-- Mulher? Eu não sou teu marido! A gente não é casado. E num quero ser.
Ela me olhou com aquele olhar feroz, o qual me atirava todas as vezes em que eu a contrariava. Aliás, nada a irritava mais do que isso.
-- Não precisa casar para ser marido e mulher, seu idiota! Se vivem juntos já são. E você é o meu marido. A gente mora juntos e até já transamos. Então o que somos então?
-- Sei lá! -- retruquei. -- Mas seu marido eu não sou. E nem quero ser.
-- E quem disse que você tem escolha, seu idiota? Eu quero que você seja o meu marido e pronto. E um marido fiel! Por isso vou te lembrar mais uma vez: se você me trair com uma daquelas duas vadias, eu te mato e depois ela – ameaçou-me mais uma vez. Aliás, Luciana não perdia uma oportunidade de manter-me sob o terror. Ela parecia estar certa de que assim manteria completo controle sobre mim. E de fato ela estava certa. Eu temia não por mim mesmo, mas por Marcela e por minha prima. Sabia do que Luciana era capaz.
Silenciei. Não havia outra coisa a fazer.
Momentos depois consegui fisgar outro peixe. Isso nos descontraiu e trouxe de volta a amistosidade entre a gente. Tanto que perguntei-a se não queria retornar. Ela respondeu-me que não, que era eu pegar outro peixe e ai a gente retornaria.
-- Então, vou pegar um para você – falei sem pensar. No entanto, só queria agradá-la e mantê-la feliz a fim de não se zangar com Marcela e Luciana.
-- Quero ver – disse ela alegremente.
Enquanto esperava surgir uma presa, pensei nas duas. E uma sensação de medo, de que algo pudesse acontecer-lhes naquela mata foi me consumindo. Cheguei inclusive a ficar tão agoniado, querendo voltar depressa para a cabana a fim de saber se estava tudo bem com elas que pensei em desistir de pescar mais um peixe. Todavia, se o fizesse, acabaria irritando Luciana. E foi isso que me impediu de desistir.
Levei o dedo aos lábios, fazendo sinal para que ela não fizesse barulho. Luciana falava de seus últimos dias na escolha e do que fazia com os meninos na escola. Falava com naturalidade, vangloriando de seus feitos, como uma puta relembrando os grandes momentos do passado. Chegou inclusive a contar que, durante uma aula, saíra para ir ao banheiro e, ao deparar com um garoto de outra classe com o qual andava flertando, arrastara-o para trás da biblioteca e ali levantou a blusa, deixou-o chupar-lhe os seios enquanto ela acariciava-lhe o “pinto” até ele quase gozar. Perguntei-a o que ela fez e ela me respondeu rindo que “quando ele começou a gemer e a se contorcer todo, larguei o pinto dele e saí correndo. Sabia que ia esguichar aquela coisa e melecar minha mão.” Depois falou de Carlinhos. “eu já tinha deixado ele pegar e chupar os meus peitos e abaixado a calcinha para ele bater uma punheta na minha frente. Ele também já tinha deixado eu pegar no pinto dele e brincar com ele. Mas eu queria mais. Queria sentir o pinto dele em mim. Aí um dia que quase não tinha ninguém na escola, a gente se trancou no banheiro e eu deixei ele por o pinto dele no meio das minhas pernas e ficar metendo em mim. Só não deixei ele enfiar. Pena que ele gozou logo e melecou as minhas pernas todas com a porra dele.”
O que me deixava surpreso não era o fato dela ter feito essas coisas. Isso era bem da cara dela. Mas a naturalidade com que me contava. Não demostrava o menor sinal de vergonha ou arrependimento.
-- Pimba! -- falei quando vi o peixe estrebuchar na lança.
-- E esse é grande! -- exclamou ela, quando levantei a lança e aproximei-lhe o peixe fisgado.
-- Bom, por hoje chega! -- falei. -- Vamos voltar. Precisamos pôr mais lenha na fogueira se elas ainda não chegaram. -- acrescentei, lembrando que deveria dizer a palavra “não” corretamente, pelo menos na presença dela.
Luciana espetou os peixes pescados anteriormente na vara e retornamos para a cabana.
Quando chegamos, não havia ninguém. Isso me preocupou. Tanto que não pude deixar de comentar:
-- Elas estão demorando... Será que aconteceu alguma coisa?
-- Claro que não! Elas só não voltaram ainda. Vai ver que estão lá em cima curtindo a paisagem. Tem uma bela vista lá de cima. Quando a gente foi lá, eu queria ficar mais. Mas você, seu medroso, estava quase borrando nas calças que preferi voltar para não deixar você passar mais vexame. Elas pelo menos vão poder ficar lá em cima o tem que quiserem. E depois que elas voltarem e você ver quer não tem nada, que essa história de bicho é imaginação da sua cabeça, a gente vai voltar lá em cima e apreciar aquela vista maravilhosa.
-- Você não quer acreditar, mas eu sei que tem alguma coisa naquela mata – falei, jogando mais alguns gravetos no fogo.
Talvez eu estivesse errado. Talvez eu realmente estivesse imaginando tudo aquilo, mas quando acreditamos em algo, não há quem consiga nos demover. As religiões estão aí para provar. Certo ou errado, eu só sossegaria quando Marcela e Ana Paula estivessem de volta, sãs e salvas.
Luciana sentou numa das camas e chamou:
-- Vem cá! Deita um pouco aqui comigo.
-- Mas as meninas podem chegar a qualquer momento – falei, sem desviar os olhos da fogueira.
-- Elas ainda vão demorar. Aposto! E também o que tem elas verem a gente juntos. Você é meu! O meu homenzinho. Ou melhor: o meu maridinho. A partir de agora vou te chamar de meu maridinho! Vem cá, vem! Vem dar um pouco de carinho a sua esposinha.
-- Eu já disse: num sou seu marido! -- exclamei, irritado!
-- Não importa que você não queria ser. Eu disse que é, então vai ser e pronto. E é bom que aquelas duas vejam a gente juntos. Assim aquela vadia desiste de você de uma vez por todas. Porque dela, você não vai ser nunca. Isso eu posso te garantir. E anda! Vem logo! -- ordenou, estendendo o braço e me puxando, o que fez com que eu me desequilibrasse e caísse para trás, sobre o monte de gravetos.
Por pouco não caí em cima da fogueira.
-- Já disse que não quero! -- repeti.
Súbito, ele apanhou um graveto da fogueira, cuja ponta estava em brasa, e ameaçou-me:
-- Se você não vir, seu viadinho, eu juro que apago a ponta dele em você. Não sei se você já se queimou alguma vez, mas posso te garantir que não há dor mais terrível. Ainda mais ai nos teus ovos. Aposto como você vai se mijar e se cagar de tanta dor. E aí? Vai me obedecer ou não? -- perguntou ela por fim, agitando o graveto em minha direção, como se fosse uma espada.
Devido aos movimentos, a brasa pareceu mais viva, o que me fez sentir um medo terrível. Eu sabia que ela era capaz de cumprir com suas ameaças. De forma que, sem alternativa, acabei cedendo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 53


Temendo deixar Ana Paula às sós com Lucina e esta última a pressionasse para contar o que havia ocorrido, preferi deixar as três na cabana e ir sozinho atrás do que comer. E não demorei a voltar com três goiabas começando a madurar.
-- Num achei mais nada – falei, mostrando-lhes as goiabas. – Só isso!
-- Mas isso não dá pra nada! -- exclamou Luciana.
-- Foi o que eu arranjei – respondi. -- Pega uma cada uma. Não quero comer nada – acrescentei.
-- Nada disso! -- volveu Marcela. -- A gente divide. Luciana e Ana Paula comem essas duas menores e essa grande eu divido com você. -- Pegou as goiabas de minha mão. -- Toma, Ana Paula! Fica com essa. E essa pra você – Foi em direção à Luciana e lhe entregou uma.
Luciana estendeu o braço e a pegou. Em seguida, fitou-me com os olhos faiscantes e acrescentou:
-- Deixa ele sem. Assim ele aprende a procurar alguma coisa pra gente comer. Quem manda ele não ser homem o bastante para encontrar comida!
-- Não é nada disso! -- discordou Marcela, defendendo-me. -- Você sabe muito bem que nessa ilha não tem mais nada. Só aqueles pés de goiaba e aquelas bananeiras.
-- Como você sabe? Por acaso você vasculhou toda a mata? Quem disse que nela não tem o que comer? E peixes? Por que ele não vai pescar ao invés de ficar fazendo nem sei o que com a priminha.
Quando ela proferiu estas últimas palavras, fui tomado de um calor na face. Ana Paula, que até então mantinha-se distante, fitou-me assustada. Por sorte, ela foi esperta e se esquivou de imediato.
-- Comigo nada! E o que ele poderia estar fazendo comigo? Nem com ele eu estava!
-- E como você arrebentou a tanga? -- perguntou Luciana de forma provocativa.
-- Eu... Eu entrei naquela trilha ali e ele agarrou num galho. E já estava quase arrebentando. Ai acabou de arrebentar – explicou.
-- Mentirosa!
-- Mentirosa por quê? Por acaso você tava lá pra ver? Não. Só fica aí, deitada, com esse pé machucado. Acho até que você se machucou de propósito. Só pra num fazer nada e pra ser carregada por ele. Você é bem capaz disso! -- disse minha prima, bastante exaltada.
-- Sua vadiazinha! Juro que, quando eu melhorar, você vai se ver comigo – ameaçou Luciana.
-- Vamos parar com essa discussão? -- intervi.
-- É mesmo! -- concordou Marcela. -- E você, Luciana, não pode falar isso dela. E nem ela dizer que você se machucou de propósito. Todo mundo sabe que nossas roupas estão apodrecendo. Não vai durar mais que uma semana. Torço para que até lá tenham achado a gente.
-- Eu já disse: eles já pararam de procurar. Pensam que a gente se afogou. Não vão encontrar a gente. Vamos ficar nessa ilha para sempre ou até que alguém resolva aparecer por aqui.
-- É mentira! Num pararam não! -- retrucou Ana Paula.
-- Também acho que não – afirmou Marcela.
-- Eles num iam desistir – acrescentei, mais para confortar minha prima, pois no fundo não acreditava que sairíamos tão cedo daquela ilha, do que por convicção.
Aliás, esse assunto acabou dando outro rumo a discussão e inclusive amenizando os ânimos. E como já ocorrera antes, o debate findou sem um consenso. No entanto, apesar de não declarar, eu sabia que Luciana poderia estar com a razão. Mas ainda mantinha a esperança. E acredito que até ela tinha esperança de que fôssemos encontrados brevemente. Não posso admitir, apesar de me ter confessado isso algum tempo depois, que preferia estar ali do que ir para casa.
-- Vou tentar pegar um peixe – falei pouco mais tarde.
-- Vou contigo – disse Luciana.
-- Mas você num tá podendo andar – retruquei.
-- E você pode se machucar de novo – interferiu Marcela.
-- Não vou me machucar de novo. Fico sentada numa pedra, só olhando – explicou. -- E vocês duas? Por que não aproveitam e entram na mata e tentam achar alguma pra gente comer? Dão uma vasculhada.
-- Mas essa mata é perigosa! -- exclamei, temendo pelas duas. Aliás, imediatamente aqueles sons que ouvira dias atrás invadiram-me à mente. -- Pode ter algum monstro escondido nela.
-- Que monstro o que! Não tem nada lá. Já cansei de te falar, mas você é idiota demais para entender. Nós dois não já subimos até o topo? Encontramos alguma coisa? Não. Então? É porque não tem nada. Agora, só porque você ouviu um barulho estranho outro dia. Aposto como foi o vento. Tá achando que foi um bicho.
-- Mas eu ouvi. Não tô doido.
-- Você pensa que ouviu, isso sim! Se tivesse, a gente já teria visto ele ou pelo menos alguma marca de pegada na arei. Mas nunca encontramos nada. Por quê? Porque não existe nada. E só você diz quem ouviu. Não dão ouvidos a ele não. É um medroso, isso sim. Pra não entrar na mata, fica inventando coisas.
-- Eu nunca ouvi nada – concordou Marcela.
-- E nem eu – assentiu Ana Paula.
-- Luciana está certa. É uma boa ideia. Vai que a gente ache outros pés de goiaba carregado. Não custa tentar – afirmou Marcela.
Fui voto vencido. Talvez eu realmente estivesse errado. Mas, naquele momento, eu me considerava o único com a razão. Contudo, não poderia fazer nada. Assim, só me restou desejar que nada de ruim acontecesse com aquelas duas.
Elas saíram pouco depois.
-- Me ajude a levantar. Já estou me sentindo bem melhor. Mais uns dois dias e já posso andar sozinha – disse Luciana algum tempo depois.
-- Tô vendo. Seu pé nem inchado está mais.
Na realidade, disse-lhe aquilo para agradá-la, pois como poderia saber ao certo se realmente estava melhor. Enrolado como estava impedia-me de ser preciso.
O local onde eu pescava ficara à esquerda da cabana. Assim, as meninas foram para um lado e eu e Luciana para o outro. Aliás, quando saímos da cabana, não avistei mais as duas. Talvez já estivessem alcançado a trilha e embrenhado na mata.
-- Vamos parar aqui – disse Luciana enquanto ainda caminhávamos pela areia úmida, onde as ondas quase alcançavam.
-- Mas ainda não chegamos.
-- Preciso descansar um pouco. Vamos sentar.
Ajudei-a a se sentar e sentei ao seu lado. Houve um breve silêncio. Olhei para Luciana e ela parecia compenetrada, como que planejando alguma coisa. E isso me assustou. Pois eu sabia que, quando ela ficava assim, em seguida vinha uma surpresa. E de fato veio. Súbito ela me empurrou para trás, fazendo com que eu caísse de costas, e virou para cima de mim.
Não houve tempo de esboçar uma reação. Quando percebi ela havia puxado para baixo a minha sunga e me agarrado os testículos.
-- Você pensa que acreditei naquela história esfarrapada da sua priminha? -- apertou-os de forma que dois dedos se fecharam entre os testículos e meu corpo, impedindo que estes pudessem escorregar e escapar, deixando-a penas com o saco escrotal na mão. -- Claro que não! Não sou idiota! Por trás daqueles olhares havia algo mais. Pode contar a verdade.
Senti sua mão se fechar e apertar-me os testículos, causando-me dor.
-- Aí. Isso está doendo. E já disse: não fizemos nada!
-- Confessa, seu viado! Vai ser melhor para você – insistiu ela, apertando ainda mais a mão.
Sentir uma dor intensa. Gritei de dor, como quem leva uma bolada no meio das pernas. E imediatamente implorei para ela parar de apertá-los, pois estava me machucando.
-- Então confessa! Senão vou apertar mais ainda – insistiu ela.
-- Já disse que num fiz nada – custei dizer, pois a dor me afetava. E aquela dor se espalhava por toda a região pélvica. Era como se um de meus membros estivesse sendo arrancado.
-- Seu filho da puta! Pára de mentir – disse ela, apertando mais a mão.
A dor foi tão aguda que soltei um grito desesperado. Foi a dor mais intensa que senti em toda a minha vida. Jamais imaginei que apertar os testículos doessem tanto. Não por acaso, muitos homens, ao tê-los atingido, acabam desmaiando. Aliás, toda vez que lembro daquela mão esmagando-os, sinto-os doer. E isso ocorre ainda hoje, apesar de todos esses anos. Meu grito ecoou, como aliás, ecoa todo grito de dor. Talvez temendo que as meninas ouvissem, Luciana tapou-me a boca, apertou mais, o que me fez perder todas as forças, e sussurrou-me com um certo deleite:
-- Só não arranco teus ovos, seu viado, porque preciso deles. Sei muito bem que sem eles essa coisa mole ai não fica dura. E sei também que é deles que vem a semente que faz a mulher engravidar. E se eu arrancar eles, seu troço não vai ficar duro, não vamos poder transar mais e você não vai poder me dar a semente do nosso filho. -- disse ela, abrindo a mão, o que fez a dor ficar menos intensa. No entanto, senti uma bofetada forte no rosto.
Não prestei atenção as suas palavras, pois a dor me impedia de qualquer outra coisa que não fosse tentar suportá-la. E mesmo quando ela me soltou os testículos, estes ainda ficaram doendo por algum tempo. Aos poucos porém a dor foi perdendo a intensidade. Só então me dei conta do que ela dissera.
-- O que foi que você disse?
-- Já te disse: isso aí é só meu. E só não arranquei eles, porque sem eles não posso engravidar. Eu sei que a gente não vai sair dessa ilha tão cedo. Se a gente tiver sorte, daqui uns meses. E o que a gente vai fazer até lá? Sempre sonhei em ter um filho. E quando te encontrei não tive dúvida de que seria você o pai. Sabia que você gostava daquela cadela. Mas ela não era páreo para mim. E mesmo que esse acidente não tivesse acontecido e a gente não tivesse ficado preso nessa ilha, eu teria dado um jeito de tirar ela do meu caminho. E agora que a gente está aqui e que você é meu, não vou perder a oportunidade de ter um filho teu.
-- Mas eu sou apenas um garoto! E você também ainda é muito nova – retruquei.
-- Nova? Tem menina que se engravida com onze, doze anos. Antigamente com quinze anos já eram mães. E eu já tenho isso. E o que tem você ser um garoto? Por acaso teu pinto não funciona? Tu não goza? E o que sai dele, quando você goza? É a semente, seu idiota! E se você já tem semente, é porque você já pode fazer um filho e ser pai. É que você é meio idiota. Parece que vive em outro mundo. Na tua idade, os meninos já são bem mais espertos. Sabem muito bem dessas coisas.
-- Mas eu não quero ter um filho – insisti. A dor ainda não havia cessado, mas já não me afetava tanto. Apenas sentia os testículos latejarem, como ocorre depois de uma batida.
-- A decisão não é sua. É minha. E eu quero e pronto! Você só tem que fazer, meter em mim e gozar lá dentro. E quando eu senti que estou na época de ficar, você vai ter que fazer todo dia, até eu ficar.
-- Meu deus! Você é completamente louca! Como não vi isso!
-- Agora é tarde, meu amor – Luciana aproximou os lábios e me beijou. Enquanto isso, levou a mão até meu falo e o acariciou.
-- Pára! -- pedi depois do beijo.
-- Por quê? Você não me quer? Olha para eles – mostrou-me os seios, cujos mamilos estavam duros, denunciando sua excitação embora, por causa da inocência e inexperiência, eu não tenha associado uma coisa com a outra. – Você não gosta deles? Eu sei que você gosta. Deixo você chupar eles o quanto quiser. É só fazer ele ficara duro pra mim – insistiu.
-- Não, num quero. Você me machucou. Ainda está doendo muito – levei a mão aos testículos novamente. -- Não quero fazer nada.
-- Bem feito! Isso para você aprender que se fizer alguma coisa com aquelas duas, eu mato elas e depois ranco os teus ovos. E pode ter certeza que eu faço isso mesmo. Como você mesmo disse: eu sou louca, louca por você. E uma pessoa louca é capaz de qualquer coisa.
Empurrei-a para o lado e sentei na areia. Por nada desse mundo eu transaria com ela ali. Ainda mais que eu só pensava na minha prima e naquele grande erro que eu cometera mais cedo. Não deveria tê-la atirado ao solo e a possuído daquela forma. Havia praticado um ato imperdoável. E mais imperdoável ainda por causa de Luciana. Se ele descobrisse a verdade, minha prima correria risco de vida. Eu não tinha dúvida de que Luciana tentaria matá-la para se vingar.
Levantei e estendi-lhe a mão, a fim de ajudá-la a se levantar.
-- Vamos! -- chamei-a. -- Quero ver se pego uns dois peixes. E não podemos demorar. Senão a a fogueira pode apagar. Não tem ninguém tomando conta dela.