Existe um fato: Lula
sugeriu ao ministro do STF Gilmar Mendes o adiamento do julgamento
dos envolvidos no escândalo do “Mensalão” para não prejudicar
as eleições municipais de outubro. Existem duas interpretações
dos fatos: Lula tentou interferir no julgamento do mensalão (uma) e
Lula apenas fez uma sugestão ao ministro (outra). Quanto a primeira,
esta está sendo explorada não só pelo próprio Gilmar Mendes como
também por alguns setores da sociedade, ligados àqueles que tem
algum desafeto com o ex-presidente e o Partido dos Trabalhadores
(PSDB, DEM, PPS e alguns setores da mídia) que pelos mais variados
motivos tentam tirar algum proveito da situação, talvez querendo
atingir a presidente Dilma. Quanto à segunda versão, compartilhada
pelos demais ministros do supremo e pelos demais setores da sociedade
que, além de não verem uma interferência no julgamento do mensalão
concordam inclusive que julgar os culpados do mensalão durante as
eleições pode sim influenciar nas eleições e não contribuem em
nada para a democracia. O melhor seria a antecipação ou até mesmo
o adiamento. Mas voltando ao Ministro Gilmar Mendes. Por que ele fez
tal declaração justamente para a revista Veja? O que ele quis com
isso? Por que ele foi se encontrar as sós com Lula se
presumivelmente sabia que o assunto seria o mensalão? Não seria
mais prudente ter recusado o convite? Não é questão de acusar ou
não o Ministro. Mas não devemos esquecer que Gilmar Mendes, antes
de virar ministro do STF, indicado pelo então amigo FHC apesar de
uma série de protestos contra sua indicação, foi secretário da
presidência do então presidente Fernando Collor de Melo (PRN) e
depois Advogado Geral da União no governo do então presidente
Fernando Henrique Cardoso (PSBD), aliás quem o levou ao supremo com
a aposentadoria do ministro Néri da Silveira. É de se lembrar
também que foi o próprio Gilmar Mendes quem em 2008 concedeu de
forma surpreendente dois habeas-corpus em 48 horas ao banqueiro
Daniel Dantas, gerando uma crise que ficou conhecida como “foro
privilegiado ao banqueiro que havia roubado milhões”. E mais uma
vez o próprio Gilmar Mendes se envolveu numa crise institucional,
gerada pela operação Satiagraha, a qual foi denunciada pelo colega
Ministro Joaquim Barbosa, que gerou um embate entre os dois ministros
que dura até hoje. E por último vale lembrar que Gilmar Mendes é
citado nas gravações da quadrilha do Carlinhos Cachoeira por
diversas vezes e viajou e se encontrou com Demóstenes Torres em
Berlim. Agora eu pergunto: é ele ou o ex-presidente Lula o mais
interessado em criar uma crise entre os três poderes?
Edmar Guedes
Apaixonado por literatura desde pequeno, começou a escrever as primeiras histórias aos 11 anos e desde então não parou mais. Parte desse material escrito nos últimos 30 anos você poderá encontrar aqui, inclusive trechos de obras que estão sendo preparadas para a publicação.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
segunda-feira, 21 de maio de 2012
O POUPADOR
Eu
não sou um sujeito à toa
E
nem vivo do fruto alheiro
Quero
apenas viver numa boa
Com
o meu próprio dinheiro
Não
roubei quem quer que seja
E
nem pratiquei contravenção
Minha
renda é fruto da peleja
Depois
de muita privação.
Renunciei
por anos a quase tudo
Para
acumular meu capital
E
apliquei-o na bolsa e em fundos
E
até na poupança um porcentual
E
dos rendimentos abundantes
Vivo
a aproveitar a vida
Mas
sempre lembrando constante
De
que economizar é a melhor pedida
domingo, 6 de maio de 2012
ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 26
Houve um ar de constrangimento ao ficar
na presença de Marcela durante o dia. Talvez tenha sido por isso que
procurei, assim que degustamos as bananas mais maduras, manter-me o
mais longe possível dela, como se sua presença me remetesse a algo
que eu procurava a todo custo esquecer. E quando nossos olhos
casualmente se cruzavam, o que era inevitável, desviavam-se
imediatamente seguidos de um rubor em nossas faces.
Eu não sei o que se passava na cabeça
dela naqueles instantes; na minha porém vinha a lembrança não só
do ocorrido mais cedo como também do episódio no segundo dia
naquela ilha, quando a beijei pela primeira vez. E então eu me
sentia inda mais tímido e envergonhado, como se cometera um crime
horrendo e o qual poderia me fechar as portas do céu. O
arrependimento em meu peito não só em relação ao que Marcela e as
outras meninas poderiam pensar a meu respeito, embora isso também
contasse muito, mas principalmente pelo temor a Deus, Dele estar
vendo tudo que eu fazia aqui na terra como um ser impiedoso que
castiga severamente o menor deslize de suas ovelhas. E quando eu
estivesse diante Dele e Ele enumerasse todos os meus atos aqui na
terra? Como eu me justificaria a fim de conseguir a sua absolvição
para entrar no reino do céu? Não, eu não queria perecer no inferno
e ser torturado para todo o sempre pelo diabo. Se havia uma coisa que
eu temia era o inferno. Só a possibilidade de minha alma queimar
eternamente me causava pavor; pois eu ouvia as piores e mais
terríveis histórias sobre o inferno não só na igreja, quando
íamos à missa, como também em casa e na escola desde pequeno,
embora com o passar dos anos passei a por em dúvida a veracidade
tanto dessas narrativas quanto a própria fé em Deus a ponto de hoje
ter perdido completamente a fé. Mas depois do acidente com a Lancha,
da morte do meu tio e durante boa parte de nossa estada naquela ilha,
minha fé manteve-se inabalável.
Só que eu não queria ficar pensando no
ocorrido para não pensar nos possíveis castigos, já que uma coisa
levava a outra. E isso só seria possível se eu me afastasse e me
entretece com alguma coisa. E como havia planejado antes, fui tentar
pescar com uma vara pontiaguda para fisgar os peixes.
A minha primeira dificuldade foi entrar
na mata para apanhar uma vara. Desde o episódio em que parecia ter
visto alguma coisa se aproximar, na noite em que Luciana me
surpreendeu masturbando-se e depois, com sua curiosidade e falta de
vergonha, me fez ter um orgasmo, eu não tivera coragem de ir tão
longe. Só de pensar que de qualquer ponto escuro da floresta poderia
surgir terrível e monstruoso e me devorar fazia-me gelar e tremer
dos pés à cabeça. Mas a necessidade muitas vezes é o que nos
obrigar a correr riscos imensos. E perdidos naquela ilha, se não nos
arriscássemos de vez em quando, não sobreviveríamos. Talvez por
isso tenha criado um pouco de coragem e adentrado a mata para
encontrar uma vara fina comprida e resistente para pescar.
Tive um pouco de trabalho para fazer-lhe
uma ponta. A nossa “faca”, que já não prestava muita coisa,
estava mais cega do que nunca. Aliás, quebrara numa das extremidades
onde mais cortava. Contudo, depois de muito resistir pacientemente,
consegui deixar uma das pontas fina o bastante para penetrar nos
peixes. E isso só foi possível porque me ocorreu de esfregar a
ponta da vara até que afinasse numa grande pedra
Agora só faltava treinar a pontaria. E
eu teria muito que treinar, pois desde pequeno a minha pontaria
sempre foi péssima. Contudo, estava obstinado a pegar um peixe.
Dir-se-ia questão de honra, embora pensasse nisso para evitar de
pensar em Marcela. E quando a gente quer, a gente consegue, basta ter
força de vontade. Sempre ouvia isso de meus pais. E eles estavam com
a razão. E por mais que eu fosse um garoto, era crescido o
suficiente para saber disso. Além do mais, eu tinha todo o tempo do
mundo. Poderia insistir, insistir o quanto quisesse. Poderia levar
alguns minutos, meia hora, uma hora ou até mesmo o dia inteiro, mas
em algum momento fisgaria um peixe.
E foi isso que não me fez desistir,
mesmo quando o sol mudou de lado e eu já estava prestes a deixar
para o outro dia.
De repente vi um dos grandes nadando
tranquilamente entre duas pedras. Então eu olhei fixamente para ele,
como se tentasse hipnotizá-lo. E por alguns instantes, me mantive
inerte, apenas com os movimentos de meus olhos e minha respiração.
A vara jazia em minha mão erguida, pronta para ser lançada. Mas eu
queria esperar o momento certo – aquele instante em que você tem a
certeza absoluta de que dessa vez não vai errar.
Esperei-o ficar numa posição em que
fosse fácil calcular onde a lança o atravessaria. E assim, medindo
bem com os olhos, coloquei toda a força no braço e atirei-a. Esta
atravessou o peixe bem no meio, pouco abaixo da cabeça e enroscou-se
nas pedras.
O pobre infeliz começou a se debater,
querendo nadar para frente, mas a lança mal se movia. E mais que de
pressa, abaixei e segurei-a pela outra ponta e a enterrei ainda mais
para não deixar nenhuma possibilidade de escapar. E assim, como
muito cuidado, desprendi-a das pedras e a ergui com peixe ainda se
debatendo.
Ah, que sensação mais deleitosa! Foi
como se, após uma luta feroz pela vida contra um inimigo bem mais
poderoso, eu o tivesse finalmente vencido. Não sei nem mesmo
explicar o que senti naquele momento. Nem mesmo hoje, depois de
muitos anos, ainda não encontro palavras capazes de descrever com
exatidão o que senti. Só posso dizer que me senti o homem mais
feliz do mundo.
Qual foi a minha primeira reação ao
apanhar a vara e erguê-la com o peixe sacolejando, desesperado para
se soltar? Embora o mais lógico fosse retirá-lo do espeto e tentar
fisgar outro, não foi isso que se passou pela minha cabeça. Aliás,
nem sei se ouve tempo para pensar, pois simplesmente sai correndo com
o espeto na mão em direção à cabana para mostrar as meninas o
resultado da minha pescaria.
Encontrei a Marcela e Ana Paula sentadas
lado a lado no chão, com os joelhos dobrados e os braços em volta.
Ana Paula estava com os olhos vermelhos, dando a impressão de ter
chorado mais uma vez.
Isso conteve meu estado eufórico,
todavia não o bastante para dizer:
-- Olha o que eu peguei. – Aproximei a
ponta onde o peixe ainda se agonizava sem forças.
-- Nossa! Que peixe grande! –
espantou-se Marcela.
-- Agora a gente não precisa mais ficar
comendo frutas o tempo todo – falei.
Ana Paula apenas ergueu a cabeça e
olhou com ar de indiferença, como se isso não representasse melhora
na nossa alimentação; em seguida tornou a abaixar a cabeça.
“Será o que aconteceu dessa vez?”,
indaguei-me em pensamentos, “Será que ela e a Luciana já brigaram
de novo?”.
-- O que aconteceu? – perguntei para
Marcela.
-- É por causa do pai dela.
Então a lembrança da triste morte do
tio Jamil me veio à memória. E por algum momento a cena do barco
virando e todos nós caindo no mar se formou em minha cabeça.
Esqueci o fruto da pescaria por alguns instantes. Olhei para Ana
Paula e para Marcela e pude ver o desespero em seus rostos quando nos
vimos as sós naquela imensidão de mar. E eu pude rever o meu
próprio desespero ao gritar pelo tio e não obter respostas.
Entreguei a vara com peixe para Marcela
e sentei ao lado de Ana Paula.
-- Não fique assim, prima – pedi,
tomando-a nos braços e afagando seus cabelos.
Ela apoiou a cabeça em meu peito e
tornou a chorar compulsivamente.
O pranto e a dor de minha prima acabaram
por me comover; pois não era simplesmente um choro como a maioria
dos que nos ocorre principalmente na infância. E por mais que
tentasse ser forte, não pude deixar de verter lágrimas; pois também
eu sentia um forte aperto no peito, consciente de que nunca mais
veria o tio Jamil, de que sua família ao saber de sua morte também
entrariam em desespero.
Marcela aproximou-se e também nos
abraçou. Embora não tivesse nenhum parentesco com nossa família,
também ela demonstrava estar consternada com a morte de meu tio.
E ficamos assim por algum tempo.
Entretanto, depois da dor tornar menos intensa e Ana Paula finalmente
parar de chorar, Marcela se levantou e foi mexer na fogueira.
Aproveitei o momento para levar a mão ao queixo de minha prima,
levantar sua cabeça e dizer-lhe enquanto olhava fixamente em seus
chorosos olhos:
-- Não fique assim. Tudo vai ficar bem.
Ana Paula meneou a cabeça e tentou
esboçar um sorriso.
Então lhe levei a mão ao rosto e
enxugue-lhe as lágrimas. Seus olhos denotavam muita dor, feitos os
olhos de uma criança sozinha, órfã, perdida no mundo, a qual só o
tempo é capaz de aliviá-la. Era como se a minha presença não
fizesse muita diferença, não confortasse sua dor.
-- E aí? Vamos preparar aquele peixe
para o almoço? – perguntei, tentando reanimá-la? Ela meneou a
cabeça afirmativamente. – Então vamos lá.
-- Como é que vamos fazer para limpar
ele? – quis saber Marcela.
-- Sei lá! – falei. – Nunca limpei
um peixe.
-- Eu sei mais ou menos. Já ajudei a
minha mãe a fazer isso algumas vezes – adiantou-se Ana Paula.
“Ótimo! Assim ela vai se entreter e
não vai ficar pensando na morte do pai. E a Luciana? Por onde
anda?”, pensei. Em seguida perguntei para a Marcela:
-- Cadê a Luciana?
-- Ah, não sei não. Disse que ia andar
por aí. Foi naquela direção. – Apontou a frente, para o lado
onde costumávamos apanhar frutas.
-- Vou atrás dela e contar que peguei
um peixe – falei, saindo da cabana e principiando a correr.
domingo, 29 de abril de 2012
SOU UM SONHADOR
Eu tenho ilusões e sou um sonhador
Como qualquer ser humano.
Quanto a isso eu não me engano.
Talvez eu seja apenas insensível de vez em quando
Como se a dor do outro não me dissesse respeito.
Mas será que isso é realmente um defeito?
Ou o fato de andar com o pé na verdade
Faz-me ver melhor a realidade?
Uma realidade que na realidade
É dura e fria como amiúde é a verdade.
Eu tenho ilusões e não deixo de sonhar de vez em quando
Pois não posso suportar a realidade
Com o peso que se impõe ao ser humano
Quando este procura sempre a verdade.
Não é por questão de fraqueza ou covardia
Que o homem às vezes foge da realidade
É para suportar as dores do dia a dia
As quais fatalmente o elevaria a completa insanidade.
Como qualquer ser humano.
Quanto a isso eu não me engano.
Talvez eu seja apenas insensível de vez em quando
Como se a dor do outro não me dissesse respeito.
Mas será que isso é realmente um defeito?
Ou o fato de andar com o pé na verdade
Faz-me ver melhor a realidade?
Uma realidade que na realidade
É dura e fria como amiúde é a verdade.
Eu tenho ilusões e não deixo de sonhar de vez em quando
Pois não posso suportar a realidade
Com o peso que se impõe ao ser humano
Quando este procura sempre a verdade.
Não é por questão de fraqueza ou covardia
Que o homem às vezes foge da realidade
É para suportar as dores do dia a dia
As quais fatalmente o elevaria a completa insanidade.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
ADEUS Á INOCÊNCIA - CAP. 25
-- Não. Para! – ordenou Marcela ao
sentir minha mão apertar-lhe o seio.
-- O que tem? Não estou fazendo nada
demais – declarei. Embora desejoso, sentia-me tenso, com o coração
palpitante, os lábios frios e as mãos quase trêmulas, pois no
fundo sabia que não estava cometendo um pecado; pelo menos no meu
entender.
Marcela olhava-me com desconfiança,
receosa de dar um passo em falso, de ir além da conta e depois se
arrepender. Aliás, se tem uma coisa que aprendi com ela e minha
prima, foi isso: o medo de ir longe demais. Não posso acreditar que
tenha sido mera coincidência as duas agirem dessa forma, com medo,
com receio de dar um passo maior que a perna, cair e se machucarem
profundamente. De todas, Luciana foi a única que não demonstrou
isso; talvez porque fosse a mais velha, a mais esclarecida e a mais
destemida; entretanto, nos momentos aonde ir longe demais poderia
custar-lhe caro, ela titubeou, embora isso não a tenha impedido de
seguir adiante. Acho que isso é algo que faz parte do instinto
feminino, algo encontrado em todas – ou quase todas – as
mulheres.
Por que elas se sentiam ameaçadas? Foi
o que me pus a perguntar várias vezes. No início, eu não soube
responder; aliás, era inocente demais para saber. No entanto, depois
com o passar do tempo e após ponderar bastante durante nossa estada
naquela ilha, cheguei a algumas suposições; e dessas suposições a
resposta mais condizente foi a de que faziam isso por temor da
gravidez (isso só ocorreu-me algumas semanas depois, quando Luciana,
ao se aproveitar de mim, falou dos riscos e do precisaria fazer para
evitá-la). Acho que no fundo elas pensavam: se ficarmos grávida e
não sairmos dessa ilha antes do nascimento, teremos que ter sozinhas
o filho aqui no meio do mato? Será que não tinham consciência
dessa possibilidade? E mesmo que não tivessem consciência disso, o
inconsciente antevia esses perigos, como um sexto sentido. Sim,
querido leitor. Não estou dizendo que tais conclusões sejam de todo
verdadeiras, uma vez que não sou versado no assunto, contudo foi a
melhor explicação encontrada por mim.
-- Eu sei. Mas eu não quero –
retrucou ela dando um passo para trás.
-- Então? Eu não vou fazer nada
demais. Eu gosto de você e jamais te faria algum mal. – Dei um
passo adiante, tornando a ficar frente a frente com ela, quase
colado. E estava tão próximo que podia sentir sua respiração
descompassada, como se ela se sentisse acuada feito uma presa. Seus
seios arfavam e a pele ia adquirindo certo brilho, devido às
minúsculas gotas de suor a brotar de todos os poros. Dir-se-ia estar
tão amedrontada quanto um animal atacado por um predador.
No curto intervalo de tempo, onde o
silêncio foi absoluto, nenhum detalhe me passou despercebido. E como
num golpe de sorte, percebi sua fraqueza, seu medo. Aí eu ponderei:
“Se eu pegar neles, ela não vai me impedir. Ela está assim por
isso, porque sabe que não vai escapar. Acho que ela pensa que não
adianta correr e nem gritar, porque estamos longe da cabana e elas
não vão ouvir. Ela está achando que se correr vou correr atrás
dela e agarrar ela a força. É mesmo! Nem havia pensado nisso! Eu
podia correr atrás dela, derrubar ela na areia e ela não ia poder
fazer nada. Sou mais forte. Não. Mas ela não vai correr. Se fosse
já teria corrido. Ela vai deixar. Quer ver?”.
Meus olhos fixaram-se nela e
mantiveram-se imóveis, como que vidrados, como os olhos de um
predador aguardando o momento certo para dar o derradeiro golpe em
sua presa. Nisso, uma secura subia-me pela garganta ao mesmo tempo em
que uma sensação desmedida de calor fazia-me o corpo transpirar. Os
meus pensamentos, desordenados e confusos até então, pareciam ter
cessado, como se uma força invisível e muito poderosa me impedisse
de pensar, de formar ideias, como se perdesse a capacidade de
processar imagens, sons e sensações. Eu era puro instinto; eis a
verdade!
E então, sem controle sobre meus atos,
minhas mãos se moveram como se agissem por si só e foram tocar
levemente os seios dela, sobre o biquíni. E tomado pela curiosidade
e desejo – eram eles quem me dominavam, quem me fazia agir assim –,
apalpei-os com as pontas dos dedos, como se apenas tencionasse sentir
a consistência daquelas formações arredondas e pontiagudas do
corpo dela, aquelas partes que no meu não existiam.
E ao tocar-lhe os seios, esperei que
Marcela dissesse alguma coisa, mesmo que fosse para me mandar parar,
mas ela não pronunciou nenhuma palavra e nem mesmo fez algum gesto
capaz me induzir a tirar as mãos e recuar; simplesmente ficou ali,
de pé diante de mim, com os seus meigos e confusos olhinhos presos
ao meu rosto, como que hipnotizada. Embora enleado, pude notar-lhe um
estado de submissão e até mesmo um quê de receio, como se temesse
os momentos seguintes. A verdade era que ela estava completamente em
meu poder tal qual eu vez ou outra ficava nas mãos de Luciana.
Eu também sentia medo. Mas o meu medo
era um medo diferente. Eu sentia medo do desconhecido, do novo e das
minhas próprias sensações. Pois a vendo ali tão dócil,
totalmente sob o meu poder, eu senti uma sensação de poder como
nunca sentira até então. Era como se sua vida, seu destino me
pertencesse e estivesse em minhas mãos. Era como se em minhas mãos,
tal qual nas mãos de Deus, estivesse o poder de dar-lhe ou tirar-lhe
a vida. E isso me provocava êxtase e pavor ao mesmo tempo. Aliás, o
poder nas mãos de quem sabe ter poder é usado sem medo, mas na mão
de um fraco é inútil e desastroso, por isso tenho de concordar com
aquele filósofo alemão que enaltece tanto os fortes e vê nos
fracos apenas uma ponte.
E foi por causa desse dualismo, desse
fluir entre duas sensações tão opostas que não cometi nenhum ato
do qual me envergonharia e me arrependeria por toda a vida. Cheguei
avançar um pouco mais, ao enfiar a mão por baixo do pano e
desnudar-lhe o par de seios, contudo, ao fazer isso e tê-los diante
de meus olhos, o pavor se apoderou de mim, como se um espírito
maligno saísse do meu corpo e minha alma retomasse o controle sobre
ele. Então retirei as mãos trêmulas e dei um passo para trás,
abaixando a cabeça de vergonha. Foi então que pensei: “Meu deus!
O que eu ia fazer? Ia me condenar ao inferno para sempre. Ia ser
atirado ao fogo, amarrado naquelas correntes grossas e chicoteado por
aquele monstro horrível enquanto o fogo me queimava todo. Eu ia
gritar por toda a eternidade. Meu deus! Ser queimado no inferno! Não.
Não deixa isso acontecer comigo. Eu prometo que vou parar de pensar
nessas coisas, que não vou agarrar ela de novo, que não vou querer
fazer com ela aquelas coisas que eu penso. Eu juro! Eu juro que,
quando começar a pensar nessas coisas e meu troço crescer, eu não
vou ficar pensando nisso. Mas não me deixe ir para o inferno. Eu vou
ser um bom menino. Prometo que vou rezar toda noite, se o Senhor me
perdoar”. E tais pensamentos por pouco não me arrancaram lágrimas,
feito um garotinho que, após uma travessura, se põe a chorar de
medo de levar uma grande surra dos pais.
Marcela, ainda envergonhada, arrumara o
biquíni no lugar. Em seguida abaixou-se para apanhar as bananas e
disse:
-- Vamos embora. As meninas devem estar
preocupadas com a nossa demora.
Concordei com meneios de cabeça, pois a
vergonha era tamanha que não tive ânimo nem para pronunciar uma
palavra. Aliás, se me fosse possível, imediatamente sairia a nado
daquela ilha. Ela se afastou e eu apanhei o restante das bananas
sobre a vegetação rasteira. E enquanto retornávamos – Marcela
seguia alguns passos à frente --, não tive nem mesmo coragem de
olhar para ela. Só pensava no que ia dizer quando chegasse, pois
tinha a certeza de que Luciana e a minha prima Ana Paula notariam
alguma coisa estranha entre a gente.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
ALGUÉM ASSIM COMO VOCÊ
Quando
eu partir dessa vida
Quero
levar apenas a lembrança
De
ter amado imensamente
Alguém
assim como você
Que
me ensinou a viver
Cada
dor e cada alegria
Com
o mais intenso prazer
Quando
aqui eu não estiver mais
E
então ter deixado para trás
Apenas
um rastro de minha passagem
Quero
que, ao lembrar-se de mim,
De
teus lábios escapem enfim
Um
deleite que te compraz;
Um
deleite que o tempo não desfaz.
E
quando minha partida se perder no tempo
E
tua memória esquecer os meus traços
Ainda
sim em teus braços
Há
de sentir os meus abraços;
E
em teus lábios murchos e ressecados
Há
de sentir os meus beijos molhados
Como
se o tempo não houvesse passado.
É
por isso que enquanto vivo estou
Faço
de cada instante
Motivo
para cultivar o amor
E
mesmo naqueles momentos
Onde
esbarro em nossas diferenças
Tento
te provar que meu amor
É
eterno, pois renova-se constantemente
domingo, 1 de abril de 2012
QUANDO O CORAÇÃO NÃO PARA DE SANGRAR
Chega a noite e uma voz penetra-me profundamente no ouvido
E
então eu me lembro em algum momento vivido
Do
rosto que, em carícias abundantes, produzia essa voz,
A
qual criava uma cortina sobre nós e nos deixava as sós.
Sem
que eu queria, o som dessa voz delirante
Faz-me
voltar ao passado; o coração sangra, quer aqueles instantes,
O
quais nas tardes frias de domingo, à beira mar,
Tornava
quente e aconchegante o mais gélido lugar
Inútil
dizer que tudo findou e ficou perdido no passado
O
coração é um ser que quer de volta o que lhe foi negado
Quando
no momento da mais pura e intensa felicidade
O
destino sorrateiramente veio e lhe mostrou a dor da saudade.
As
noites chegam e eu me vejo novamente atormentado
Por
essa dor que sangra feito um ferimento mal curado,
Cujo
sangue, num fluxo constante, leva-me também a vida
A
qual, a cada dia, gota a gota, deixa a morte bem nutrida.
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