terça-feira, 30 de junho de 2015

SEMENTES DO ESTADO ISLÂMICO


O tão temido “Estado Islâmico”, com sua violência, com seu desprezo pela vida, muitas vezes se assemelha aos bárbaros da antiguidade. Aliás, como não ver o tratamento dados por eles aos habitantes dos territórios que conquista e não se lembrar de Átila, o huno? Ou até mesmo Gengis Kahn? Talvez os mais terríveis homens da história. Mas Átila, Gengis Kahn e tantos outros fazem parte de um remoto tempo, de uma era onde a humanidade – senão toda, pelo menos a grande maioria dela -- ainda vivia mergulhada nas trevas da ignorância e do desprezo ao ser humano, pois a vida de um homem valia tanto quando a de qualquer outro animal. O “Estado Islâmico”, por outro lado, é fruto de uma era onde a vida é o bem mais precioso que se pode ter e onde qualquer ato de violência contra um semelhante causa indignação e revolta. Então, por que o surgimento de uma organização tão sanguinária e cruel, principalmente contra os inimigos? Seria uma volta à barbárie? Não, definitivamente não. De fato ele é fruto do fracasso daquilo que chamamos sociedade, uma vez que ela não é mais capaz de suprir os anseios de uma população materialista, individualista e ávida por bens materiais, onde a vida se tornou inclusive uma mercadoria. E na incapacidade de suprir uma necessidade cada vez maior de consumo, o homem se sente frustrado e sem perspectiva com relação ao futuro. E é aí que entra o “Estado Islâmico”. Eles prometem uma nova ordem social, um mundo menos materialista e, principalmente, uma eternidade gloriosa após a breve passagem pela vida terrena, coisa que a civilização ocidental não oferece mais, aliás como já afirmava Nietzsche em pleno século IXX, ao declarar que “Deus está morto” (A Gaia Ciência, aforismo 341). Enfim, o “Estado Islâmico” só precisou de um vasto terreno fértil, onde semeava o caos, para plantar suas sementes, as quais podem sem encontradas em abundância nos quatro cantos do mundo, principalmente no ocidente.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O MAIOR EQUÍVOCO DA NATUREZA















Em meio a uma hipocrisia desmedida
Vou equilibrando minha vida
Na esperança de que lá adiante
Depare com um futuro diferente;

Mas o tempo, esse inimigo da vida,
Faz minha esperança perdida.
Vejo a humanidade decadente
Definhando a cada instante.

Rumo a uma inevitável extinção
Talvez agora seja tarde demais
Para uma mudança de direção

O homem é o maior equívoco
Da natureza. E dentre os animais
À existência é quem traz maior perigo

domingo, 28 de junho de 2015

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 59

Naquela manhã, como acontecera outras vezes, não tínhamos o que comer. Assim, para quebrar o jejum, tomamos água de coco. Súbito, consultando um pedaço de tábua onde jazia uma série de riscos, Marcela disse:
-- Já não tenho certeza de quanto tempo estamos aqui. Será que não esquecemos de marcar algum dia?
-- Não sei – respondi. -- Você é que faz isso todos os dias.
-- 23 dias. Mas parece que estamos uma eternidade aqui – lamentou, deixando escapar uma voz triste. -- Será que já desistiram da gente?
-- Acho que as autoridades já. O Corpo de Bombeiros com certeza já encerrou as buscas – asseverou Luciana.
-- Mas nós tamos vivos. Eles num podem parar de procurar a gente – exclamou Ana Paula.
-- Por que não? Não vão procurar a gente a vida inteira. Como não acharam a gente, para todos efeitos já estamos mortos – afirmou Luciana.
-- Será que nossos pais também desistiram? -- perguntei.
-- Não, acho que não. Eles ainda tem esperança de encontrar a gente – disse Marcela. -- Talvez pensem que a gente esteja perdido numa ilha qualquer.
-- Como realmente a gente tá – acrescentou minha prima.
-- Só não entendo porque nunca vieram procurar a gente aqui – falei.
-- Talvez porque tenham encontrado os destroços do barco muito longe daqui. Eles não vão procurar o oceano inteiro. Procuram até um certo ponto. E se não vieram procurar a gente aqui quer dizer que viemos parar muito, mas muito longe de onde o barco afundou – explicou Marcela. -- a gente ficou boiando por quase dois dias.
-- Também acho – concordei. -- Mas acredito que dia menos dia vai aparecer alguém aqui. Ai será nossa chance de voltar para casa.
-- Quanto a isso, tenho de concordar com vocês. Só acho que não será tão cedo. Não encontramos marcas recentes da passagem de alguém por aqui. E por quê? Porque esta ilha é muito pequena e sem importância. Claro que algum curioso vai vir aqui qualquer dia. Mas pode ser que demore ainda alguns meses – disse Luciana.
-- Mas será? -- indaguei.
-- Eu estava até pensando sobre isso uma noite dessas, enquanto tomava conta da fogueira. A gente tinha viajado em direção ao norte. Isso quer dizer que talvez a gente nem esteja longe do litoral, mas longe o bastante da rota de navegação. Por isso nunca vimos sinal de barcos ou navios – continuou Luciana com um certo ar de superioridade, como se aquela suposição fosse fruto de uma inteligência excepcional embora, é preciso admitir, ela fosse dotada de uma esperteza invejável. Prova disso era a facilidade com que me manipulava. -- Também não adianta a gente ficar lamentando. -- Levantou-se, limpou a areia das nádegas e acrescentou: -- Estou com fome e não temos nada para comer. Não é melhor a gente tratar de pegar uns peixes logo?
-- Tem razão – falei, levantando-me. -- Vou pegar uns enquanto vocês vão procurar alguma coisa para a gente comer.
-- E você vai me ensinar a pescar e a usar a flecha como prometeu ontem – lembrou-me Luciana. -- E vocês duas, que gostam tanto de andar no mato, vão fazer a parte de vocês. Precisamos matar algumas dessas aves. Tantas por ai e nós aqui passando fome.
Ana Paula e Marcela levantaram-se. Apanharam a lâmina de ferro e partiram desejando-nos sorte na pescaria.
-- Já que você quer tanto aprender a pescar, então vamos. Só quero ver no que vai dar isso – felei instantes depois, apanhando a lança que jazia recostada a um dos cantos da casa. -- Pensa que é fácil? Levei tempo para aprender.
-- Tá pensando que não sou capaz de aprender? Você vai se surpreender – disse ela, pegando-me na mão, prostrando-se bem a minha frente e acrescentando: -- Mas antes quero um beijo bem gostoso. Quero sentir o gosto da tua boca. Estou com saudades. Se não fosse aquelas duas ia ficar te beijando o tempo inteiro.
-- Agora não. Elas podem voltar – falei, procurando evitar que aquele beijo pudesse ser o primeiro passo de outros que acabariam me levando a deitar-se com ela.
-- Não. Elas não vão voltar. E você também não vai querer que eu fique brava, né? Você sabe que quando não me obedecesse eu fico muito brava e perco a cabeça, não sabe?
Nisso, senti suas mãos agarraram-me por entre as pernas a dor embora leve chegou-me ao cérebro.
-- Sei sim -- respondi, vencido.
-- Ótimo. Então seja um bom menino.
A dor desapareceu e então senti sua mão escorregar um pouco para cima e agarrar-se outra parte do meu corpo; mas ao invés de apertá-la, apenas a acariciou. Nisso, meus lábios haviam encontrado os delas e sua língua procurava desesperadamente enroscar-se a minha.
Eu apenas e segurava pelos quadris enquanto ela usava um dos braços para me prender pelo pescoço. Súbito porém, ela o tirou e pegou num dos meus punhos e levou e o ergueu até que minha mão foi parar-lhe no seio. Como se eu fosse um idiota ou não soubesse o que fazer, ela pegou-me a mão a fez apertar-lhe o seio. Talvez por não conseguir fazer várias coisas ao mesmo tempo, a outra mão, a qual parara de mexer como meu falo, voltou a deslizar sobre ele para frente e para trás. Isso me levou a espremer os quadris contra os dela a fim de evitar que ele continuasse, pois assim não haveria espaço para os movimentos de sua mão. Ela porém interpretou meu gesto de outra forma. Pensou que eu tencionava penetrá-la. Assim, afastou as pernas e seus ágeis dedos conseguiram empurrar-me o falo para o meio delas.
Até então eu procurava conter a excitação. Mas diante de certas circunstâncias, não tive como evitá-la. Embora tenhamos por hábito julgar aquele que não foi capaz de conter seus instintos, na realidade deveríamos ser bem mais condescendentes com essas pessoas, uma vez que em se tratando do instinto praticamente nada pode ser feito para contê-lo. Assim, meu falo reagiu instantaneamente.
-- Isso. Deixa ele ficar do jeito que eu gosto. Tô com saudades dele – disse-me ela, quando seus lábios finalmente deixaram os meus.
-- Mas a gente tem que pescar. Não temos nada para comer – argumentei.
-- Daqui a pouco a gente vai. Os peixes não vão fugir. Elas também não voltar tão cedo – disse ela. -- Vem cá – deu um passo para trás e sentou numa das camas, a qual estava forrada com folhas de bananeira. -- Estou pegando fogo.
Não compreendi aquele pegando fogo embora cheguei a deduzir que se tratava de algo relacionado com a sua vontade em se deitar comigo. Aliás, não de importância a isso. Principalmente após vê-la deitar-se e abrir as pernas para me receber.
Tudo foi muito rápido, mais do que das outras vezes, talvez porque enquanto a fodia, imaginava Marcela e não Luciana entre mim e aquela cama. Ela porém manteve-me preso entre seus braços. Meu rosto jazia apoiado entre os seios dela. Os lábios jaziam entreabertos ao lado de um dos mamilos dela, o qual, momentos antes, por mais de uma sofrera a pressão de meus dentes.
-- Alguma coisa está acontecendo comigo – disse ela, dando fim aquele silêncio que se formara após o gozo. -- Meus peitos estão sensíveis e até doeram quando você ficou chupando eles. Isso antes não acontecia.
Levantei a cabeça, fitei-os e só então a indaguei:
-- Como assim?
-- Não sei. Sinto que tem algo estranho. E ainda não menstruei. Talvez seja por isso. Já vai fazer um mês que fiquei da última vez.
-- Menstruar é ficar naqueles dias? -- perguntei, lembrando do que Ana Paula me dissera no dia anterior.
-- É.
-- E o que acontece se você não ficar?
-- Se eu não ficar quer dizer que possa estar grávida.
-- Gravida? -- dei um sobressalto e sai de cima dela.
-- É. Não sei ainda. Mas pode ser que a gente vai ter um bebê.
-- Eu num quero ter um bebê contigo – falei com ar de revolta e sentindo-me usado, como se o mundo estivesse por desmoronar-me na cabeça. E ao imaginar-lhe um recém-nascido nos braços e ela me oferecendo aquele bebê, dizendo-me que era nosso filho, subitamente fui tomando pelo desejo de pegá-lo a atirá-lo longe como teria feito uma criança mimada ao ganhar um brinquedo que não lhe agradasse. E ao me ver fazendo isso, não fui tomado pelo arrependimento, nem mesmo de ter aqueles pensamentos. Aliás, ao supor que este filho de fato viesse ao mundo, senti apenas ódio, tanto dela quanto da criança. “Se ela quer tanto ter um bebê, então que fique com ele. Eu num quero, não quero o bebê dela. Eu amo a Marcela e é só ela que eu quero...”, lembrou-me de pensar.
-- Por que não? Vai ser incrível.
-- Não. Não vai ser incrível coisa nenhuma. Eu num quero! – falei, demonstrando ainda mais irritação. -- E nem tenho idade pra isso.
-- Mas se eu estiver, você não pode fazer nada. E aposto que fosse com a Marcela você ia querer. Não é verdade?
Não, eu não queria ter um filho com ela também. Pelo menos não desejava isso. Talvez, quando fosse mais velho e estivesse preparado para ser pai, mudasse de opinião. Mas naquela ilha não queria engravidar nem uma nem a outra.
-- Claro que não.
-- Duvido. Mas aposto como você vai mudar de ideia quando ver minha barriga crescer. E meus peitos vão crescer também. Sabia?
-- Não, não vou mudar. Já disse que num quero ter um filho teu.
-- Bobinho. Se eu não tiver, vou ficar mais cedo ou mais tarde. E você não vai poder fazer nada.
De fato ela estava certa. Não estava em minhas mãos decidir se ela teria ou não um filho meu. Ela me dominava e fazia de mim o seu brinquedo. Enquanto eu continuasse a despejar quase que diariamente todo o meu sêmen dentro dela, seria apenas questão de tempo para que fosse fecundada, embora eu não soubesse direito como engravidar uma mulher, uma vez que sabia que o fato de ter se deitado com ela não era o suficiente.
Luciana sentou na cama e olhou para o meio das pernas. Em seguida levou a mão lá e a retirou toda lambuzada.
-- Nossa! Quanta porra! Melhor a gente ir se lavar. Isso aqui vai me escorrer pelas pernas abaixo – disse levantando-se.
Ela se aproximou e tentou me abraçar, mas eu me afastei, empurrando-lhe a mão para longe de mim.
-- Não fica assim. Eu ainda não sei se estou grávida. E se tiver também, você ficar com raiva de mim não vai adiantar de nada. Vem cá, seu bobinho. Não se preocupa com isso agora. Vamos pegar aqueles peixes. Estou faminta.
Permaneci em silêncio. Apanhei a vara e sai. Luciana me seguiu de perto, puxando assunto a fim de fazer com que eu falasse consigo. No entanto, não me deixei dobrar. Mantive-me calado. Aliás, aproveitei aquele silêncio para pensar em Marcela e no que lhe diria caso viesse a ser pai.
-- Como é que eu devo segurar a lança? -- perguntou ela, quando chegamos. -- Assim? -- Levantou-a, segurando na altura do ombro, como eu fizera da última vez em que a levei para me ver pescar.
-- É – respondi, abrindo a boca pela primeira vez desde que deixamos a cabana. -- Fala baixo, senão eles assustam – sussurrei.
-- E agora? O que eu faço? -- perguntou ela num tom de voz tão baixo que quase não consegui ouvir.
-- Você mira ele. E quando tiver certeza de que vai acertar ele, atira ela com força – expliquei.
Luciana ficou imóvel por alguns instantes, com os olhos fixos num peixe que parecia não se importar com a nossa presença, talvez porque não tinha nos notado ali. Súbito, ela lançou a vara, mas esta enterrou a ponta na areia a cerca de meio metro do peixe. Este, com o som produzido, desapareceu da nossa vista.
-- Merda! Errei! -- esbravejou. -- E agora?
-- Pega a lança e vamos esperar um pouco que aparece outro. Às vezes, até mais de um – expliquei. -- Ai você tenta de novo. Mas tente mirar mais certo dessa vez.
Alguns minutos depois, outro peixe apareceu.
-- Você não vai me escapar – balbuciou ela.
Deixei que ela mirasse e tentasse acertá-lo. Mas ela não teve a paciência necessária para esperar o melhor momento. Ela simplesmente atirou a lança e esta foi parar ainda mais longe.
-- Quer saber duma coisa? Não quero mais aprender a pescar. Isso é muito difícil. É coisa para homem – disse ela, dando alguns passos sobre as pedras e apanhando a lança. -- Toma! Vou ficar em cima daquela pedra olhando. Se eu ficar aqui tentando, não vamos ter o que comer hoje – acrescentou por fim, enquanto se afastava. Deu alguns passos e sentou numa grande pedra, cerca duns dois metros de onde eu estava.
Fez silêncio por alguns instantes. Então ela principiou a dizer alguma coisa. Mas antes que ela terminasse a palavra, fiz-lhe sinal de silêncio. Ela calou-se até que me viu atirar a lança e apanhá-la em seguida com um peixe pequeno se debatendo, embora devesse pesar umas 300 gramas.
-- Nossa! Que rapidez! -- exclamou ela, com empolgação. -- Pelo menos nisso você é eficiente – acrescentou em seguida com um tom de sarcasmo.
Depois de tirar o peixe da lança e espetá-lo na vareta que eu costumava usar para transportá-los, fiquei na espreita a fim de fisgar o próximo. Às vezes, eles retornavam rápido, mas vez ou outra tinha de ter paciência e esperar uns bons minutos.
O próximo não demorou muito. Aliás, vieram três de uma vez. Assim, pude escolher o maior. Lancei a vara e por pouco não o errei. A ponta atravessou-o próximo do rabo. Se eu não tivesse sido rápido em puxá-la para fora e dar-lhe uma pedrada na cabeça provavelmente teria escapado mesmo assim. Após parar de se mexer, espetei-o na vareta junto com o outro e dei-os para Lucina segurar.
-- Nossa! Esse é bem grande hein – disse ela. -- Hoje vamos passar bem.
-- Tamos com sorte – respondi.
Voltei a ficar na espreita. Levou algum tempo até que consegui avistar outro um pouco mais adiante de onde fisgara o último. Mirei-o e então atirei a lança. Dessa vez porém não tive sorte. Errei-o por alguns centímetros.
-- Merda! -- exclamei. -- Escapou. E o pior que agora eles vão ficar com medo e vão demorar a aparecer. -- De fato, normalmente era isso que ocorria. Eles pareciam pressentir o perigo e só retornavam depois de algum tempo. Vez o outra eu tinha de esperar um tempão até que conseguisse avistar outro.
Esperamos por uns cinco ou dez minutos. Talvez até mais, já que não tínhamos como marcar o tempo, uma vez que o meu relógio de pulso fora danificado pela água e deixara de funcionar desdes a nossa chegada àquela ilha.
Luciana manteve-se em silêncio a maior parte do tempo. Súbito, quando eu circulava entre as pedras a fim de ver se avistava mais algum peixe, ouvi-a perguntar:
-- Você acha a minha bunda bonita?
Desviei os olhos em sua direção e a vi curvada sobre a pedra, mostrando-me o traseiro. Olhei para suas nádegas com uma certa indiferença. Ainda não havia reparado atentamente em seu traseiro. Nos seios sim. Achava-os bonitos. Talvez porque eram grandes. Mas aquele traseiro não me despertara a mesma atenção. Reparando-o porém naquela posição não havia como negar os seus atrativos.
-- Ah, sei lá! Nunca reparei – respondi.
-- Então repara, seu idiota!
Ela mexeu os quadris e balançou o traseiro como que o oferecesse a mim. Aliás, fez questão de se curvar mais a fim de que eles se destacassem.
-- E aí? O que você acha?
-- É bonita sim – respondi, como quem cumpre apenas a obrigação de dar uma resposta.
-- Você gostaria de me pegar assim? Por trás? -- Ela afastou um pouco as pernas e tornou a mexer os quadris.
Aquela pergunta me desconsertou de tal forma que por pouco não perdi o equilíbrio e caí sobre as pedras. O que me afetou não foi a pergunta dela, mas a lembrança que dos quinze dias passados na casa dos pais de Fabrício, fazendo-lhe companhia enquanto seus pais viajavam para São Paulo. Súbito, veio-me a imagem de meu primo excitado embaixo do chuveiro (eu também estava) brincando de passar o seu pênis nas minhas nádegas. De repente ele me abraçou por trás e o introduziu no meio de minhas pernas, movimentando os quadris para frente e para trás enquanto acariciava o meu pênis. Não sei por que razão, ele, resolveu me chamar para “meter”. Eu não sabia ao certo o que ele estava querendo dizer, por isso disse que não. Mas ele insistiu e foi persuasivo. Pressionado e sem ter como escapar ou a quem recorrer, já que só a empregada da família estava em casa, acabei aceitando. Só não imaginava que ele fosse me penetrar e, apesar de meus protestos, continuar até chegar ao orgasmo.
-- Eu? Por quê?
-- Porque eu li outro dia numa Playboy do meu pai que a maioria dos homens adoram possuir a mulher por trás, como os animais fazem. Agora eu me lembrei disso assim do nada. Ai pensei: será que ele também gosta? Você não gostaria de trepar em mim assim? -- Luciana continuava a mexer os quadris como se procurasse me excitar.
Talvez se eu fosse um rapaz mais velho e não tivesse o trauma de ter vítima desse tipo de experiência, tivesse ficado excitado na hora, mas eu era apenas um menino de 13 anos, totalmente averso ao sexo anal. E mesmo que não fosse esse trauma, ainda sim seria bem possível que me exibir o traseiro não me excitasse como ela provavelmente estava imaginando. A chama da volúpia ainda não tinha aquela força e virilidade tão comum nos rapazes que trilham o misterioso caminho da puberdade. De mais a mais, tínhamos transado pouco antes. Assim, procurando ocultar minha afetação e mostrado ar de indiferença, tornei a responder:
-- Ah, não sei! Talvez.
-- Como não sabe?
-- Não sabendo. Eu nunca fiz! -- menti.
Fabrício, para tentar me convencer a deixar que ele me penetrasse novamente na noite do dia seguinte, quando já estávamos na cama, disse que me deixaria “meter” nele também. Mais uma vez persuadido, acabei aceitando. Mas, após o gozo, ele rolou para o lado e disse que não estava mais com vontade e que no outro dia deixaria. Envergonhado como estava, não tive coragem de insistir. No outro dia, ele realmente cumpriu a promessa quando tomávamos banho. Deitou no chão do banheiro e disse para eu “trepar” nele, mas deixou bem claro que não era para “enfiar”. Aliás, fiquei em cima dele por cerca um minuto. Talvez percebendo que aquilo não daria em nada, pois até então eu nunca tivera um orgasmo, disse: “agora é a minha vez”. Trocamos de posição e assim que trepou em mim, penetrou-me. Dessa vez porém não cheguei a protestar. Apenas aguardei.
-- Então por que não vem descobrir?
-- Não. Num tô com vontade. Tenho que tentar pegar mais uns peixes -- esquivei.
Apesar da minha recusa, ela continuava a mexer os quadris. Agora, entretanto, mexia-os para cima e para baixo. Fitei-a por alguns instantes. Temendo porém que aquilo acabasse me afetando e me levasse a aceitar o seu convite, virei para o outro lado e fingi procurar peixes na água.
-- E se eu te desse o cu?
Confesso não saber onde enfiar a cara. No entanto, não podia deixar que ela percebesse. Lembro perfeitamente de minha preocupação um tanto exagerada com isso, talvez para ocultar o meu passado. De forma que me fiz de desentendido.
-- Como assim?
-- Você não sabe o que é dar o cu? -- perguntou ela com um ar de incredulidade, como se eu tivesse a obrigação de saber tudo.
-- Não. Quer dizer, sei mais ou menos – menti.
-- Cada vez eu tenho mais certeza que você é um idiota. Dar o cu é deixar você enfiar o teu pinto no meu cu, ao invés de enfiar na minha boceta. Entendeu agora? -- Luciana parecia irritada, pois seu tom de voz havia mudado. E isso ficou ainda mais claro quando ela se ergueu e virou de frente para mim.
-- E para que eu ia querer enfiar meu pinto na sua bunda? -- Proferi a palavra bunda porque não tive coragem de falar cu. Fabrício, nas primeiras vezes também disse bunda, mas depois, demonstrando intimidade, simplesmente me agarrava por trás e dizia: “vem cá, deixa eu comer seu cu”, o que eu consentia.
-- Porque eu li na mesma revista que muitos homens adoram fazer isso. Eles dizem que sentem mais prazer. E algumas mulheres diziam que também sentem muito prazer. Não vejo qual a graça disso, mas se você quiser experimentar eu também deixo. Você quer? -- perguntou ela, vindo em minha direção.
Embora eu estivesse de costas, mergulhado em velhas lembranças, pude perceber seu aproximar. Ouvia seus passos sobre as pedras.
Tentando demovê-la de qualquer tentativa em me seduzir ali, disse-lhe de forma categórica um “não”.
-- Ah, mas eu vou querer experimentar. Nem que seja só para saber como é. – Pude ouvir sua voz cada vez mais próxima. -- Você vai enfiar para a gente experimentar, não vai? -- As últimas palavras soaram tão próximas que pude sentir sua respiração na minha nunca. Então ela me abraçou e escorregou a mão direita até meu falo e o acariciou. -- Que tal se a gente experimentasse agora? Tô morrendo de curiosidade.
-- Não. Agora não – respondi, tirando-lhe a mão e me desvincilhando dela.
-- Por que não?
-- Porque não estou com vontade – tornei a responder. -- E eu preciso pegar pelo menos mais um peixe. Esses dois não vai dar para matar nossa fome o dia todo – acrescentei.
Contrariada, Luciana acabou dizendo:
-- Tá bom então, seu frouxo! Mas mais tarde, você vai fazer.
Ela voltou a sentar na mesma pedra e tornou a ficar em silêncio me observando. Não sei o que se passava naquela cabeça, mas nas poucas vezes em que virei os olhos em sua direção ela parecia compenetrada, como se estivesse perdida em pensamentos. Talvez divagasse acerca de seus pais ou até mesmo com alguma coisa não relacionada a mim, mas hoje tenho quase a certeza de que simplesmente fantasiava comigo. E só saiu daquele estado de absorção e correu em minha direção quando gritei que pegara mais um peixe.
-- E esse também é grande – falei, ao espetá-lo junto com os outros.
Pouco depois peguei o quarto peixe e dei aquela pescaria por encerrada, temendo que ela viesse a insistir em fazer aquelas coisas, uma vez que aqueles quatro peixes nos eram suficientes para aquele dia, apressei em chamá-la para retornarmos.

terça-feira, 9 de junho de 2015

EU QUERIA PARAR O TEMPO


Eu tento voltar no tempo, num passado em que você ainda não tinha entrado na minha e nem fazia parte do meu mundo, transformando a minha e a tua história numa coisa só; mas confesso-te que não consigo. Não que o passado seja assim tão distante ou o tempo tenha se encarregado de envolver em densa névoa as minhas lembranças. Não, não é nada disso. É que o meu passado parece tão insignificante e tudo que vivi ou experimentei me parece tão superficial. É como se tudo não tivesse o menor valor e tivesse sido apenas uma “ponte para que eu chegasse a você”, meu amor.
Talvez eu esteja exagerando e vendo as coisas de uma forma distorcida. Mas o que fazer? Se, depois de te conhecer e me apaixonar por você, tornei-me outro homem? Confesso-te que num primeiro momento, eu me senti “como um frágil barco surpreendido em alto mar por um vento furioso”. Mas eu nunca tinha me apaixonado antes. Era tudo tão novo e repleto das mais intensas sensações. E o amor tem dessas coisas: adiciona aos nossos sentidos um novo filtro comandado pelo coração, dando uma vivacidade e uma nova capacidade, mais humana diga-se de passagem, de ver, ouvir, sentir e interpretar o mundo a nossa volta. E tenho de te confessar, meu amor, que tudo a minha volta hoje me parece tão mais belo, tão mais cheio de vida e cor. E devo tudo isso a você.
Cada momento com você é mágico, cheio de vivacidade e envolto nas mais intensas emoções. Às vezes, eu tenho a sensação de estar, num único dia, vivenciando coisas que, se não fosse por ti, eu levaria toda uma vida; ou talvez uma única vida nem fosse suficiente e então eu teria de viver tanas outras para experimentá-la.
O teu olhar, o teu sorriso, o toque sutil de tuas mãos acariciando-me docilmente, fazem-me desejar a eternidade do presente, o parar do relógio do tempo. Ah, se eu pudesse quebrá-lo! Ah, se eu pudesse impedir os ponteiros de avançar! Mas isso é impossível. Um desvario sem tamanho. Assim, só me resta guardar esses instantes na memória, mantê-los na lembrança enquanto me for possível viver.
Eu não gosto de falar do futuro, de fazer planos. Quanto a isso, sou mais comedido. Talvez você até estranhe esse meu comportamento, mas é que eu prefiro não me prender ao amanhã, ao vir a ser. Ele é tão incerto. Tão cheio de talvezes! Por isso, procuro viver o presente da forma mais intensa possível. Horácio diz: “satisfeitos com o presente, evitemos preocupar-nos com o futuro”. Talvez seja esse o meu problema. Talvez eu até tema o futuro, pois nem mesmo posso imaginá-lo sem que você não esteja nele.
Da mesma forma que não me agarro ao passado. Eu quero repousar a minha cabeça nos teus braços toda noite, te beijando e te dizendo “boa noite, meu amor”; quero acordar no dia seguinte com você ao meu lado todos as manhãs da minha vida te desejando um “bom dia”; assim como eu quero sentar à mesa contigo em todos os cafés da manhã e em todos os momentos que nos for possível estar juntos. Essas pequenas coisas me são tão significantes. E eu sei que você também deseja isso tanto quanto eu. Mas “por que, em tão curta vida, fazer tantos projetos?” Deixemos que isso ocorra naturalmente.
Dizer-te o quanto te amo não é possível, pois não se pode ter a medida dos seus próprios sentimentos. Posso porém afirmar-te que te amar é o maior e mais intenso acontecimento em minha vida. Por isso, eu lhe dedico todos os instantes; por isso o meu querer infundado em parar o tempo; por isso essas palavras dir-se-ia quase insanas.
Eu me atenho por aqui e deixo que o silêncio de minhas palavras – “o próprio silêncio tem a sua linguagem” como diz Lucrécio – continuem regando o nosso amor, fixando cada vez mais fundo as suas raízes, pois muitas vezes as palavras são superficiais e estorvantes, tirando a beleza daquilo que apenas o silêncio é capaz de dizer. No entanto, antes de por o ponto final, quero que você saiba: EU TE AMO.

terça-feira, 2 de junho de 2015

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 58

    Durante seis dias, trabalhamos arduamente nos alicerces do que viria a ser a nossa casa. E aquele instrumento, com o qual fiz uma espécie de machado, permitiu-me cortar árvores pequenas e jovens, das quais fez-se as colunas e os caibros de sustentação do telhado. Foi a parte onde o trabalho foi mais árduo e no qual não pude contar muito com a ajuda das meninas, já que se tratava de um trabalho braçal. Enquanto isso, elas vasculharam a mata a fim de apanhar cipós para as amarras. Os poucos pregos que tínhamos não daria para muita coisa e muitos deles estavam tão velhos e enferrujados que não resistiriam às batidas. Por falar nisso, uma outra chapa de ferro foi encontrada no segundo dia, assim como um pedaço de barco no qual jaziam 4 pregos velhos e dos quais consegui aproveitar dois.
    -- Num sei como a gente num encontrô eles antes – disse minha prima.
    -- Porque a gente não procurou – disse Marcela. -- Eles já estavam lá quando chegamos aqui. E provavelmente devem haver mais por ai – acrescentou. -- Mais cedo ou mais tarde vamos achar mais.
    -- É isso mesmo – concordou Luciana – E com isso aqui – levantou o pedaço de ferro que ela mesmo havia achado – podemos fazer uma faca de verdade.
    -- Mas só depois que essa cabana estiver melhor. Por enquanto temos que nos concentrar só nisso – falei. -- Ainda temos muito trabalho por um bom tempo.
    Essa conversa deu-se no segundo dia em que se iniciou a reforma da cabana.
    Ao longo dos seis dias, não houve brigas, ataques de ciúmes ou coisa parecida. Nem mesmo quando a peça do biquíni improvisada acabou se rompendo, deixando Marcela nua em definitivo. Nada lembrava as semanas anteriores, onde Luciana, tomada pelo ciume, procurava me manter o tempo todo sob seu olhar. O único fato estranho nesses dias foi um mal estar repentino que a levou a rejeitar a inclusive o peixe assado. Não sabíamos o que estava se passando com ela. Nem ela mesma. Acreditávamos que talvez tivesse bebido água de coco estragada ou comido alguma fruta meio verde, a qual causara-lhe a ânsia de vômito e aquele mal estar.
    -- No começo, quando a gente chegou aqui, a gente ficou assim: vomitávamos e tínhamos diarreia – falei. -- Vocês se lembram? Mas depois a gente não passou mais mal. Vai ver que é isso. Talvez tenha sido aquelas goiabas meio verdes que a gente comeu ontem – acrescentei. Graças a insistência de Luciana em me corrigir, eu já não pronunciava o “não” de forma incorreta, embora vez ou outra esse erro me escapasse.
    -- Mas todos nós comemos e só ela ficou assim – disse Ana Paula.
    Estávamos sentados diante da fogueira enquanto a noite se aprofundava lá fora.
    -- Talvez foi porque ela ficou vários dias deitada, sem poder se mover e o organismo dela ficou fraco. Ai, as goiabas fizeram mal a ela – supus. Embora não houvesse uma explicação aparente, eu insistia na tentativa de justificar aquele mal súbito, como se inconscientemente tencionasse esconder a verdadeira causa, a qual jazia ignorada por todos nós, mas não por muito tempo.
    -- Vai ver que é isso mesmo – deixou escapar Marcela. -- Mas se for, amanhã ou depois ela já vai estar melhor. A gente andou comendo goiabas demais esses últimos dias.
    -- Pode ser – disse Luciana titubeante. -- O estranho é que, quando ficamos assim, também ficamos com diarreia. E agora eu estou cagando normal.
    -- Isso é verdade – disse Ana Paula. -- Eu fiquei com uma caganeira danada. E era água pura. E até parecia que ao invés de cagar eu tava era mijando. -- Aquelas palavras inclusive provocaram risadas em todos nós.
    Aquele estado de descontração durou por mais algum tempo, até que o sono chegou e quem não tinha de tomar conta da fogueira foi dormir, já que mais cedo ou mais tarde teria de se levantar para assumir o posto do outro e assim sucessivamente até que o dia amanhece.
    Embora ainda não fosse uma casa de verdade, aquela construção era bem melhor, mais confortável e mais robusta e resistente do que a velha cabana. Não se tratava mais de um cubículo no qual mal cabia nós quatro. Faltava ainda fechar as paredes, nas quais foram usados galhos de árvores trançados e cujas extremidades eram presas aos alicerces com cipó. Mas ainda sim ficavam um buraco ou outro, já que os galhos de árvores tem por característica não serem totalmente retos. Todavia, dada as ferramentas que dispúnhamos e a nossa falta de conhecimento, a cabana, a qual decidimos chamar dali em diante de casa, ficara melhor do que se esperava. As camas ainda não estavam prontas. Apenas uma delas fora construída com o intuito de ser testada. A estrutura assemelhava-se a uma cama de verdade, embora os pés fossem fixos no chão e o estrado não passasse de finos troncos de árvore e sobre os quais, para deixá-la macia e aconchegante, ainda não tínhamos chegado a um consenso, uma vez que Luciana sugerira folhas de bananeiras, Marcela arbustos e só então as folhas de bananeiras e eu sugerira vasculhar a mata a fim de encontrar algo melhor. Assim, com o impasse, a decisão definitiva ficara para depois, para quando todas as possibilidades fossem testadas.
    Por duas noites testou-se cada uma das sugestões. Por fim chegou-se a conclusão de que teríamos de procurar outra alternativa, uma vez que as folhas de bananeiras não resistiam por muitos dias e a substituição levaria inevitavelmente à escassez e ao fim das mesmas, as quais na realidade eram nossa fonte de alimentação.  Aliás, foi Marcela quem nos alertou:
    -- Se a gente continuar cortando as folhas, as bananeiras não vão dar mais bananas, vão morrer e a gente ter menos opção ainda. Já não temos muito o que comer nesse fim de mundo!
    -- Ela está certa -- concordou Luciana, numa das raras vezes em que lhe deu razão. Embora, em muitos casos discordava dela não porque Marcela estivesse errada, mas por puro ciúme.   
     -- Não podemos destruir nossa fonte de alimentação. Senão a gente vai viver de quê? Peixe e goiaba? Nem disso, porque daqui uns dias as goiabas vão acabar. Elas não dão o ano inteiro – disse Marcela, que nessas horas mostrava todo o seu conhecimento. -- Eu estava até pensando: aqui tem um monte de aves. Por que a gente não mata uma de vez em quando para comer?
    -- Mas matar como? -- volvi. -- Elas não deixam nem a gente chegar perto!
    -- É mesmo! -- concordou Ana Paula.
    -- Ora! É só a gente fazer um arco e flecha.
    -- A flecha ainda dá. Mas como a gente vai fazer um arco? A gente não tem corda – insisti.
    -- É só usar um cipó.
    Como isso não nos ocorrera ainda? Era uma coisa tão simples. Quando nos ocorreu de usar uma lança para pegar peixes, essa mesma sugestão poderia nos ter levado ao arco e a flecha, mas isso nos escapou. Talvez o fato de estarmos preocupados demais com os nossos próprios interesses levou-nos a negligenciar o coletivo. E agora que as brigas, as intrigas, as explosões de ciúmes e até mesmo instinto sexual amenizaram-se houve espaço para que as ideias e as sugestões de interesse coletivo viessem à tona.
    --Não vai ser nada fácil aprender a acertar esses bichos. Eles são muito rápidos – afirmou Luciana. -- Aposto como vai ser mais difícil do que usar aquela lança para acertar os peixes.
    -- Talvez não. É só a gente esperar ele pousar. Ai fica mais fácil – explicou Marcela.
    -- Eu também vou querer aprender a usar a flecha – disse minha prima.
    -- Eu também – exclamou Marcela. -- Você que é homem, aprende primeiro e depois ensina pra gente – acrescentou, dirigindo-se a mim.
    Luciana fitou-me com um olhar enfezado. No entanto, não esperei que ela abrisse a boca e desse início a uma discussão.
    -- A gente faz um arco e flecha para cada um e aprendemos todos juntos. Assim fica até mas fácil de acertar um desses pássaros. Vocês não acham? -- Era um truque que eu vinha usando ultimamente para evitar que a harmonia se desfizesse. Sabia que isso muito provavelmente não perduraria, mas eu não tinha alternativas.
    Luciana acalmou-se e a tensão desanuviou-se de sua face. Isso me deu um alívio, porque cheguei a pensar que a paz e a harmonia, a qual vinha durando uma semana, tinham terminado.
    -- E quando a gente vai fazer nosso arco e flecha? -- quis saber Ana Paula.
    -- Amanhã a gente vai procurar o tipo de árvore ideal. Não pode ser qualquer uma porque senão ela quebra quando for envergada – disse Marcela. -- A gente pode ir depois de acordar. Que tal?
    -- Já que você deu a ideia e entende tanto assim do assunto, vai com a Ana Paula e eu fico com Sílvio pescando. Quero que ele tente novamente a me ensinar a pescar. Da outra vez não tive paciência, mas agora prometo que vou ter – disse Luciana com humor. -- Meu pé já melhorou e agora posso firmar ele no chão. Só dói de vez em quando, quando eu piso com mais força. Mas já consigo firmar ele. Você vai ter paciência, não vai? -- perguntou Luciana de uma forma que parecia mais uma ordem do que uma pergunta.
    -- Vou sim.
    -- Eu também quero aprender – declarou Ana Paula.
    -- Depois ele te ensina. Primeiro vai ser eu – interveio Luciana.
    Vi naquele arranjo uma forma de afastar as duas para longe a fim de que ele pudesse ficar as sós comigo. Contudo, eu não tinha saída. Se sugerisse outra coisa e a contrariasse, provavelmente se revoltaria e acabaria descontando em todo mundo, como ela fizera antes. E certamente eu tornaria a viver um inferno em suas mãos.
    -- É meninas. Luciana tem razão. E eu também não gosto de entrar nessa mata enquanto vocês duas parecem que adoram. Eu também não sei que tipo de coisa serve prum arco e flecha. Nunca vi uma na minha vida. Só nos livros e na TV. E a gente também precisa comer. E quem sabe pescar além de mim? Ninguém. Só eu. Então? Eu vô pescar, aproveito para ensinar Luciana, e vocês fazem a parte de vocês – falei.
    -- Combinado – disse Ana Paula. -- Mas carne de pássaro tem o mesmo gosto que carne de frango? -- perguntou ela por fim.
    -- Sei lá – respondi.
    -- Não deve ser muito diferente. Afinal ambas são aves – afirmou Marcela.
    -- E que diferença faz? Desde que mate a nossa fome – interveio Luciana.
    A conversa prolongou até que a noite caiu e então cada um foi procurar o seu canto. Menos Marcela que precisava tomar conta da fogueira, embora já não se via tanta necessidade disso, uma vez que se podia cortar tronco de árvores, os quais mantinham a fogueira acesa por mais tempo. Antes de pregar os olhos porém, não pude deixar de pensar nela. Ela estava sentada diante da fogueira, tão próxima – eu podia ver seu corpo nu por causa da luz da fogueira -- e entretanto não podia nem mesmo ficar contemplando-a, ainda mais agora que estava toda nua. Vez ou outra eu até fazia, mas de forma que Luciana não percebesse, pois sabia que se esta visse, seria tomada pela desrazão, talvez a reação mais natural nas pessoas possessivas e escravas do ciúme, e fizesse alguma besteira.
    Mas se Luciana podia controlar meus olhares, não tinha poder algum sobre meus pensamentos. Então imaginei Marcela e eu correndo para o outro lado da ilha e se deitando na arei, rolando um por cima do outro e se entregando aos beijos, às carícias e finalmente unindo nossos corpos. Via meu corpo deslizando sobre o dela feito as ondas do mar que deslizam sobre a areia naquele ir e vir interminável. Ah, como essa imagem me deleitou! Deixei por várias vezes escapar um sorriso, o qual era ocultado pelo braço, uma vez que Luciana poderia virar-se em minha direção e surpreender-me naquela felicidade. E foi assim que adormeci.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

ADEUS À INOCÊNCIA - CAP. 57


Naquele final de noite fez-se de fato uma reunião com o intuito de selar a paz entre nós. A reunião foi iniciada por Marcela e ao final ficou decidido que não haveria mais discórdia entre as meninas, embora pude perceber no olhar de Luciana, o qual me era dirigido constantemente, que na primeira oportunidade ela romperia o acordo. Ficou decidido também que, devido a pouca possibilidade de sermos resgatados nos próximos dias (ainda não se falava abertamente no fim das buscas), faríamos uma boa melhora na cabana, tornando-a mais aconchegante a habitável, já que esta seria por um bom tempo o nosso lar. Todos, inclusive Luciana, que ainda não havia melhorado totalmente do pé, teria de ajudar. Não haveria privilégios e exceções. E por último, ficou decidido que vasculharíamos a ilha a fim de encontrar pedaços de metal para que usássemos como ferramentas ou que pudessem ser usado para fabricá-las; aliás, essa proposta partiu de Marcela em seguida a decisão de melhorar a cabana, quando indaguei como faríamos para cortar madeira para construir os alicerces, no que Marcela propôs encontrarmos pedaços de metal e derretê-lo. Lembro-me inclusive de suas palavras:
-- Claro que metais são pesados e afundam. Portanto eles não iam chegar aqui, mas algum pedaço preso à madeira ou a um pedaço de barco ou até mesmo deixado aqui por alguém. A gente já sabe que essa ilha já foi visitada. Pregos velhos e enferrujados. Devem ter alguns poi ai, enferrujados, mas mesmo assim servem.
E de fato ela estava com a razão. Foram encontrados por minha prima pouco mais de meia dúzia deles pregados numa tabua que a maré deva ter trago há alguns anos. Marcela achou um pedaço de chapa presa a um pedaço de pau, provavelmente destroços de um barco pesqueiro que naufragara ali perto. E nos dias seguintes, mais pregos, parafusos e mais um pedaço de metal medindo cerca de dez centímetros quadrados foram achados. Aliás, este último foi fruto de um golpe de sorte, uma vez que só pode ser encontrado porque Ana Paula estaca cavando a areia para fazer um castelo quando deparou com algo duro. E, ao cavar para ver do que se tratava, descobriu-se o pedaço de ferro.
Recolhemos tudo que achamos naqueles dois dias e então tornamos a nos reunir para decidir o que fazer. Eu não fazia a menor ideia de como derretê-los, pois sabia que aquele fogo brando da fogueira, a qual mantínhamos acesa desde a chegada à ilha, não serviria para nada. Luciana e Ana Paula chegaram inclusive a dizer que não seria possível derretê-los. Marcela por outro lado insistiu que se fizéssemos uma fogueira maior talvez desse certo, pois quanto maior a fogueira maior o calor. Isso inclusive gerou um princípio de discussão entre ela e Luciana, onde tive de intervir, relembrando-as da promessa feita há dois dias no sentido criar desavenças.
Os ânimos se acalmaram, mas era evidente que não por muito tempo. Luciana, possivelmente tomada pelo ciume, não suportava a outra. Uma nova briga era questão de tempo. Uma discordância ou uma palavra mais ríspida por parte de Marcela certamente levaria Luciana a iniciar um bate boca e quiça partir para a agressão, ainda mais agora que estava boa do pé e ela já conseguia andar embora se forcá-lo muito.
De fato Luciana e Ana Paula estavam com a razão. Levei ao fogo os pregos sobre a chapa de metal e deixei-os por mais de meia hora e não derreteram, mesmo colocando mais madeira a fim de aumentar o fogo e o calor. Realmente o calor aumentou, tanto que não conseguimos ficar tão próximos da fogueira como ficávamos antes, mas não deu resultado. Houve inclusive o temor de que o fogo pudesse atingir os pedaços de madeira que sustentavam a cabana. Assim, tanto os pregos quanto os dois pedaços de ferro foram deixados do lado de fora da cabana até o dia seguinte, na esperança de que encontrássemos uma utilidade para eles. Aliás, naquela noite mesmo, após aquela tentativa fracassada de derretê-los, Marcela sugeriu tentarmos novamente no dia seguinte, mas agora construindo com pedras uma espécie de fornalha e, ao invés de usarmos gravetos como vínhamos fazendo, usarmos pedaços mais grossos de árvore. A questão era que não havia como cortarmos as árvores.
-- Por que a gente não tenta amolar esse pedaço de ferro maior? É só você ir esfregando uma pedra dum lado dele que ele vai amolar. Depois a gente tenta usar ele para cortar um pedaço de árvore mais grosso – propôs Luciana. -- Eu te ajudo a cortar.
-- Podemos tentar – respondi.
E assim foi feito. Levei um dia e meio para conseguir afinar um dos lados da chapa de ferro, já que a mesma possuía cerca de um centímetro de espessura. Quando dei o serviço por terminado, jazia com as mãos machucadas e com os braços doloridos. E para compensar o meu esforço, houve uma salva de palmas, um parabéns para você e finalmente as três decidiram que eu ficaria na cabana descansando enquanto elas iriam em busca de algo para comermos, uma vez que naquele dia eu ainda não tinha ido pescar apesar de que tencionava fazê-lo mais tarde, antes de anoitecer. Aproveitei para tirar uma soneca, já que estava sozinho.
Acordei com o riso das três. Vinham alegremente em direção a cabana. Não consegui entender o que diziam, mas o fato de estarem sorrindo me tranquilizou, pois quando saíram temi que pudessem desentender-se e voltarem sem se falarem. Lembro-me inclusive de pensar: “É tão bom ver elas assim. Quem sabe Luciana pára de implicar com elas e larga até do meu pé. Ela sabe que num sinto nada por ela e que gosto mesmo é da Marcela. Talvez ela esqueça de vez aquela história de que sou seu maridinho e de que tenho que fazer um filho nela. Ela nem tentou me agarrar esses dias e nem me obrigou a meter com ela. É. Ela deve ter parado com isso. Viu que estava fazendo coisa errada, que Deus ia castigar ela. Ela disse que não acredita em Deus. Mas deve ter dito isso só da boca para fora. Como pode uma pessoa não acreditar em Deus? É até pecado pensar numa coisa dessas...”.
-- Olha o que achamos – disse minha prima, mostrando-me dois ovos, menores do que ovos de galinha. -- Ovos!
-- Onde vocês acharam isso? -- apressei em perguntar. Imediatamente levantei e fui pegá-los.
-- Lá em cima, no cume da ilha, perto de onde fomos outro dia – explicou Lucina. -- Subimos as três lá em cima. E não achamos só isso não. Olha aqui: -- estendeu o braço e aproximou a mão onde se encontrava três goiabas grandes e bem maduras. -- A gente trouxe essas aqui para você. É um presente.
Apanhei uma das goiabas e, antes de levá-la à boca, falei:
-- Mas e pra vocês?
-- A gente já comeu lá no pé mesmo. Eu comi quatro, a Marcela três e a Luciana também comeu quatro – disse minha prima. -- E tem mais lá, mas como estavam verdes, a gente resolveu deixar para ir buscar depois.
-- Vocês não deveriam ficar se enfiando nessa mata. É perigoso! -- falei.
-- Perigoso por quê? -- insistiu Luciana. -- Não vai me dizer que é por causa daquela história de que você andou ouvindo sons estranhos vindo de lá. Já te falei: mil vezes que isso é coisa da tua cabeça. Não tem nada ali. A gente andou a mata quase toda e não vimos o menor sinal de qualquer animal. Não tem pegadas, não tem nada. Portanto, não tem bicho nenhum.
-- Mas eu ouvi – insisti. -- Eu senti que tinha alguma coisa observando a gente.
-- Deve ter sido o vento que te deu essa sensação – disse Marcela, um tanto tímida e agachada num canto. -- Realmente não vimos nada.
Vencido, acabei aceitando. No entanto, não me convenci. Aliás, ninguém me convenceria do contrário, nem mesmo as mais contundentes provas. Eu podia estar errado e completamente equivocado, mas eu era tão somente um garoto de treze anos, e nessa idade ainda damos muito crédito à nossa imaginação, como se ela fosse tão somente uma extensão da realidade. Não havia amadurecido o bastante para distinguir o real do imaginário, ainda mais se levarmos em conta que, como acontece com muitas crianças, os pais, ao invés de educá-los de forma que essa separação fique bem clara, acabam por usar esta falta de discernimento para distorcer ainda mais a realidade, incutindo um medo que na maioria dos casos acaba afetando a criança para o resto da vida.
Olhei discretamente para ela e notei algo errado. “Será que ela e Luciana andaram brigando? Será que ela descobriu alguma coisa ente eu e ela? Não. A Luciana num ia contar. Pode ter sido outra coisa? Mas o quê? Perguntar. É melhor não. Quando a gente tiver sozinho eu pergunto”, pensei. Embora aquilo ficou me encucando na cabeça, provocando-me uma curiosidade difícil de ocultar, não toquei no assunto. Preferi esperar.
Comi duas goiabas apenas. Não que a outra não coubesse, eu apenas achei que poderia guardá-la para mais tarde ou para o dia seguinte. Nesses ínterim, foi levantada a questão de como cozinhar os ovos. Mais uma vez quem propôs a melhor solução foi Marcela: encher duas cascas de coco com água, colocar um ovo em cada e colocá-la na fogueira. Assim a água ferveria e cozinharia os ovos.
-- É assim mesmo que se cozinha ovos – explicou Luciana, numa das raras vezes em que concordou com Marcela.
Quando Ana Paula se levantou para buscar água para cozinhá-los, ofereci-me para acompanhá-la. As sós com minha prima, poderia indagá-la.
-- A Marcela parece estranha. Aconteceu alguma coisa entre vocês?
-- Não – respondeu Ana Paula. -- É que ela tá menstruada. E como ela num tem absorvente e aquela parte do biquíni só tampa um pouco na frente e atrás, embaixo fica sem nada e como ela tá menstruada, vai ficar escorrendo pelas pernas dela. -- explicou.
Fiquei surpreso. Em nenhum momento me passou pela cabeça que as meninas teriam de enfrentar esse problema.
-- Menstruada é quando a mulher tá naqueles dias? -- Eu já tinha aprendido alguma coisa sobre a menstruação, mas ainda sim não sabia do que se tratava com exatidão, dai a pergunta.
-- É isso mesmo!
-- E agora?
-- A Luciana disse que num dá pra fazer nada. Ela vai ter que ficar se lavando quando começar escorrer – disse Ana Paula.
-- E quanto tempo ela vai ficar assim?
-- Num sei. Uns três ou quatro dias. Ela disse que no mês passado ficou três, mas a Luciana disse que costuma ficar quatro. Então num sei.
-- Tudo isso? -- perguntei com espanto. Nisso ocorreu-me que também eu teria de conviver com aquela situação. Isso muito provavelmente alteraria a nossa rotina, uma vez que Marcela teria que se lavar muitas vezes ao dia. -- E você?
-- Eu? Ainda num fiquei. Sou nova ainda. Ainda não virei mocinha.
Enchemos os dois potes com água doce e retornamos. No trajeto de volta interroguei minha prima acerca daquela novidade. Algumas perguntas ela não soube responder; outras ela respondeu de forma insatisfatória, uma vez que, como ela mesmo afirmou, era muito nova para saber sobre essas coisas. Talvez se não estivéssemos chegando na cabana teria feito-lhe mais perguntas.
Após cozidos e deixados esfriar por alguns instantes, foram descascados e partidos ao meio, onde cada um saboreou lentamente a sua metade. Isso nos fez lembrar de nossa casa, da deliciosa comida que nossas mães preparavam. Cada um falou de seu prato preferido e de como este nos fazia falta. Um ar de saudade e tristeza se abateu todos nós, levando-nos ao mais completo silêncio; silêncio esse que só foi quebrado para dizer que deveríamos dormir para, no outro, dia tentarmos cortar algumas árvores para então construir uma casa de verdade.